Incondicional

O diagnóstico, dos piores possíveis. Os sintomas que outorgavam comportamentos também violentavam uma esperança que queria ao menos poder se contentar com a manutenção do estado do dia anterior. Mas a doença impiedosa tirava a vida aos poucos com uma deterioração que se multiplicava de forma exponencial: a debilidade presente e a privação dos momentos minuciosamente selecionados pela memória. Sofrimento que se projetava ao infinito no tempo.

A tristeza aumentava ainda mais por se tratar de uma enfermidade de velhos e uma criancinha apenas. É porque o estado natural das coisas se invertia. Berço natimorto de expectativas que aguçava nos mais criativos a imaginação do que ele poderia vir a ser, o que conferia ainda mais melancolia ao episódio.

Intrigava-me também o amor do pai. A insistência em cuidar, alimentar, vestir alguém que não mais o reconhecia. Receber pelo abraço cuidadosamente despendido um frio franzir de sombrancelhas a fabricar mil interrogações despejadas no ar. Causava-me igual perplexidade a certeza de que cada atitude doada viria desacompanhada de um gesto qualquer de gratidão e seria em breve consumida pela doença. Ver ainda que, justamente por isso, cada momento de lucidez era infinitamente aproveitado pelo pai antes que se perdesse no iminente esquecimento do filho. Pai que ainda torcia por uma recuperação. Não para que este um dia reconhecesse todo o amor que lhe fora despejado. Mas para que tais atitudes esboçassem um selo de fidelidade. Para que o filho pudesse, olhando pra trás, confiar e esperar os cuidados vindouros a ele prometidos e tantas cumprido.

Mas afirmavam os médicos não ter cura a doença e  ser cruelmente degenerativa. O mal de Alzheimer fazia o menino viver de um presente cada vez mais curto e o viciava em doses diárias de experiências. Gerava rebeldia de alguém que não guardava raízes com o pai e assim recusava fidelidade a algo de que não se lembrava. O pai esforçava-se para que cada fração do presente em si fosse suficiente de confiança. Este expondo toda sua incondicionalidade. Aquele se condicionando covardemente a um passado distorcido pela doença a qual se entregara.

2 comentários sobre “Incondicional

  1. Gostei muito da forma como você explorou o cuidado do Pai. Concordo quando você diz que esse amor nos deixa intrigados…

    Abração!

  2. “O mal de Alzheimer fazia o menino viver de um presente cada vez mais curto e o viciava em doses diárias de experiências. Gerava rebeldia de alguém que não guardava raízes com o pai e assim recusava fidelidade a algo de que não se lembrava. ”

    Quantas vezes não me entrego ao mesmo mal e me esqueço de tudo de bom que Deus já fez pra mim. Sou muito ingrata. E desmemoriada…

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