Muitas riquezas e muitas pobrezas

Conheci pessoalmente o Pedro Dulci ano passado, mas antes já havia lido o seu livro “Ortodoxia Integral”. Vi também algumas palestras dele e posso garantir: o Pedro é um prodígio. Cara novo e sabe muito de filosofia e teologia. Ele faz parte do Movimento Mosaico (siga no facebook e no instagram @movimentomosaico), uma plataforma relacional que tenta integrar muitos segmentos da igreja de Cristo no Brasil. O Rafael Pijama e tantos outros caras legais estão por trás desse projeto. De uma certa forma tenho caminhado com eles, o que tem me ajudado muito! Creio muito na complexidade do significado de pobreza, que não é restrito apenas ao contexto econômico. Veja o texto do amigo Pedro logo abaixo. Aproveite!

 

“O terceiro capítulo do livro dos Atos dos Apóstolos narra que os apóstolos Pedro e João se dirigiam ao Templo para orar. Na porta do Templo estava um deficiente físico que era colocado ali todos os dias para pedir esmolas. Ao ver os dois discípulos de Jesus esse homem implora por algum dinheiro. No entanto eles o respondem da seguinte forma: “‘Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isto lhe dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande’. Segurando-o pela mão direita, ajudou-o a levantar-se, e imediatamente os pés e os tornozelos do homem ficaram firmes. E de um salto pôs-se de pé e começou a andar. Depois entrou com eles no pátio do templo, andando, saltando e louvando a Deus” (At 3.6-8).

Com certeza, o tema desse trecho bíblico é o testemunho incrível do poder de Deus operando no meio dos homens – que tinha valor relativo à pregação do evangelho que ele imediatamente desencadeou (At 3.11-26). Entretanto, o que nos chama atenção nesse relato são alguns detalhes desse testemunho do poder do Espírito Santo. A rotina espiritual de oração dos apóstolos foi interrompida pela carência monetária de um desconhecido das ruas de Jerusalém. Essa pobreza econômica não é suprida pelos apóstolos – por também não disporem de nenhuma riqueza econômica para dar. Entretanto, naquilo que eles eram ricos o deficiente físico recebeu – tão somente porque Pedro e João se dispuseram a dar.

Muitas riquezas e muitas pobrezas foi uma forma que encontramos de comunicar essa disposição apostólica de compartilhar aquilo que temos – uma prática característica da vida da Igreja no poder do Espírito Santo. Pedro e João sabiam que essa riqueza não era deles (At 3.12). Eles haviam sido enriquecidos pelo Senhor Jesus e tributavam à glória dele toda administração do que tinham. Era consenso na doutrina apostólica que: “a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo. Por isso é que foi dito: ‘Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativo muitos prisioneiros, e deu dons aos homens’” (Ef 4.7-8).

A Igreja do Senhor Jesus no Brasil também precisa tomar consciência de que todos os seus membros foram enriquecidos por Cristo: “nele vocês foram enriquecidos em tudo, em toda palavra e em todo conhecimento, porque o testemunho de Cristo foi confirmado entre vocês, de modo que não lhes falta nenhum dom espiritual, enquanto vocês aguardam que o nosso Senhor Jesus Cristo seja revelado” (1Co 1.5-7). Somos ricos da Palavra de Deus, do conhecimento da verdade e dos diversos dons espirituais. Isso não apenas nos dá certeza da esperança da volta do nosso Senhor Jesus, como também uma responsabilidade de repetir o gesto apostólico de reconhecer o que não temos, e repartir o que temos, no Nome de Jesus Cristo (cf. At 3.4).

Muitas riquezas e muitas pobrezas é um projeto de reforma e transformação da realidade.  No entanto, cremos que nossa presença só poderá ser fiel ao chamado de Cristo para o lugar em que estamos quando tivermos nossos corações transformados. A semelhança dos discípulos, quando formos capazes de reconhecer nossas pobrezas, repartir nossas riquezas e discernir quem precisa ouvir “levanta e anda” e quem precisa ouvir “Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados” (At 3.19). Dentre outras coisas, isso significa aplicar o mandato de mordomia daquilo que Deus nos deu às diversas modalidades da realidade. Temos total consciência das carências econômicas do próximo, mas não podemos reduzir ao monetário aquilo que pode ser urgente arrependimento espiritual, necessidade ética, reparação jurídica, enriquecimento estético, reconciliação histórica, e assim por diante.

Trecho extraído do livro: “Muitas Riquezas Muitas pobrezas” a ser lançado pelo Movimento Mosaico em 2016 (Pedro Dulci, Ed).

Gabriel Lazarotti

Sobre Gabriel Lazarotti

Redimido pelo amor de Deus. Discípulo de Jesus que segue por este Caminho. Um sincero apreciador da criação. Pretenso poeta todo o tempo, advogado e músico nas horas vagas.

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