Hoje eu acordei meio Guarani

Faço uma disciplina X no departamento de Antropologia da UFMG. Não sou da área, mas me divirto imensamente nas aulas, não só pela desconstrução que fazemos da nossa própria sociedade, mas também das pérolas que já escutei. Cito algumas imperdíveis:

“Professora, já entendi como os ameríndios vêem os botos… Mas o que eu quero saber é como o boto vê os ameríndios?”
“Uma pergunta que eu sempre quis fazer: as formigas podem ser consideradas seres humanos?”
“Eu acho que os índios, por telepatia, lançaram as bases do pensamento ocidental pós-moderno.”

Brincadeiras a parte (mas pior que isso foi sério!), essa matéria me fez refletir em muita coisa da minha vida e da sociedade brasileira pré e pós constituição de 1988. Essa constituição deu muito valor ao indígena e inclusive representou muito avanço na questão de demarcação de reservas e de incentivo à cultura deles. Isso fez também com que a questão indígena fosse cada vez mais discutida.

A gente tem a idéia de que índio que é índio vive no meio da floresta, não pode ter contato com o branco nem se apropriar de nada que é dele. Índio que usa calça jeans, tem celular e faz fogo com palito de fósforo não é índio. Aí eu te pergunto: Você fala inglês? Isso faz de você inglês ou estadounidense? Você usa Adidas? Isso faz de você alemão? Você come mandioca? Isso faz de você índio? Não? Então porque é que nós discriminamos o índio que se apropria de outras coisas? Como se a cultura e a sociedade fossem algo estático… Coitado do índio, foi forçado a ser branco e agora o forçam a voltar a ser índio. “Índio tem é que ficar perdido no tempo mesmo, continuar como em 1500, senão não tem valor”. Mas se ele tenta ser índio, dizem que o faz por interesses (terras, auxílios diversos, dinheiro). Ele tenta ser branco, o xingam de aculturado.

Torre de Belém, de onde o rei via as caravelas se dirigindo ao "desconhecido"
Torre de Belém, de onde o rei via as caravelas se dirigindo ao "desconhecido"

Outra coisa engraçada é que enquanto os portugueses já não usam mangas bufantes nem andam por aí em caravelas, o índio tem que continuar exatamente igual como foi “descoberto” . Aliás, esse é outro termo que me dá nos nervos… Se os islandeses chegassem aqui hoje e dominassem o Brasil eles o teriam descoberto? Não, teriam invadido! O que os portugueses fizeram em 1500 foi invadir, não descobrir, já tinha gente aqui… Li um texto de uma liderança Guarani e achei muito interessante o ponto de vista do índio: ele conta que foi escolhido pra ser representante dos Guaranis na comemoração de 500 anos de resistência do seu povo. Aí mandaram ele pra Portugal e quando ele chega lá fica sem entender, porque eles estavam comemorando os 500 anos de descobrimento. É legal ver o ponto de vista dele, pois muitas vezes repetimos as coisas sem nos dar conta do sentido daquilo. Talvez se o fizéssemos, esse termo carregado de etnocentrismo e preconceito não seria ensinado nas escolas sem a devida reflexão.

Hoje em dia a cultura “branca” e até mesmo a “negra” têm mais expressão/influência na sociedade que a indígena (pelo menos no nosso mundinho do sudeste), apesar de por exemplo (ainda bem!) os portugueses terem adquirido dos índios o bom hábito de tomar banho. Um exemplo nojento: O pomposo Rei-Sol francês tomou quantos banhos em sua vida? a) inúmeros; b) pelo menos 1 por semana; c) 2 em toda a sua vida. A sebosa resposta é a letra c. Imagina?

Detalhe do Monumento ao Descobrimento em Belém, Portugal
Detalhe do Monumento ao Descobrimento em Belém, Portugal

Tupy or not tupy. That is the question.

