O judeu, o grego e o ocidental

Aprendi muito em uma recente conversa com um amigo judeu, o famosíssimo David Jonja, e decidi compartilhar algumas idéias da nossa conversa aqui. Tudo começou com um comentário sobre a “nossa civilização judaico-cristã-ocidental”. Eu mesma ainda não consegui compreender por completo a complexidade do tema, mas achei muito interessante. Agradeço ao David pela palestra transcrita do Rabino Jonathan Sacks, da qual cito alguns trechos.

Nessa palestra, Sacks afirma que o “passatempo” predileto do judeu é discutir, é próprio da cultura judaica.  Todos os textos judaicos consistem no seguinte: O Rabino X diz isto, o Rabino Y diz aquilo, são baseados nas discussões, nos pontos de vista, nos argumentos.

Há aquela piadinha de que entre dois judeus conversando sempre surgem três pontos de vista distintos. De fato, a cultura judaica é uma que preza pelo diálogo e pela construção do conhecimento dessa forma. Abraão discute com Deus, Moisés discute com Deus, Jeremias discute com Deus, Jó discute com Deus… “Há uma outra discussão ao redor da discussão no Talmud, que está ao redor da discussão na Mishná e ao redor de tudo isso, em letras pequenas, há os argumentos acerca dos argumentos acerca dos argumentos (…) Se vocês fossem descrever a literatura religiosa rabínica, a melhor expressão para ela que eu posso pensar é ‘antologia de argumentações’”.

A civilização ocidental bebe dessa fonte, pois é o produto de duas civilizações imensamente poderosas. De um lado, a Grécia antiga. Do outro, o antigo Israel. Atenas e Jerusalém. São duas culturas muito diferentes, mas assumimos que podiam ser razoavelmente traduzidas uma para a outra. Porém, consistem de linguagens e sistemas de pensamento bastante distintos.

 O pensamento grego é lógico. O pensamento judaico é mais do que lógico, segundo Sacks, é dia-lógico, porque busca conferir dignidade às múltiplas perspectivas. Através das discussões, o judaísmo busca abarcar ambos os lados do que parecia uma contradição. Mas só parece uma contradição porque pensamos que o mundo é bidimensional, mas o Judaísmo se preocupa com uma dimensão tri e quadridimensional. O Judaísmo rejeita a lei da contradição, rejeita o sistema de lógica grega. Portanto rejeita a base do pensamento ocidental. Porque o pensamento ocidental procura ver tudo em termos de duas dimensões: ou é verdade ou é falso. Sempre há mais do que uma perspectiva para o judaísmo, pois o mundo é uma multiplicidade irredutível de perspectivas. Isso me lembra muito o perspectivismo indígena, do qual o pessoal da antropologia gosta muito. Ver a perspectiva do outro, da planta, do bicho, de tudo. É meio viagem pra mim, mas é interessante.

 “Suponhamos que vocês e eu vemos as coisas de forma diferente. Nessas circunstâncias, podemos conversar. Vocês podem me dizer como vêem o mundo, eu posso falar para vocês como eu vejo o mundo. Através dessa conversa, podemos aprender como se sente ser diferente. O homem pode aprender como se sente ser mulher. Um adulto pode aprender o que se sente ser uma criança. O homem pode entrar num diálogo com D-us.”

Achei muito interessante essa visão. Se nos abríssemos mais e valorizássemos mais o ponto de vista do outro, seríamos pessoas muito mais ricas, mais sábias, com maior compreensão do todo. Mas o ficar fechado na nossa visão, no preto-no-branco, nos faz perder com a riqueza e a diversidade do mundo com o qual nos defrontamos.

ana.oliveira

Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

6 comentários sobre “O judeu, o grego e o ocidental

  1. Muito bom Ana!!
    Gostei muito de ler o texto e conhecer mais um pouco dessa cultura tão rica. Creio ser muito importante entender o judaismo para entendermos Cristo, pois Ele era um judeu e não um grego ou um cristão! Reduzimos muito o evangelho com a tendência de interpretá-lo como um grego e não com a visão de mundo judaica. Quero aprender com essa visão “quadridimensional” do mundo!
    Abraço

  2. Toda Rabá Ana! Gostei do texto e acho importante que todos possam se desprender um pouco do mundo do “isso ou aquilo”. Tentarei te indicar mais sobre o assunto caso encontre algumas coisas. Te aconselho a procurar mais livros do Rabino Jonathan Sacks (tem coisa traduzida). Sabes que não quero entender melhor os Evangelhos, mas já pensou estudar matemática de forma dialógica?
    Abs.

  3. Shalom!
    Achei essas idéias muito legais quando as ouvi do David. Tanto pra compreensão da bíblia, dos Judeus, de Jesus e da nossa própria sociedade quanto pra nós mesmos, pro preto-no-branco em que vivemos e forçamos os outros a viver. Toda Rabá, David!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *