Outra realidade

Certo dia, às 21h, saí de uma aula na Cristóvão Colombo entre Inconfidentes e Alagoas. Precisava ir ao Pátio Savassi. Com dó de tirar um taxista do ponto pra andar 3 quarteirões comigo e vendo que ainda havia gente na rua, decidi caminhar até o Shopping. E então a avenida ficou vazia. Eis que vejo dois molequinhos vindo em minha direção, em frente à Caixa, entre a Alagoas e Getúlio Vargas. Mais de dez anos eles com certeza não tinham. E eu de mochila, que estava inclusive recheada de coisas. Me viram, um continuou vindo pela calçada e o outro veio vindo pela rua. Já pensei que era alvo fácil deles. Quando nos aproximamos mais, decidi correr pra passar rápido por eles e ver se eles ficavam sem reação. Eles começaram a correr também na minha direção. Vieram me cercando, pedindo a mochila, um deles balançando algo na mão que devia ser um caco de vidro. Na hora – não sei de onde me deu isso – empurrei o do caco de vidro e corri em direção à avenida. O molequinho ainda me segurou pelo cabelo, eu dei um soco pra trás pra me desvencilhar e saí correndo.

A primeira reação de muitas pessoas ao pensar numa situação dessas é de revolta, de achar um absurdo ter as coisas e não poder usar, não poder sair na rua com elas. Revoltar-se contra os pivetinhos…  A minha reação em situações dessas é a mesma também, muitas vezes. Mas fiquei pensando… Eu voltei pra casa depois disso e eles? Voltaram pra cartolina deles em algum canto escuro da Savassi, sem pai nem mãe… Dormindo com um olho aberto… A vida deles é 30 milhões de vezes mais difícil que a minha e eu não tenho nem idéia da realidade deles (Exemplo: alguma de vocês já parou pra pensar como deve ser pra uma menina de rua ficar menstruada? Como é que faz? Não tem higiene nenhuma)… No dia seguinte teriam que começar a se virar tudo de novo, sem ter quem os sustente, sem brincar, sem ir pra escola, sem ter o carinho de uma família. É óbvio que roubar é errado, mas quem sou eu pra julgar, nunca estive na pele deles, nunca me faltou comida, cama… E nem precisa de ser morto de fome (ou, infelizmente, viciado em droga, como pode ser o caso deles também) pra roubar. Nem precisa também ser um político podre de rico.

Um amigo meu uma vez contou que estava conversando com um conhecido na cantina da faculdade sobre corrupção e esse amigo estava indignado com a atitude dos políticos, com a roubalheira… Quando decidiram ir embora, ao invés do indignado ir pagar o pão de queijo que ele tinha comido, o que ele fez? A moça do caixa não o tinha visto, então ele saiu de fininho sem pagar.

Não é exatamente a mesma coisa que ele tinha acabado de condenar? Também não aceitamos troco a mais calados, comemos as uvas do supermercado sem pagar por elas, levamos papel do trabalho pra usar em casa…?

Não há um justo, nenhum justo sequer.

ana.oliveira

Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

14 comentários sobre “Outra realidade

  1. É muito tranquilo passar alheio por todas as experiencias que vivemos. Aliás, o funcionamento de um blog pode ser esse. Não deixar que as situações cotidianas passem despercebidas! Que mal há em repreender os meninos já que eles destoam da dinâmica social?? O problema é: as coisas não acontecem por acaso. Há sempre fundamento. Se não trazemos conosco a prática da reflexão, não ganhamos nada! Muito fácil é criticar o vizinho, mas quando somos nós que praticamos o mal ele aparenta ser menor! Roubei uma frase no Orkut do Edu (alvo): “Quando outros os cometem [pecados], você fica sobressaltado; mas quando é você quem os comete, parecem completamente naturais.” (Elspeth Huxley)

    Bem foi isso o que pensei Ana. Mais uma vez. Que bela contribuição! BJOS

  2. Achei bastante interessante a sua reflexão sobre o ocorrido, Ana… Creio que o nosso grande problema(além da injustiça, que é bíblico), é o fato de que nós não temos a competência, ou coragem ou quem sabe até a mínima vontade de tentar compreender o que há por trás de uma atitude… Quão diferente seria o mundo se as pessoas pensassem… Resolvessem colocar as suas cabeças para funcionar… Pensar para falar, pensar para agir, pensar para orar, pensar para comprar… Pensar… “Por que será que sou tão injusto?”
    Bjo e valeu pela experiência…

  3. Muito bom Ana! Vejo que olhamos para as atitudes e vida dessas pessoas e pensamos muitas vezes, no fundo do coração: “deveria estar atrás de uma jaula!” Mas me pergunto: Qual é a minha parcela de culpa em transformar alguns deles em bichos? E quando me avalio, mais uma vez, lá no fundo do coração, chego à infeliz verdade de que preciso também ir para trás de uma jaula!
    Abraço a todos!

  4. Amiga, gostei muito do seu post!
    Bacana vc nos contar de uma situação q vc viveu! Adorei!

    Seu post me marcou e me levou de volta à realidade dura e fria em que vivemos.