***

P.S.: Que fique claro que eu adoro os portugueses (Isso é por caso de a Rita estar lendo)!

ana.oliveira

Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

31 comentários sobre “Hoje eu acordei meio Guarani

  1. Analuuuu!!!
    Peguei o post saindo do forno!
    Muito legal a reflexão! Nunca tinha pensado nisso!!
    bjooo! *amo!

  2. Tema difícil de emitir algum juízo!! Fico me questionando sobre a importância do Índio, mas também sobre a importância dos Portugueses e Espanhóis também (além dos africanos posteriormente) para a formação desse “Brasil, meu Brasil brasileiro”
    Legal a reflexão Ana!

  3. Só explicando, quando digo Espanhóis quero dizer que eles foram importantes, talvez não para o Brasil, mas para essa relação branco-índio!
    Entendo que a cultura não foi criada em uma só via (portugueses engoliram os índios) mas uma via de mão dupla, ou seja um troca cultural (embora concorde que a influência dos “civilizados” portugueses tenha sido maior)
    Abraço!

  4. Sei lá… se eles querem as reservas e todo o apoio financeiro, pra mim eles deveriam andar nús, comendo mandioca e fazendo fogueiras batendo pedras.

    Eu falo inglês, mas quem não fala não recebe ajuda do governo por isso! Se é pra viver dentro da nossa cultura, como “um de nós” por quê os privilégios? Isso é COTA. E eu odeio cota. É preconceito, fala sério!

    Se quer viver de jeans e allstar, trabalhe como qualquer outro. E para estar sempre em contato com a sua cultura, o Orkut tá aí pra isso… uhauAHuAHuaH

  5. A questão, DK, é que a cultura não é estática. Não é que eles queiram ser como “nós”, mas eles também têm direito de mudar ao longo do tempo e de absorver aquilo que eles acharem melhor, isso sem perder a identidade de “diferente”. É como eu falei, se os brancos mudaram e ninguém achou isso ruim (achou foi bom, na verdade), porque eles precisam continuar andando pelados e sem usar fósforo? Se eles querem, deixa eles ué. A gente acha que índio é coisa de museu, mas não é… Tem até blog indígena nesse mundo (e apesar da minha defesa a eles, não é o outras fronteiras hehe)!
    E eles se sustentam tb, DK. Mas a mentalidade é diferente, é uma outra concepção cosmológica. Sim, há muito apoio do governo, mas eles não são pobre-coitados também não…

  6. Fedor-mor, Homero! Mas isso é verdade sim (acho), andei lendo um textos de antropologia sobre higiene e me deparei com essa informação agradável.

  7. pelo menos na França há excelentes perfumes né…

    Ana, ótima a ideia da não-estaticidaqde (?) da cultura!

    Quanto à constituição, pelo meu ínfimo conhecimento penso que os índios foram privilegiados em excesso… acho que eles nem podem ser presos, ou algo do gênero.

  8. Veja bem, não me importo que eles mudem, que absorvam novas culturas.

    O que eu não entendo é a necessidade do apoio financeiro para aqueles que trabalham na cidade, passam o dia todo lá e só vão pra oca pra dormir, assim até eu quero ser índio!

    Pra quem realmente vive no mato, acho mais do que justo que recebam uma ajuda, pq deve ser dificil demais a situação e tal… do contrario, que eles tenham “apenas” os mesmos direitos que toda a população: escola, saúde, etc…

  9. Eu preciso confessar que eu nunca nem pensei em pensar em qualquer questão sobre os índios… Esse blog me surpreende a cada dia… Na verdade, quando eu li o título “Hoje eu acordei meio Guarani”, pensei que seria uma reflexão da nossa amiga Ana sobre uma possível mudança de time… Vai que ela era Ponte Preta em Campinas e agora é Guarani… Sei lá… ela havia dito que passaria alguns dias nas terras campineiras… Mas, confissões à parte, eu concordo com meu amigo Homero sobre o absurdo dessa criatura que conseguiu a proeza de tomar apenas 2 banhos durante toda a sua vida… Devia ser chamado de Rei-Caatinga ou Rei-2 cebolas de baixo de cada braço…
    O mais importante não é como eu vejo ou reflito sobre as questões dos índios… A pergunta é como Deus os vê… Concerteza, bem diferente de mim!
    Valeu Ana!!!

