As marcas do Autor do livro preto

John Stott foi um dos maiores nomes da história da igreja cristã. Era pastor de uma igreja evangélica na doutrina e na teologia; e católica na liturgia e nos sacramentos, uma vez que era clérigo anglicano. Sua atividade intelectual foi muito intensa, tendo escrito centenas de livros e, apesar de ter sido vinculado a uma tradição específica, sempre esteve presente no hall de entrada da família cristã, ensinando sobre fundamentos comuns da fé.

Ontem li um capítulo do livro “O discípulo radical” de Stott e o que mais me impressionou foi a maneira simples como comunica verdades muito profundas. Talvez isso seja fruto de sua maturidade, já que o capítulo, daquele que foi provavelmente o seu último livro, foi escrito em seu 86º aniversário.

Em resumo, Stott faz as seguintes perguntas: qual é o propósito de Deus para o seu povo? O que vem depois da conversão? E logo responde: Deus quer que o seu povo se torne como Cristo, pois semelhança com Cristo é a vontade Deus para o povo de Deus.”

Ser como Jesus é envolve muitas coisas, mas poderíamos concentrar tudo em uma só palavra: santidade. Aliás, a vontade de Deus é a nossa santificação, como escreveu o apóstolo Paulo em I Tessalonicenses 4:3. Mas não nos assustemos, porque essa caminhada é processual. Podemos ser cooperadores nesse processo escolhendo tomar a nossa cruz, no entanto, só pelo poder do Espírito Santo, que nos infunde graça, é que conseguiremos cumprir esse propósito. Agimos sim, mas descansando nos méritos de Cristo.

Mas sabe de uma coisa? É salutar notar progressos. Hoje mesmo ouvi uma música linda da banda CantoVerbo (fica aqui a minha recomendação para ouví-los. O CD está no Spotify) que dizia:

“Eu via nela, na vida dela
as marcas do Autor do livro preto
que não mente, não muda e não erra
Eu via nela, na vida dela
Pois quem confia no Autor do livro preto
não encontra lugar nessa terra.”

Acho que o André, autor desses versos, resumiu bem o nosso desafio: cooperar com Deus para que as marcas de Seu amor estejam muito presentes em nossas vidas de tal maneira que não encontraremos lugar no sistema de valores dessa terra.

Minha oração hoje é para que o Senhor continue nos enchendo com o seu Santo Espírito e para que nós mostremos as marcas do Autor do livro preto em nossas vidas, sendo semelhantes a Jesus no caminho para a santidade.

Gabriel Lazarotti

Sobre Gabriel Lazarotti

Redimido pelo amor de Deus. Discípulo de Jesus que segue por este Caminho. Um sincero apreciador da criação. Pretenso poeta todo o tempo, advogado e músico nas horas vagas.

8 comentários sobre “As marcas do Autor do livro preto

  1. Legal, Gaba

    Permita-me uma provocação: você acredita mesmo que Jesus é o melhor exemplo de um cara Bondoso? Será que Jesus nunca falou nada desagradável ou moralmente reprovável? Será que não está analisando a bíblia somente depois de ter a visão de que tudo que Jesus disse necessariamente é correto e bom?

    Pois ai quando vemos uma frase aparentemente maldosa de Jesus, pensamos “oras, deve existir uma interpretação que faça com estas palavras aparentemente más se tornem boas.” E ai forçamos e relativizamos as coisas para chegar numa conclusão que ja estava pré-estabelecida.

    Além disso, lamento a insistência dos cristãos de querem se sentir separados do mundo, separados do restante da humanidade. Se precisamos de algo hoje é menos divisões! No fundo isto é um egocentrismo mascarado. Deus me escolheu! Deus me quer! Eu preciso ser santo, ser diferente do (entenda-se “melhor que o”) resto!

    Abraços!

  2. Um abraço forte a vocês, Edu, Arthur e Bernardo e Dayse. Se Deus quiser, postarei com mais frequência agora hehe

    Acho mesmo que nós somos incorrigíveis, Arthur. A tarefa de salvar o mundo de nossas garras é ingrata porque infrutuosa. Falando por mim, creio na graça irresistível que me alcançou. É mais forte que eu…

    Sobre santidade, num certo sentido ela significa sim que eleitos viverão separados, por outro lado somos também enviados, como Jesus disse abaixo:

    Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.
    Não são do mundo, como eu do mundo não sou.
    Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.
    Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.
    João 17:15-18

    Mas eu não gosto da tradução da palavra como “mundo” ou “terra”. O ideal seria “sistema” ou “era”. Porque o mundo, embora caído, é criação de Deus e nosso papel é servir cooperando com Deus na redenção dele, trazendo coisas boas, riquezas em vários aspectos (intelectual, afetivo, material, etc)…. Enfim, gosto da sua interação, se ela for respeitosa, será sempre bem vinda. Por fim, deixo aqui uma jóia da literatura cristã primitiva que toca nesse assunto que você levantou. Divirta-se:

    CARTA A DIOGNETO

    1. Excelentíssimo Diogneto, vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e cuidadosamente, te informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para que todos eles desdenhem o mundo, desprezem a morte, e não considerem os deuses que os gregos reconhecem, nem observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros; e, finalmente, por que essa nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e não antes. Aprovo esse teu desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de tal modo que, ao escutar, te tornes melhor; e assim, ao escutares, não se arrependa aquele que falou.[…]

    Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. Nem uma doutrina desta natureza deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana. Habitando cidades Gregas e Bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os usos e costumes das regiões, no vestuário, no regime alimentar e no resto da vida, revelam unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constituição no seu regime de vida político-social. Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira. Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os recém-nascidos. Servem-se da mesma mesa, mas não do mesmo leito. Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra e são regidos pelo céu. Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas. Amam todos e por todos são perseguidos. Não são reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à morte e ganham a vida. São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam. São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados. Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras. Fazendo o bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida. São hostilizados pelos Judeus como estrangeiros; são perseguidos pelos Gregos, e os que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio. Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo. A alma está em todos os membros do corpo e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, não é, contudo, do corpo; também os cristãos, se habitam no mundo, não são do mundo. A alma invisível vela no corpo visível; Também os cristãos sabe-se que estão neste mundo, mas a sua religião permanece invisível. A carne odeia a alma, e, apesar de não a ter ofendido em nada, faz-lhe guerra, só porque se lhe opõe a que se entregue aos prazeres; da mesma forma, o mundo odeia os cristãos que não lhe fazem nenhum mal, porque se opõem aos seus prazeres. A alma ama a carne, que a odeia, e os seus membros; Também os cristãos amam os que os odeiam. A alma está encerrada no corpo, é todavia ela que sustém o corpo; Também os cristãos se encontram retidos no mundo como em cárcere, mas são eles que sustêm o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; Também os cristãos habitam em tendas mortais, esperando a incorrupção nos céus. Provada pela fome e pela sede, a alma vai-se melhorando; também os cristãos, fustigados dia-a-dia, mais se vão multiplicando. Deus pô-los numa tal situação, que lhes não é permitido evadir-se

  3. O primeiro texto foi muito bom Gaba….mas esse segundo está incrivelmente espetacular. Obrigado. Ansioso pelos próximos. Abraços

  4. Gaba, então você não percebe nenhuma arrogância nestes textos? Nadica de nada?

    É de uma ironia triste os cristãos insistirem que amam aqueles que os odeiam, enquanto tanto mal é cometido em nome de Deus. Se acham os perseguidos, esquecem de todos que já foram perseguidos pelo cristianismo. A falta de autocrítica é assustadora.

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