    De fato precisamos sim, muitas vezes (acredito que todas, na verdade), nos colocar no lugar do outro e tentar imaginar como é a vida dele antes de sairmos julgando tudo e todos a nossa volta.

    Obrigada!
    Bjao

  5. Ana, já me questionei muitas vezes nesse sentido. Ver pessoas na rua que vivem uma realidade completamente diferente da minha e julgar seu comportamento, sentir medo do que elas possam fazer comigo e ao mesmo tempo pensar em como deve ser o lugar onde elas moram, se moram em algum lugar… Julgar o erro dos outros sem estar na pele deles, sem viver os mesmos desafios… Todos erramos e só a graça de Deus é que nos salva!

  6. Bela reflexão.
    Concordo completamente com o que disseram… Tenho certa facilidade em adotar a linha de raciocínio que você adotou, i.e., não julgar pensando que se você estivesse no lugar deles você faria o mesmo. Mas fico triste que mesmo assim não consigo amar: atravesso a rua demonstrando medo, fecho o vidro do carro quando se aproximam, entro no carro correndo, etc…
    Essa vida é difícil!

  7. É um ciclo vicioso. Pessoas com nada fazendo o que podem e o que nao podem pra sobreviver, assustando os que possuem uma condição um pouco melhor que se trancam cada vez mais dentro de uma redoma de vidro, se afastando cada vez mais da realidade desses meninos, que passam a ser cada vez menos amados e assim vai…

    É dificil não ficar com medo, muitas vezes. E o que fazer? Dar uma esmola? É como dar um dorflex pra quem tem câncer, pode até ajudar, mas não resolve.

    Realmente algo pra se pensar mais…

  8. É, é muito fácil falar do pecado dos outros, das atitudes erradas… Mas admitir as nossas… De fato, se tivéssemos mais compaixão para com os outros e buscássemos entender melhor suas motivações, tudo seria menos complicado, haveria muito menos discórdia e problemas.
    Acho que é nosso papel como cristãos e cidadãos buscar mudar a realidade em que vivemos, melhorar a vida das pessoas à nossa volta. Mas é o que o Rato e o DK falaram: no dia-a-dia, pelo menos na nossa rotina normal, é muito difícil manter-se aberto ao diálogo e à proximidade com essas pessoas que têm a realidade tão diferente da nossa. A nossa reação “pela sobrevência” é se afastar, querer distância e isso cria um ciclo mesmo… Mas são seres humanos, não monstros que deveriam estar em jaulas… São pessoas que deveriam estar bem integradas à sociedade e com uma vida digna.
    É muito complicado isso, não é nada trivial… Como integrar essas pessoas? Como lidar com isso, com o medo, com o preconceito? Talvez nesse quesito a economia e a psicologia possam andar lado-a-lado!

  9. Gostei da sua reflexão Ana Lu…
    Pessoalmente eu não acredito que teremos uma política justa pelo fato de que os homens são injustos. Se eu fosse um governante, talvez, tivesse alguns acertos, mas, certamente, cometeria muitas injustiças. É fácil ficar falando de corrupção no governo e negligenciar a corrupção do nosso ser. Agora, como vivemos em um sistema democrático, é fundamental que avaliemos a atuação de nossos governantes e questionemos seus posicionamentos e integridade.

    Com relação aos garotos pobres é uma situação muito difícil. Pessoalmente, acho que poderíamos ter mais carinho com os excluídos e marginalizados. Certa vez, eu estava de terno indo para uma festa de casamento. Eu estava passando por uma praça com a Cris, e a Cris me deu uns 5 reais em moedas e me apontou um mendigo e pediu para que eu entregasse a ele. O cara ficou tão feliz, mas tão feliz que estendeu a mão para mim, me cumprimentou e, em seguida, me abraçou forte e começamos a conversar, conversamos muitas coisas… Havia alguns tios e primos da Cris que viram a situação e acharam esquisitíssimo, mas não liguei. Naquele momento eu estava muito emocionado e estava muito feliz por ter aquela conversa agradável.
    O lado triste é que isso aconteceu apenas uma vez. Sou insensível e sem coração. Não raramente vejo pessoas pedindo esmola e viro a cara para não ser incomodado. Nessa situação inclusive eu não estava nem aí para o mendigo. Quem amoleceu o coração por ele foi a Cris e não eu… Algumas vezes que ajudo pessoas na rua dou aquele 1 real básico e às vezes me pergunto se estou ajudando de coração ou se é só para constar…

  10. Marcelinho,
    Muito legal vc compartilhar esse fato conosco. Também não sei como agir, viu… De verdade…
    Jesus nos chama a ajudar os pobres, os necessitados, aqueles que nos pedem. Isso é muito claro. Mas por outro lado, vemos tantas crianças na rua pedindo esmola a mando dos pais (eu vivi isso ontem na hora do almoço), que não sei se ao ajudarmos estaremos contribuindo pra infância delas ou não. Acho que não, tanto é que há mil campanhas pra não darmos esmola… Isso inclusive as tira da escola, do tempo de brincar… Mas e aí? Como conciliar? Como viver isso? Não sei!! hehe

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