Natureza x Graça , em cores.

Uma maneira muito singular e interessante de identificar como o duelo entre Natureza X Graça surgiu é observando as pinturas de temática religiosa do período correspondente. Tomemos, por exemplo, a arte bizantina. Com seu apogeu entre  520 e 565,  os famosos mosaicos bizantinos seguem uma linha basicamente definida pela ausência da natureza, pela supervalorização do sagrado e por retratar Maria, mãe de Cristo,  ou mesmo João Batista, através de símbolos.

Mosaico na Basílica de Santa Sofia
 Basílica de Santa Sofia
              Batistério de Florença

Uma ruptura e mudança considerável se deu quando, por volta de 1250,  Thomás de Aquino iniciou um debate sobre a dualidade entre natureza/graça. Francis Schaeffer chegou a escrever em A Morte da Razão: “Com o advento de Tomás de Aquino, temos um verdadeiro surto da Renascença Humanista.”  Neste período os artistas tornam-se conscientes da existência da  natureza, visualizando o homem dentro da criação e tentando entender melhor como este relacionamento se dava.  A chamada “Teologia Natural”, formulada através da observação da natureza e sem vínculos com a Bíblia surgiu também neste mesmo período.  Elementos da natureza passaram a ser representados juntamente com os elementos do sagrado. Ainda neste período, apesar de marcar o início da mudança das pinturas sacras, Maria ainda aparece muitas vezes representada por um símbolo.

Pintura de Giotto
           Pintura de Giotto – em 1305

Com o avanço do humanismo e o renascimento ditando todas as regras, a conceito de natureza foi afastando-se cada vez mais do conceito de Deus, ao ponto da natureza “devorar” a graça no clímax do movimento. Famosa ilustração deste período é uma miniatura produzida por Van Eyck, no ano de 1410. O tema é o batismo de Jesus, mas notem como a natureza é preponderante, e o batismo parece soar como simples detalhe do mini- quadro (12×8 cm)

 

Natureza x Graça
                          Natureza x Graça

Quando em 1465 Filippo Lippi pinta uma Maria jovem, esbelta a bonita, a ruptura torna-se visível. O fato mais importante desta ruptura é que a jovem Maria é um esboço da amante de Lippi, fato conhecido na Florença de 1460.

A jovem "Madonna" de Lippi.
A jovem “Madonna” de Lippi.

 

De um mero símbolo ao retrato da amante, podemos perceber como a natureza superou a graça tanto no pensamento humanista quanto nas artes renascentista, fato que se tornou ainda mais pungente nos anos vindouros.  Para fechar, e ilustrar de forma bem brasileira o duelo travado entre Natureza x Graça na pintura de tema sacro, deixo abaixo o famoso quadro “A primeira missa do Brasil”, pintado por Victor Meirelles  em 1861, cujo simbolismo vai muito além da temática da pintura.

Um abraço!

Pintura de Victor Meirelles (1861)
             Pintura de Victor Meirelles (1861)

* este post foi fundamentado nas ideias encontradas no capítulo 1 do livro “A morte da Razão”,  de Francis Schaeffer.

4 comentários sobre “Natureza x Graça , em cores.

  1. Mto bom!

    Fico me perguntando se esse caminho de trazer para o centro o homem é totalmente ruim. Eu creio que não. Pq o advento dos direitos humanos, o rompimento com as atrocidades do romanismo são coisas boas e eu percebo nisso a mão de Deus. A valorização do humano é, em alguma medida, a proposta cristã, se assumirmos o Cristo como o perfeito humano.

    Mas sem duvidas o humanismo secular e o excessivo antropocentrismo trouxe mtos problemas pra a humanidade, especialmente em relação à identidade do homem que está necessariamente ligada a Deus. E as artes mostram bem esse rompimento…

    Valeu Nerudao

  2. Bacana. Gosto muito de pensar e analisar as transformações artísticas como vanguarda filosófica. Acho que valeria a pena explicar um pouco sobre o porque das mudanças em Tomás de Aquino. Deixar um pouco mais claro a questão da razão e fé, e dá teologia natural como consequência da equiparação da razão à fé.
    Valeu pelo texto

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