Para quê veio Jesus? – reflexão sobre o cristão e a política

Para que veio Jesus? Para criar leis e trazer à humanidade um código de ética em que são toleradas algumas coisas/pessoas e abominadas outras? Não sei ao certo, mas não creio ter sido muito do que tenho visto, em especial propagandeado pelos cristãos no Facebook, aquilo que Jesus veio fazer.

Os judeus, no contexto do trabalho de Deus vivo entre os homens, estavam dominados pelos romanos. Existia uma lei romana a ser seguida, existia um governador nomeado por Roma e também líderes (notadamente religiosos) junto ao povo para preservação da Lei Judaica – a Torá, submetidos igualmente à Roma. Havia também e inclusive uma esperança de que o Salvador que viria da parte de Deus os libertasse desta dominação. Mas, contrariando até os próprios Romanos, Jesus não se filiou a nenhum partido ou grupo político da sua época.

Ele não organizou nenhuma cruzada para acabar com o poderio do Império dominante, como teriam feito os reis de Israel do antigo testamento. Ele simplesmente andou junto das pessoas e as influenciou. Ele ensinou aos seus próximos o que seria viver com Deus. Engraçado notar que as aulas dele não foram nem mesmo registradas em livros por ele mesmo. Os relatos que temos nos evangelhos são escritos de terceiros que observaram Jesus viver com Deus e falar daquilo com os que o cercavam. Então Jesus definitivamente não se propunha a cuidar da vida das pessoas por meio da política (não na concepção de política como conjunto de pessoas que representam o povo por meio de participação em algum plenário para tomada de decisões a respeito de regras a serem seguidas pelos representados).

O próprio Jesus em determinados momentos anunciou para qual motivo teria vindo ao mundo. Ao caminho do jardim onde seria preso e depois torturado e morto Jesus disse mais uma vez (e por último) aos seus discípulos “é chegada minha hora, para isto vim”. Dizia a respeito de sua morte, de como deveria sofrer aquelas coisas que estavam por vir para que se cumprisse a vontade de Deus. E a vontade de Deus não era que fosse criada uma nova lei escrita em substituição à Torá. A vontade Dele era de que o seu povo e todo o restante da humanidade voltasse a se relacionar com Ele, algo que só seria possível através do pagamento pelo pecado da distância. Pagamento este que foi feito por meio da morte em Cristo.

Talvez o que tenha causado confusão no meio cristão é o fato de que alguns religiosos (teólogos e não-teólogos) tenham feito um paralelo atual (no período eleitoral, sobretudo) entre a nação brasileira e as nações abençoadas e amaldiçoadas por Deus no antigo testamento. Deus nunca quis deixar de lado uma nação em detrimento de outra, até mesmo porque Deus é pessoal e trata por indivíduos e não por não este ou aquele grupo de pessoas (Mateus 22:32). Num primeiro momento estavam todas as pessoas (e por conseguinte, nações) condenadas em Adão e Eva pelo pecado do distanciamento de Deus. Posteriormente Deus escolhe uma pessoa (Abraão) para que se transformasse em uma nação (Judeus), por meio da qual traria ao mundo ele próprio (Jesus) para dar oportunidade aos seres humanos de voltar ao status anterior de relação com Ele mesmo (através da cruz e da ressurreição). Estas coisas ficam mais fácil de entender se as levarmos em consideração como um exercício que creio ser mais didático para que pudéssemos entender de que se trata relacionamento com Deus do que por amor de Deus por um e não por outros.

Claro está que Deus não se compactua com práticas que considera inadequadas. Assim, ainda que um grupo faça isso ou aquilo de ruim à época de Jesus, não há relato de que ele tenha condenado um tipo específico de pessoas que optaram por algo. É a velha máxima de que Deus odeia o pecado e não o pecador. Não há registro de projetos de lei, de manifestações em praça pública ou redes sociais da época de ódio por parte de Jesus a alguém que vivia em pecado. Até pelo contrário, temos que ele andou junto desses pecadores e os protegeu, na medida em que deu oportunidade a eles de o conhecerem e de mudarem de vida. Há os bons exemplos de Zaqueu e da mulher adúltera que podemos citar.

