Like a rolling stone

“How does it feel
To be without home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?”
(Bob Dylan – Rolling Stone)
Foto: ALMO (Jüdisches Museum Berlin)

Faz uns dias, perdi algumas horas de sono ao ser “fisgada” por um filme que passava na TV: “12 Macacos”. É um filme com Bruce Willis e Brad Pitt, do estilão ficção anos 90, em que tudo o que era moderno pra época, pra nós hoje é feio e sujo (é muito engraçado como a nossa perspectiva muda sobre as coisas ao longo do tempo. Esses filmes, na verdade, mostram não o futuro, mas a perspectiva que as pessoas tinham dele à época, revelando a elas mesmas). Mas enfim, resumidamente o enredo trata de uma epidemia que matou 5 bilhões de pessoas em uma determinada data e Willis é enviado ao passado, a uma época pré-epidemia, para coletar informações sobre esse tal vírus, de forma a ajudar o 1% dos humanos que sobreviveram.

Claro que, ao chegar ao “passado” e dizer que vinha do futuro, que viria uma epidemia logo e que ele tinha sido enviado para salvar a humanidade, Willis é tido como louco e internado num hospício. Depois de muita luta e tratamento psiquiátrico, ele se convence de que estava louco mesmo e que essa história de missão salvífica era coisa da cabeça dele. Porém, depois de um certo episódio, os cientistas de sua dimensão no futuro o trazem de volta… e ao vê-los, Willis os acusa de serem somente fruto da imaginação da cabeça dele, diz que eles não existem, que está convencido do que os psiquiatras lhe haviam dito… Depois da lavagem cerebral, para ele não há mais essa de vírus, contaminação, nada… É claro que os cientistas duvidam de sua serenidade também e o internam. E aí? Considerado louco em uma dimensão temporal… e… considerado louco em outra também. Coitado.

Isso é só um pedacinho do filme, mas vou me deter aqui. Creio que esse é muitas vezes o dilema do cristão, dilema pelo qual já sofri muito: mergulhar num mundo cuja lógica é totalmente diferente da planejada por Deus e mesmo assim não se esquecer de qual é a sua verdadeira pátria, não se esquecer de que é fundamental continuar tendo consciência do “vírus” e de sua letalidade, estar ali para coletar informações e não duvidar de sua missão.

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É difícil. Muitas vezes o caminho é árduo. Como diz Ed René Kivitz, “a vida cristã não é difícil. É impossível”. É impossível se tentamos vivê-la por nós mesmos, se enfrentamos as coisas sozinhos, porém Deus nos dá todo o apoio para que vençamos as dificuldades (ICo10:13). Muitas vezes, as coisas em que cremos são descreditadas e ocorre exatamente o que diz Paulo em I Coríntios 1 a 3. Cito aqui dois versículos: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (ICo2:14) e “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (ICo3:19). Os cristãos muitas vezes são considerados loucos e de fato o são, ao desafiar a ordem de pensamento vigente.

Mas ser louco para uns e normal para outros, ainda vá lá… O pior de tudo mesmo é se sentir como se sente Bruce Willis no filme: sem chão, sem pátria, sem identidade própria. Sem ser de um nem de outro. Nem quente nem frio, morno. Louco para uns e louco para outros, sem saída. Like a rolling stone. Num período da minha vida já me senti assim: sem pertencer nem ao mundo nem a Deus e foi muito ruim. Mas graças a Deus (hehe) Ele mesmo não desiste de nós e isso tudo passou. Mas permanece o desafio: viver com sabedoria e não me desviar nunca da minha “missão”.

Câmbio e desligo.

ana.oliveira

Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

12 comentários sobre “Like a rolling stone

  1. Me identifiquei com a “pedra rolante” :-(
    Post sensacional! (pena que vc desativou comentários sem querer – mas agora está tudo resolvido)
    Me fez parar para pensar em como tenho vivido!
    Quero parar de rolar! rs

  2. Nunca vi uma comparação melhor sobre o dilema loucura do que a que você colocou aqui, vai me fazer refletir por semanas, Obrigado….XD

  3. Que bom que vc gostou Amílcar… Mas mantenho a minha opinião de que o visual do filme é feio e sujo huahauhua
    Que bom que temos o Rato pra resolver nossos problemas cibernéticos! 😀

  4. Achei esse post legal… tem poucos comentários até agora considerando a relevância do assunto aqui tratado então vou tentar estender a discussão um pouco mais para quem quiser discutir.

    Constuma-se dizer hoje em dia: Fé x Razão (Religião x Ciência). Será que isso está correto? Segundo a Bíblia não. Por que? A Razão (raciocínio, inteligência, sabedoria, criatividade, capacidade de se articular) propriamente dita é característica básica de Deus(Jo 1:1). O homem é criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:27), logo, é dotado de razão. No entanto a razão humana difere em grande parte da Razão divina. Por que? Porque o homem está limitado à sua condição de vida humana e sua razão é extremamente limitada. Mais que isso: o homem é pecador… e além de uma razão limitada tem uma razão decaída e pervertida (Reflitam sobre isso… acho que você perceberá que é dotado de uma racionalidade extremamente pervertida).

    Dessa forma quando dizemos que a razão é um atributo humano não estamos nos colocando numa posição superior à Deus? A Fé não é sobrenatural, mas natural, pois está baseada na Razão divina. O nosso mundo não é natural, mas subnatural, porque vivemos de forma pervertida e pecaminosa. Sei que é complicada a discussão, mas só é complicada porque nós cristãos temos caído nos laços do mundo e acreditado que as coisas do mundo são as naturais (não são de maneira nenhuma!). O natural é Deus (Ora, Rm 1:20 -> Quando se olha para a natureza só há uma conclusão: DEUS!).

    Neste ponto quero retomar as afirmações feitas pela Ana Lu com um trecho da Bíblia 1 Co 2:6-16 -> Leia! É muito importante! Você verá que a Razão de Deus difere em essência da razão dos homens. Assim, não há meios humanos de alcançar a Razão de Deus. Para viver de forma Racional (ou Espiritual) genuínamente e não em uma razão pervertida só há uma forma: “Pois qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.”

    Ora, a razão (humana) é uma mentira (louca – aos olhos de Deus -, decaída e pervertida) e a Razão (divina) só pode ser alcançada de uma forma: Pasmem! Para agir de forma Racional não é ler, estudar, seguir o que manda o cérebro humano (isso só te levará à razão mentirosa), mas sim, a Razão verdadeira é alcançada a partir de uma palavra: consagração. Consagrar é se entregar a Deus (Se tiver alguma dúvida sobre entrega leia o post: Quanto custa?…). Ou seja, a Razão é alcançada por oração, meditação e não estudo. O estudo pode até ajudar (inclusive é muito importante estudar, não estou falando contra estudo, mas contra só estudo), mas não está nele a base da Razão. A Razão só provêm de Deus e esta é loucura para os homens.

    Não há embate Fé x Razão para nós, cristãos, pois a Razão está com o Todo Poderoso que criou todas as coisas e não no homem pervertido. Não caiamos na armadilha do mundo de começarmos a achar que as coisas de Deus são irracionais (já pensei assim, hoje vejo que estava completamente errado). Deus é loucura para os homens, mas, para nós, fonte de sabedoria, inteligência, entendimento e etc.

    Não sei se fui claro, qualquer coisa podem perguntar que eu explico melhor… Gostaria de tentar aquecer o debate desse tema fundamental que a Ana Lu abordou e tem 20 dias que não é comentado. Acho que é bom tentarmos retomar os posts antigos de vez em quando e avaliar em que ponto está a discussão que havia sido iniciada. Tenho notado que os posts bombam no primeiro dia, há comentários na semana seguinte e depois é deixado de lado… Por isso, gostaria de retomar este daqui…

    Um abraço!

  5. Ótima iniciativa Marcelo! Tenho de concordar que este post ficou esquecido. Muito em razão do acidente acontecido. A Ana desativou os comentários sem querer. E nisso, eu mesmo deixar de passar por aqui, embora tenha lido e achado maravilhoso. Muito rica a comparação! Acho que se conseguirmos partir das coisas que acontecem cotidianamente na nossa vida para uma reflexão estaremos fazendo mto! Ganho meu dia quando leio essas coisas!

    bem, do que vc falou, apenas reiterar que a perfeita razão e o perfeito juízo estão somente em Deus. Para os cristãos seria impossível legitimar a racionalidade em criaturas decaídas como nós. Porém, esse argumento passa a ser brincadeira quando falamos para agnósticos, ateus, etc. Veja que para eles Deus é uma criação da loucura do homem. Então, quando o homem deixa a razão, parte para a espiritualidade… Como falar pra quem não crê que a razão não está com a ciencia mas em Deus?