  10. Cada post que leio, me sinto mais e mais dentro das ciências sociais. Marxismo, capitalismo, epistemologia, política e, agora, antropologia. As coisas estão bombando por aqui!

    Demorei muito pra conseguir ler todos os posts, mas, a partir de agora, vou tentar acompanhar o blog mais assiduamente.

  11. Bom post Ana! Concordo com o que o Vidigal disse sobre o excesso de privilégios ao indio na CF. Parece que tentaram pagar uma antiga dívida histórica na Constituição. Ficou desproporcional. Acho que é preciso tratá-los de forma diferente mas uma proteção gigante faz com que eles permaneçam sempre na condição de inferiores. Boa a observação do DK. A preservação da cultura indígena é bastante polêmica. Não sei como deverim preservá-la ou se isso deveria ser feito. A proteção das minorias gera uma divisão sem fim. Todos nós somos minoria em alguma coisa!

  12. Nossaaaaaaaaaaa. estive pensando sobre o assunto esses dias, muito pouco, porque a conclusão a que chego a este assunto é que não sei nada, não tenho a menor base para avaliar, o menor parâmetro. Só concordo com o que a Ana escreveu sobre eles terem sido “achados”, que já existiam há muito tempo antes de os portugas chegarem.
    Sobre a CR, leis e afins, não sei nada muito aprofundado. Acho boa a idéia de protegê-los porque culturalmente nós (“desenvolvidos do Sudeste”) os esmagaríamos se lidássemos de igual para igual. Em contrapartida tem a questão de que tem índio que tem internet, tv por assinatura e até iate com o dinheiro da floresta. Enfim, não sei como agir com eles!!!!!

  13. É, Rato, parece que você foi o único até agora! Mas eu ri (disfarçadamente) quando os ouvi na aula…
    Dudu, nem tinha pensado nisso do time! hehehe
    Schumy, está orgulhoso da sua FAFICH? Viu, as coisas que eu aprendi lá geraram muitas reflexões úteis…
    Ganso e DK, estava acompanhando os trabalhos da comissão de desenvolvimento e meio ambiente da assembléia legislativa hoje e estava pensando… Os caras tavam lá defendendo uma nova lei que diminuirá o controle ambiental no estado, a favor, dizem eles, dos pequenos produtores. A meu ver, essa lei não deveria ser aprovada (não a conheço detalhadamente), pois aumentaria muito a exploração do meio ambiente. Porém, na prática, o que acontece é que a burocracia gerada por essas leis de proteção é ENORME, as propinas também e as multas estão fora da realidade, prejudicando de fato os pequenos produtores. Algo que era pra ser bom, que era essa regulamentação da exploração do meio ambiente, se tornou muito ruim. “Na prática, a teoria é outra”. Acho que o mesmo vale pra questão indígena: algo tinha MESMO que ser feito por eles, devido a toda a exploração e interferência que eles sofreram, dando-lhes MAIS direitos que o de outro cidadão, pra tentar de alguma forma compensar o que eles sofreram no passado (assim como os negros). Se foi feito de uma forma acertada, isso não sei, mas que algo tinha que ser feito, isso tinha…
    Valorizar a cultura, território, identidade etc deles é algo muito necessário. Como não preservar a cultura? Como não lutar por ela? Claro que sim, eles têm o direito de pensar do jeito deles… Vai dizer que a nossa cosmologia monetária que nos leva a acreditar que um pedaço de papel impresso pelo Banco Central tem o maior valor do mundo é uma coisa super “normal”? hehe
    A gente tem também uma visão “sudestiana” de como seja o resto do Brasil, mas falando por mim mesma, acho que eu não tenho idéia da diversidade desse país, conheço muito pouca coisa. Mas sei que MUITA coisa é muito diferente em vários lugares “desconhecidos” pra nós, como o norte do Brasil, por exemplo. A influência indígena nesses espaços é enorme, o que pode ser inclusive percebido pelo fenótipo dos habitantes dessa região. Enfim, conceber um estado pra maioria (e afinal, o que seria a maioria no Brasil?), um estado em que as minorias não tenham privilégio, isso sim eu acho MUITO complicado. Índios, deficientes, negros, mulheres (os últimos minorias no sentido do preconceito, assim por dizer) precisam de políticas específicas de afirmação e apoio.
    Em tempo: Vidigal, que bom que sua curiosidade foi sanada! 😀

