Música de elevador

Apesar de sempre atual, o discurso cristão quase nunca será tido como contemporâneo. Digo com isto que em algumas ocasiões o Evangelho será tachado de retrógrado quando comparado ao contexto de mundo em que é pregado. Outras tantas vezes não será compreendido em sua concepção vanguardista de boa nova, razão pela qual o definirão em sua utopia de um futuro do qual não se alcançaria. Justamente pelo que se propõe, está deslocado de seu tempo, convidando o mundo em que se insere a repensar-se. Como verdade imutável revelada, jamais correrá ao encalço de uma sociedade construída. Num primeiro ponto porque não a imita, tampouco a cerca tal como as leis que seguem sempre um passo atrás no afã já perdido em alcançá-la. Noutro, porque simplesmente é, sem um compromisso simpático, ainda que naturalmente cativante. Porque o Evangelho questionará sempre este movimento, recusando-se a entrar na dança, dizendo sobre o que permanece.

Assim encontramos a Palavra, sensível ao mundo em que é pregada porque se contextualiza em amor, mesmo sem se amoldar, inconformável que é. Porque carregará consigo inevitavelmente a potência incendiária, um feixe revolucionário de se propor ao inteiro, ao rompimento em novo sentido e de inclinação oposta. E neste caso, o prêmio de se ter radical, como termo próprio que designa a saúde de sua anunciação. Porque a Palavra que não cause é enferma, carente de sua completude.

Assim nosso compromisso não é com a multiplicação do Evangelho, com sua assimilação ou recebimento. O compromisso é com o ir, com a Verdade em toda sua inteireza, porque nos foi assim fornecida. Não há um pedaço mais feio, algo que se necessite maquiar ou omitir. Toda Palavra é santa e viva e colhê-la de seu contexto perfeito e completo é mentir por omissão, de quem não se justifica por suas intenções e peca por criatividade de algo que por deixar de ser pelo todo é outra coisa pelo seu partido. E uma vez anunciada como é, nos foge a qualquer de nossas capacidades o convencimento.

Dentre os imperativos de grande comissão, não nos foi dado o desígnio de fazer o Evangelho mais palatável. Há sim sabedoria do espírito para compreender pessoas e histórias, mas a popularidade da Palavra não se dá por seletividade ou eufemismos de discurso. Ocorre pelo sopro que encontra verdade num coração aflito, sedento pela revelação de quem ouve o que anseia, as palavras da salvação.

3 comentários sobre “Música de elevador

  1. “Porque a Palavra que não cause é enferma, carente de sua completude.”

    Não sei nem adjetivar esse post daí, Gansão!

    Só continue escrevendo…

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