Padaria

Faz alguns anos que sou consumidor quase que diário de um pão com manteiga e café numa padaria perto do escritório onde trabalho. A rotina já faz dispensar algumas formalidades com a frase direta do “O de sempre, por favor”, sobretudo em manhãs que se seguem de noites mal dormidas ou finais de semana mais intensos.

Fui descobrindo que as padarias são dos ambientes mais democráticos e libertários que se poderia imaginar; algo como um estádio de futebol… destes lugares em que a gente sai imaginando se algum tipo de censura não teria lá seus benefícios, tal como uma garantia que pudesse proteger a genialidade dos burros calados. E a minha padaria ainda mais, em especial por causa do engajado caixa/proprietário que compartilha gratuitamente todos os seus remédios desenvolvidos pra curar os rumos deste país e que ainda guarda trunfos na manga com análises preciosas sobre futebol e conselhos públicos sobre questões amorosas. Não poucas vezes, fui testemunha de todas as suas habilidades envolvidas numa só conversa, com conclusões existenciais das quais não seria aqui capaz reproduzir. Curioso ainda que a cada conclusão de raciocínio, costuma trazer ele o olhar ao meu buscando uma aprovação de sua linha de raciocínio, a qual eu com um sorriso amarelo balanço a cabeça em tom inquisitivo. Algumas figuras ainda se repetem a cada manhã tal como a minha própria. Um office boy incondicional fã de Lula, um corretor de imóveis que divide o muro com a padaria e um travesti de perfume marcante. Outras sazonais também ali se misturam dando o ar de sua franqueza… velhinhas da vizinhança, crianças correndo, gente de carro bonito, técnicos da NET, garis e mais uma porção de outros tantos que passam sem ser notados.

Hoje realmente não sei dizer o que mais me atrai para ali todas as manhãs, se o café melado de cada dia ou esta experiência antropológica. Aliás, confesso que a segunda talvez me faça mais falta, quando me pego nas raras manhãs de silêncio em me vejo jogando com ardil um assunto fresquinho de manchete anterior, como quem acende um fósforo e vai saindo de fininho vendo o circo pegar fogo.

Não me recordo de ter me posicionado sobre alguma coisa por lá… talvez por uma ou outra vez, mas receio que por não ter falado alto o suficiente ou por um tom mais moderado, não tivesse merecido a palavra. Aliás, nestes dias que se repetem, não teria me saltado qualquer um que assim como eu fosse um cauteloso de poucas palavras. Mas na ágora da minha padaria de todos os dias, viram-se os holofotes mesmo aos notórios da agudez de discurso.

4 comentários sobre “Padaria

  1. Ô Guilherme Marchi!!! Pelo amor de Deus, não pare de escrever, amigão! Eu fui tomado de emoção ao viver os momentos contigo na padaria… Deu até vontade de ir lá conversar com o caixa/proprietário! A gente tá falando do inconfundível Nélio ou seria outra padaria??? Rsrsrs…

    Grande abraço, Gansão!!!

  2. Gansão, realmente é um privilégio ler seus textos. E também os bate papos na portaria da gincana.

    Grande abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *