Interiorano

Dia passados atrás e estava eu num destes cantos que se diz esquecidos no mundo. Um vilarejo onde o asfalto que ainda não alcançava fazia as coisas e a gente ficarem mais vermelhas quanto o pó do chão. Nem praça mesmo havia, mas um raro chão de grama rala que separava uns dois ou três bares que democratizavam seus assentos entre gente dali e outros como eu mesmo. Umas montanhas bonitas e um rio corrente que às vezes achava uma cachoeira pequena era o que se fazia durante o dia. E entre o final da tarde e a noite primeira, uma sanfona cancionava um povo dançando em alegria de não ser notado.

Esse tipo de lugar sempre me provoca. Mas dali buscava me fazer, dispensando os chinelos, dividindo o tempo nos espaços de antes e de depois do almoço. E num destes, sentava em um bar, orgulhoso por assim ignorar as horas do dia. Curioso inda, por perceber meus movimentos próprios se acalmando, como se seguissem a dança silenciosa do lugar. E ainda que me policiando vez ou outra para assim estar, acabava flagrando uns cachorros preguiçosos que sequer aumentavam seu ritmo numa oferta de qualquer que fosse pra comer e que se não assim, dormiam. Tampouco me afrontavam aqueles tais, pois lá estava eu mesmo sentado num toco de madeira entre mosquitos há um tempo respeitável esperando um feijão tropeiro com linguiça que já tinha pedido, vamos dizer… quando o sol ainda ardia mais forte. Mas na certeza de que chegaria hora qualquer, estendia alguns papos desimportantes enquanto enfiava os dedos do pé na terra seca e fofa.

Vida devagar daquela, pedia lugar aos meus dias anteriores de corridos a ponto de concluir num breve, que agitava-se por muito pouco. Ou mesmo que se assim corresse, valeria pelas horas prazerosamente desperdiçadas à espera do tropeiro. Como se fosse uma boa pedida os minutos contados dos dias de feira em prol dos desperdiçados em domingos preguiçosos.

E sentia que fácil mesmo seria se acostumar com vida tal, mesmo que fosse tanto mais serena que pudesse desejar, até que encontrei no lado de lá do outro bar um senhor de meia idade, portador das artes silenciosas do ensino… Chamaria a atenção o só fato de que pela leitura de sua boca tranquila, conversava inda mais vagorosamente que os movimentos dos cachorros vermelhos ou que a minha prosa arrastada ali providencialmente pudessem ser. Mas causava-me maior espécie não mesmo por aquilo, mas sim pela sua camisa de botões toda aberta, da qual havia vestido apenas uma das mangas, deixando a outra metade dependurada, ostentando à mostra quase todo seu barrigão de respeito. Ora, se a fadiga se dera quando decidiu por vesti-la, ou mesmo após, quando optara por tirá-la, fato é que num ou outro, havia feito pela metade – pelo que me fez ali sentir o maior dos juvenis no mister interiorano, devolvendo-me ao posto de moleque urbano forasteiro rural.

E de fato não havia pertencimento. Porque meu pé encardido calçaria um sapato lustrado logo na segunda e os mosquitos lambedores de suor dariam lugar ao ar condicionado de cada dia. Voltaria a falar corrente e organizar meu tempo a cada quinze minutos. Do mais, seria apenas visitante ali. Um turista que pagaria caro pelos cachorros vagabundos, pela cerveja quente e pela montanha que emoldurava o que meus olhos conseguiam alcançar.

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