  14. pensei uma coisa no final: a frase do oswald tem a ver com o que você está defendendo, que os índios também podem exercer a “antropofagia” assim como proposta no modernismo. achei muito doido pq a frase parece ser meio solta quanto ao tema mas o contexto original dela eh profundamente relacionado ao post! XD

  15. Belo texto….e viva O pomposo Rei-Sol francês esse sim tinha consciência ambiental, nunca desperdiçou nem sequer uma gota desnecessária de água…aushuahs

  16. Ei Ana Lu!!
    Adorei o post e a discussão subsequente.

    Concordo e assino embaixo de tudo que vc disse. Tenho exatamente a mesma opinião que vc, que foi tão bem explicitada no seu último comentário. Nem vou reescrever aqui não pq não acho necessário e tenho que terminar uns trabalhos pra facul aqui.

    Bjao amiga!

  17. Oi Analu!
    Adorei o seu texto e os comentários!
    Muito legal mesmo! Quem sabe você ainda não opta pela Antropologia e vamos ser colegas? No texto, dá pra ver que você está pensando exatamente como uma boa antropóloga!
    Beijos!
    Bia.

  18. anavru para de boicotar o acordo ortográfico, vc sabe mto bem que ideia nao tem mais acento.

    como vc quer que a sua amiga lusófona porém não brasileira entenda bem o que você escreve se vc não aderir ao movimento?

    heheh bjs

  19. Vidigas, vc é o pior. Não sabias, gajo, que em Portugal há um boicote às novas regras? Parvo! hehe IDÉIA!
    Bia, quem sabe, né? hehe Que bom que você gostou, fico feliz!

  20. Ei Analu,
    muito bom o que você escreveu. E é isso mesmo, acho que o importante é a liberdade e a vontade dos índios e não que eles se encaixem no estereotipo das cangas e tinturas…
    E aquela matéria “economia+antropologia”? Parece legal!
    Bjos e meus parabéns!

  21. Vidigas, era exatamente isso que eu queria com a frase final: resumir a idéia do post com a idéia da antropofagia do modernismo mesmo. Absorver as culturas alheias e ficar com aquilo que é (teoricamente) melhor… Isso nem é uma recomendação de algo que DEVA ser feito, mas é na realidade o que ocorre hehe… Há uma certa escolha sobre o que é melhor e o que é pior, o que deve ser acrescentado e o que deve ser abandonado… As coisas não são estáticas.
    Paty, fico feliz com a participação das antropólogas-petianas no blog! Pode deixar que te aviso quando houver mais posts da nossa área hehe! Mas o que seria a nossa área, economia ou antropologia?
    Carlinha, que bom que você concorda, fico feliz!! hehe
    Fleury, adoro sua participação no blog! Lá de bem longe!! hehe
    bjos!!

  22. Bom texto. Interessante, pq a gte spre tem a visão q indio tem q continuar como sempre foi, nao ha evoluçao…
    Outras Fronteiras mudando os conceitos!! rss

  23. Pingback: Quem quer ser JK?

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