O homem do meio

Houve um tempo longe meu em que importava o futebol, a nota na escola e a atenção de umas meninas – não nesta exata ordem, que aliás chegara a mudar mais de um par de vezes. Se bem da verdade de que não fazia muito feio em nenhuma das tais áreas do conhecimento, passava longe de ser um case de sucesso. Afora alguns raros momentos de felicidade ou de um desastre fortuito, ficava ali mesmo na meiuca; se não era daqueles pinçados para encabeçar os times da pelada, tampouco seria o último a ser escolhido – do que se repetia na vida. Monitorava ainda uns poucos afortunados pela natureza, outros esforçados acolá, que em suas especialidades próprias eram do que de mais alto se poderia mirar. E eu que nem tanto separado pela natureza também não me dispunha ao suor diário extra. Mas havia ainda uma terceira espécie de gente ainda mais rara, daqueles preciosos obstinados que concentravam na sua egoísta pessoa a expertise de tudo o que se pudesse almejar: os bonitões inteligentes e bons de bola. Destes até os dias de hoje, não consigo o afastamento necessário ao olhar crítico…

Vez ou outra, ainda tropeço numa história dessas de gente de sucesso. Daqueles que transformaram um fusca num império, que enxergaram oportunidades com olho de tandera; que venceram na vida. De uns líderes que arrastam multidão em eloquência de discurso, de outros artistas que se sacodem na teia de sua própria fama. E antes que pudesse ser capaz de atribuir alguns bocados do mérito a qualquer conspiração do destino, daquele negócio de pessoa certa no lugar certo, sou logo repreendido com ares superiores (e pelos próprios portadores dos louros), que o acaso está a serviço daquele mesmo que madruga. E daí, seguem-se as histórias cuja moral é o certo da dignidade trazida pelo trabalho duro, que a persistência nos leva aos maiores topos que um homem poderia frequentar.

É bem que se diga que a estes sempre derramei o que de mais precioso teria para oferecê-los: o meu sincero respeito e a mais profunda das admirações. Mas se o mais que de mim pudessem exigir, o querer repeti-los certamente que não. Talvez sim aqueles cujas conspirações do mundo e do destino os coloquem magicamente sobre os ares rarefeitos de cume. Porque há razões para querer invejar aqueles que venceram sem brigar. Mas aos ditos cases de sucessos, de quem entrega os minutos todos de sua energia pra um único objetivo, só admiração e olhe lá. Não que aqui exerça a apologia dos preguiçosos, mas certamente dos homens médios, lugar do qual sou assíduo frequentador desde menino, umas tantas vezes pelas minhas fatais limitações e outras por uma deliberada posição.

Pois na biografia daqueles, dignas dos best sellers mundiais, há o ponto comum da determinação e foco. Daquela obstinação de quem tem um sonho e vai atrás com a concentração das energias todas nascidas nas entranhas de um âmago certeiro. Li nalgum lugar destes, sobre alguém que na motivação sobre não desistir nos lembra a máxima murphyana de que normalmente a última chave é a que abre mesmo a fechadura, ou outro por aí que traz aquela pulga atrás da orelha ao advertir que muitos desistem por não saber o quão perto estão de conquistar. E sim, há muita sabedoria nos jargões motivacionais, mas suspeito eu que também há algemas, culpa e teimosia. Porque na defesa da conquista, o objeto da busca parece não se importar tanto. No culto aos vitoriosos, vale o sucesso. Quando se faz o corte entre os que chegaram e os que desistiram, todo preço vale e toda conquista é bem vinda em prol de se pisar no rol seleto dos bons.

Veja o quão de experimentar as calmarias de quem não se aperta no estreito decimal entre as notas 8 e 10. Porque o peso de sustentar-se, mata na ânsia de viver, como diz o poeta. Pelo bom de vez ou outra ali frequentar dá o gosto sem viciar no cuidado da distância segura doutro extremo.

Na terra dos homens médios,  há sim o incômodo com a mediocridade, mas há juízo de valor. Daquelas coisas de custo benefício mesmo. Porque por vezes o sacrifício não vale e o chegar lá, em abstração do gosto pelo pisar em chão seleto, não é assim o maior dos mundos. Porque há visão periférica na qual os aléns e aquéns do alvo também são caros e não carecem de ser desprezados.

O homem médio talvez não construa impérios e não invente a cura para a chikungunya. Mas ele come, joga bola e namora. Tudo de uma vez.

3 comentários sobre “O homem do meio

  1. Venho através deste, repreendê-lo pela sua negligência com este blog, Guilherme Marchi.

    Eu não consigo mensurar quão custoso é escrever um texto como esse, mas sei dizer sobre a maravilha de lê-lo.

    Recado dado, expectativa reavivada e gratidão pelo post que fala sobre o “homem do meio”. A identificação, no meu caso, foi inevitável.

    Um grande abraço, Gansão!!!

  2. “lugar do qual sou assíduo frequentador desde menino, umas tantas vezes pelas minhas fatais limitações e outras por uma deliberada posição.” … Me vejo nessas palavras! rs

  3. Ao ler, fui conseguindo entender porque toda mensagem motivacional sempre me gerou profundo desconforto… Não sei se por puro mecanismo de defesa, pois definitivamente não me encontro do “lado de lá”… A verdade é que tais mensagens sempre me soaram como imperativos e minha sensibilidade ao que tenta me determinar sem minha autorização, não os perdoa! Apesar disso, tenho grandes anseios que me perseguem, os quais descansam quando eu encontro a mim mesma, não necessariamente no cume, pode ser regando as plantas do quintal… Tudo isso faz com que eu assine como “mulher do meio”… Mas ter assinatura própria me é um grande prêmio… Deve ser por isso que não há monumentos em meu nome e meu legado é o feijão que cozinha aqui ao lado na panela de pressão… Eu sei que é clichê e pode soar como “refeição do meio”, mas também alimenta…

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