    Bem, eu sei que esse não foi o objetivo da Ana e nem o seu. Só queria lembrar que somos lidos por muita gente! Todo o tipo!

    Obrigado por sua contribuição “Martchelo Lippe”! abraço!

  6. Ok Gabana! Boa lembrança…
    Na verdade meu objetivo só foi salientar que o cristão muitas vezes passa a viver “como uma pedra rolando” por entender e vivenciar a fé de uma forma errada…

    Quanto à argumentação, eu realmente escrevi para aqueles que crêem em Jesus Cristo e estudam a bíblia… Não uso esses argumentos para debater com pessoas de crenças distintas… No entanto são coisas que tenho hábito de conversar frequentemente na minha família, com pessoas próximas e gostaria de propor aqui no blog… Acho que seria importante ouvir a opinião de outros mesmo que discordem em gênero, número e grau. Acho que ouvir diferentes pontos de vista pode enriquecer a discussão… Não fiz o meu comentário para tentar fechar uma questão e impor um ponto de vista (estou apenas expondo o meu ponto de vista), mas para reabrí-la e estou disposto a ouvir qualquer ponto de vista que seja… Não exitem em discordar ou em colocar opiniões concordantes ou divergentes…

    Um abraço!

  7. Ei Marcelinho!
    Bom, o Gabana já explicou o problema que eu acidentalmente causei e que só foi corrigido uma semana depois… Aí o pessoal não teve como comentar à época.
    Achei muito legais as idéias que você colocou, já havia pensado em algumas dessas coisas mas não no conjunto como você colocou. Muito legal! Eu nem tinha pensado em aprofundar tanto essa discussão quando escrevi o post, mas que bom que você completou!
    É o que você disse, pra entender o mundo não é só o estudo que importa, mas nós, como pessoas “não-descoladas” do mundo, da realidade em que vivemos, teremos demandas tanto profissionais quanto pessoais para entender o mundo de uma forma que vai além da bíblia, que exige estudo, pesquisa e esforço pessoal. Eu mesmo estou tendo essas demandas agora. A questão está em lembrar sempre o que é que mais importa, o que é o principal…
    Nó, mas muito legal o seu comentário!
    bjos!

  8. Opa,

    Concordo com o Gabana, não use esse argumento para não-cristãos pois não tem como engolir ele sem já ter muita fé.

    “A Razão (raciocínio, inteligência, sabedoria, criatividade, capacidade de se articular) propriamente dita é característica básica de Deus”

    O ser humano, como pode ser observado, é um animal racional. Isso significa dizer que a razão é a característica especial do ser humano. Razão é a habilidade de reparar as semalhanças e diferenças entre as coisas que se vê e agrupa-las e categorias. Um ser humano é capaz de olhar pra dois copos, ver a semelhança entre eles e dizer que os dois objetos fazem parte da categoria “copo”, um cachorro não é. Razão é isso, é simplesmente associação entre coisas, e quanto mais se aprende mais abstratos viram os conceitos e é possivel fazer paralelos entre conceitos abstratos, como o Marcelinho fez no post dele.

    Quando alguém argumenta eu vejo alguém tentando fazer comparações usando a própria mente, ou seja, tentando usar a razão… Agora se alguém me diz que a “razão verdadeira” vem algo além da sua própria mente é porque essa pessoa já abandonou a razão (ou seja, o uso crítico da própria mente) a muito tempo e agora se encontra em estado de submissão não-critica à uma certa filosofia, nesse caso uma filosofia religiosa.

    Como a razão é o meio de sobrevivência do ser humano, supender o seu uso pode trazer consequências devastadoras… Olhe pra história e veja todas as guerras que foram travadas por causa de religião, veja todos os reis absolutistas que tinham poder porque as pessoas tinham fé que o poder vinha de um deus, veja também quantos milhões de pessoas foram mortas nos regimes comunistas por causa da fé no “bem estar coletivo”.

    Abraço,
    Iago.

  9. Pingback: O Equilibrista
  10. Iago,

    Fiquei muito tempo sem acessar o blog por isso só estou respondendo agora… Acho q nossas opiniões são bem semelhantes a respeito do tema… A única questão é que nossas razões são produtos de fontes distintas. Não acho que um cristão seja irracional, nem que um ateu seja irracional. Entendo que a fonte da razão de cada um é distinta e, portanto, estas razões são divergentes em substância. O que é sabedoria para um é loucura para o outro. Assim, não é surpresa para mim ouvir vc dizer: “Agora se alguém me diz que a “razão verdadeira” vem algo além da sua própria mente é porque essa pessoa já abandonou a razão (ou seja, o uso crítico da própria mente) a muito tempo e agora se encontra em estado de submissão não-critica à uma certa filosofia, nesse caso uma filosofia religiosa.”

    Concordo com vc em gênero, número e grau. Abandonei a “razão”. Pelo menos esta a que vc se refere. Abandonei a “razão” da físis material (explicitada por vc em seu comentário), como poderia se dizer, e passei a viver a da físis natural (obviamente, vc não concorda com isso exatamente pelo fato de que se nossas razões divergem em substância; o que é, para você, natural para mim não é e o que é, para mim, natural para vc não é), sem querer ser redundante e já sendo. Com relação à diferença em essência das razões acho que não é necessário explicar pois já o fiz anteriormente.

    Dessa forma, entendo que seu argumento vai em plena concordância ao meu pois, de fato, o que é sabedoria na minha concepção é loucura para vc e o que é loucura na minha concepção é sabedoria para vc.
    Apenas para explicitar, através da minha razão razão olho para a natureza e vejo uma mente engenhosa por traz de todas as coisas que existem, e que, para mim, foram criadas. Vc olha para a natureza e chega a uma conclusão distinta. Ao meu ver, acho algo completamente maluco alguém olhar pala a natureza e não concluir que exista um criador. No entanto, vc acha maluca qualquer coisa excedente ao mundo material.

    Para ser sincero, acho muito fácil alguém que vive em uma cidade grande falar que Deus não exista. Ao meu ver, acho que falta um pouco de contato com a natureza. Creio que se vc passasse mais tempo observando a natureza e refletindo chegaria à mesma conclusão que eu. Talvez não. Mas acredito que sim. Lembre-se que é uma falácia dizer “a verdade não existe”, muita gente lendo Nietzsche de forma desatenta achou que ele acreditava nisso. Uma leitura mais cuidadosa nos faz perceber a dicotomia que ele percebia porém negava. Afinal, Nietzsche sabia muito bem que a verdade existe. Isso é extremamente claro nas entrelinhas de seus textos. Vou fazer um gráfico para ficar mais claro.

    Nietzsche defendeu essa idéia de forma extremamente cara-de-pau:
    Verdade 1
    Verdade 2
    Verdade 3
    Verdade 4
    e etc… (ou seja, que existem várias verdades)

    No entanto, é nítido nos textos dele que o que ele acreditava de fato era o seguinte:
    Verdade Única -> Conceito 1
    -> Conceito 2
    -> Conceito 3
    -> Conceito 4
    e etc… (ou seja, que existem vários conceitos)

    Os 2 pressupostos são totalmente distintos. Muitas pessoas de forma leviana acham que Nietzsche acreditava no primeiro. Não digo que foi um erro de Nietzsche pois isso foi premeditado por ele, ele não fez isso ao acaso mas de forma proposital. Ele acreditava no 2 pressuposto, mas criou a ilusão do primeiro. E, pasmem, com a retórica afiada que ele tinha, ele conseguiu levar muita gente aparentemente inteligente na conversa.Nietzsche sabia muito bem assim como todos nós: não é a verdade que muda mas sim a interpretação da verdade. Ou seja, o fato é o fato, não varia. É e é. Pronto e acabou. O que varia é a interpretação do fato. Nesse aspecto sim, podemos dizer: as interpretações são inúmeras. Assim é averdade. A verdade é. É e é. Pronto e acabou. O que varia é a forma de interpretação da mesma verdade.

    Expus isso, pois creio que por trás de todas as coisas que vemos ou vivemos a verdade existe. Nós 2 apenas possuimos conceitos divergentes a respeito dela. No entanto, não é porque estamos divergindo, que a verdade única e absoluta não exista. Ela existe. Apenas nossos conceitos divergem.
    Talvez vc não esteja entendendo porque estou falando sobre a verdade nessa discussão. O que estou querendo dizer é que nós temos opiniões ou conceitos diferentes. No entanto, a verdade existe. Não podemos negligenciar este fato. Não podemos estar os 2 certos se nossas opiniões divergem em substância. Ou vc está certo, ou eu. Talvez nenhum de nós. Mas que a verdade existe, existe. Não sejamos levianos a ponto de ignorar isso. Sobre o que eu acho a respeito do que é a verdade acho que já está bem claro nos meus comentários anteriores.
    Um abraço!

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