Licença para matar

Foi chegando e abriu logo a carteira mostrando a insígnia. Vinha ali com uma missão dada sua grande responsabilidade. O documento atestava: tinha Licença Para Falar.

Começou de mansinho. Se colocando, colocando os outros. Expôs muito em muito pouco tempo. Chocou e percebia. Animava-se com a reação do ouvinte. “É, eu também fiquei surpreso, eu também achei um absurdo quando ele me contou”.

Mas não vinha ali para falar dos outros. Conteve-se, com ar sério.

E começou a falar sobre o que achava. Pois achava muita coisa. Até tinha tempo para ouvir. O suficiente para tomar fôlego e retrucar. Exaltava-se. Mas sempre de forma velada. “Fulano até me disse que eu estava coberto de razão” [sempre quando alguém fala “até” ou “tive a oportunidade de” é uma forma de camuflar autopromoção, tenho para mim]. Com isso, dizia: “como vê, a Licença é merecida”.

E aí foi no estômago. Enumerou. Expôs. Repreendeu. Admoestou. “Estou falando porque sou seu amigo”, “estou falando porque acho importante”, “eu, eu, eu”.

Concluiu de forma solene. Diligente, dava maior importância a sua sentença. Diante daquilo não esperava outra atitude senão o arrependimento. Ah, esperava também a gratidão.

 

***

Se ridicularizo o grande sábio em questão, é porque fui e sou às vezes este ser de elevada visão. Felizmente, também deste Deus tem misericórdia. Tenham comigo também meus irmãos e perdoem estas minhas falhas.

***

Para ouvir lendo: Gladys Knight – License to Kill (tema do filme de James Bond)

2 comentários sobre “Licença para matar

  1. Nossa quantas vezes usei dessa licença e quantas fui vitima!
    Que Deus nos dê sabedoria, humildade e misericordia.

  2. Vidigazz, que legal!

    Fiz isso esta semana ainda. Deus queira eu cuide apenas das minhas próprias escolhas e se decidir opinar, tendo sido autorizado para isso, fale porque oro pela pessoa…

    Obrigado. Abraço!

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