Fico muito triste quando leio no Facebook ou ouço em algum bate papo de cristãos sobre seu posicionamento religioso em relação a um grupo de pessoas que cometem pecado ou um candidato político específico que não tem projetos de acordo com os princípios que vivemos (como se o outro candidato também não tivesse projetos nada condizentes com os ideais cristãos e talvez até piores se analisados em conjunto). Estes argumentos não raramente vem acompanhados de falas sobre “defesa da família”, dos “bons costumes” e etc, expressões estas muito mais próximas de governos extremistas (de direita, como os facistas) e o governo militar da história ainda recente do Brasil. Parte do que ouço caminhando pelo nosso país em seus muitos cantos é apenas reprodução do que alguém disse diante de um púlpito e que em nada tem a ver com a experiência pessoal do meu interlocutor com Deus, o que mais me entristece e até me preocupa. Normalmente sofro calado, não falo nada, resolvi desabafar aqui hoje, passado o calor das emoções das eleições.

Para finalizar um exemplo do mundo das artes:

Em 2011 o ator Selton Mello dirigiu, co-escreveu e estrelou o filme “O Palhaço”. Entre as muitas reflexões que o filme faz está presente a ideia de papéis. Ele aprende de seu pai e chega à conclusão de que “o rato come o queijo, o gato bebe leite e eu… sou palhaço”.

Jesus não se aventuraria no mundo da política e deixaria de lado o plano de Deus para a humanidade. Creio ser extremamente importante nos fazermos representar na república em que vivemos. Mas creio que não devemos deixar de lado o ensino da palavra, o cuidado pessoal com quem nos cerca, a proteção de nossas famílias em casa com cada um dos seus indivíduos para a partir de um ou outro candidato tentarmos fazer valer o pensamento daquilo que cremos como propósito divino para os seres que ele ama. Fazendo um paralelo com o filme que citei como exemplo, Jesus veio salvar o mundo e nós…

Obs. O tema de longe se esgota aqui. Aliás, estou muito ansioso para ler o que alguns dos amigos do blog pensam sobre o que tem estudado a respeito do assunto.

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

3 comentários sobre “Para quê veio Jesus? – reflexão sobre o cristão e a política

  1. Gostei do texto Rafa. Achei sóbrio e concordo com o conteúdo. Eu só achei que o recorte que deu no último parágrafo antes do vídeo poderia ter sido ampliado. Vi no Facebook coisas ridículas, tanto as de caráter ultra direitistas (com todos os seus preconceitos) como as de caráter socialista (com todos os seus preconceitos). Creio que ambas as ideologias são humanistas e é triste pensar que muitos cristãos tem se apegado a essas ideologias de forma idolatra. O que mais vi foram cristãos se ajuntando em torno de bezerros de ouros, enlouquecidos para defenderem seus deuses e deixando de lado os dois principais (e únicos) mandamentos que Jesus deixou. Abraço meu amigo!

  2. Concordo, Homerão, tinha muita gente deixando de lado o pensamento cristão e se enveredando pra algo que chamam de esquerda com o pensamento de que o homem sozinho vai resolver o problema da humanidade e do país. Que bom que curtiu.

    Quando disse dos cristãos que tem adotado discursos de “defesa da família”, dos “bons costumes” para justificar o voto em alguém (deputado, senador, presidente, qualquer cargo e não só agora nestas eleições) é porque vejo que são demonizados alguns em virtude de outros por uma ala da igreja, especialmente evangélica, como se Deus estivesse apoiando algum candidato específico e fosse acabar com o país se o outro ganhasse. Opinião cada um tem uma e é complicado afirmar aqui que estes cristãos estão errados. A ideia do post é mais trazer o que penso também sobre o assunto do que querer convencer as pessoas que pensam diferente de mim, tipo os que comentei acima.

  3. Espero voltar aqui em breve com alguma conclusão. Parabéns, Rafa, pela dedicação ao escrever o post.

    Costumava usar o discurso de que, não tendo vocação para ‘messias’, poderia sim me vincular a uma corrente de pensamento qualquer. A que achasse mais ‘justa’.

    Mas talvez, como cristãos, precisemos repensar a função do Estado a partir da Bíblia, ainda que apenas numa dimensão, a da ‘justiça pública’. Não estou falando em Estado Teocrático, mas ainda não saberia dizer com segurança.

    Curti a sua preocupação com o espiritual também.

    Grande abraço e espero voltar logo. hehehe

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