Manhã

Como de sempre, fui me aprontando logo cedo pro trabalho. No silêncio de quem ia acordando aos poucos, deixei-me levar pelos automatismos de escovar os dentes e calçar os sapatos sem maiores pensamentos e julgamentos de escolha.

A primeira das reflexões do dia foi senão a conclusão de que, pelo avançar das horas, não seria possível tomar um café tranquilo, pelo que lavei uma fruta e separei uma barra de cereais no bolso da camisa. E na divisão de tarefas de casa, coube a mim aquela de recolher todos os lixos, pelo que tratei de fazer tomando o cuidado para não sujar a roupa ou as mãos.

Adiante e dentro do elevador fechado, as tentativas em adivinhar o que fazia deste lixo em particular tão desagradável – este mesmo que no dia, cheirava especialmente mal. Torci para que ninguém entrasse até que eu pudesse sair, o que de fato aconteceu.

Abri o portão da rua e me deparei com uma senhora diante da lixeira do prédio revirando as sacolas que precediam as minhas próprias. Trocamos um breve olhar pelo que pude sentir nela um misto de constrangimento e expectativa, ainda que não nessa exata ordem. Tive a impulsão de travar de lapso os passos, pensando em subir de novo com meu lixo, guardá-lo no bolso ou qualquer coisa que o fizesse desaparecer. Calculei uma porção de palavras que poderiam ser ditas, mas tudo o que fiz foi deixar em silêncio as minhas duas sacolas. Entrei em seguida, peguei o carro. Saindo de casa, pude avistar a velhinha descendo a rua com alguns objetos na mão. E assim, diante de meu nariz, o cheiro de lixo se espalhava. Tomava conta do carro, das ruas. Do meu caminho.

Um comentário sobre “Manhã

  1. Eu consegui imaginar a cena de maneira perfeita, Gansão…

    Muito legal o post e também muito pesado…

    A reflexão do lixo nas nossas vidas dispensa comentários! Muito doida…

    Fiquei pensando em como Deus vê tudo isso!

    Bração!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *