A força da loucura cristã

Deixo com vocês hoje um trecho adaptado e traduzido de uma entrevista com Tatiana Góricheva, cristã que viveu na URSS stalinista e conviveu dia-a-dia com a perseguição aos cristãos naquele país. As memórias “completas” dela estão disponíveis no livro “La fuerza de la locura cristiana”, da Editora Herder (1988).

Pergunta: Você foi também uma cristã politicamente ativa. Que relação guardam entre si, a seu ver, o espírito e a política? Se pode dizer que essas duas dimensões constituem dois níveis de existência independentes um do outro e, eventualmente, de igual valor? Ou você crê que um cristão não deve se “sujar” com a política?

Resposta: Frente à revelação de Jesus, o que significam as preocupações cotidianas, as injustiças, os sofrimentos externos e passageiros? Na verdade até queríamos sofrer, para mostrar que a nossa fé era verdadeira. Na nossa frente, se abria um mundo novo e esplêndido que nada tinha em comum com esse outro mundo sofrido, escravo do materialismo, fútil, no qual viviam os homens que não conheciam a Deus, como nós mesmos um pouco antes. Nem nos dávamos conta do mal, mas essa ignorância beata ia durar pouco. Enquanto detém pessoas que você não conhece, você pode continuar vivendo como se nada acontecesse. Mas um dia prenderam o meu amigo, o pintor religioso Vadim Filimonov, um cristão de quem era muito próxima.

Quando fiquei sabendo de sua prisão, se despertou em mim uma consciência social. Desde então comecei a levar a sério não só o mal espiritual, mas também o mal político. É certo que o cristão não tem direito de ceder ao sofrimento; não pode tremer diante da prisão, do exílio, das humilhações, nem reclamar do seu infortúnio. Já dizia Eckhart: “O cavalheiro não pode se lamentar de suas feridas se o Rei está ferido“. Mas se o seu próximo sofre? É possível contemplar com calma a dor? Você tem direito a permanecer indiferente e tranquilo? Claro que não, pois o mais importante do cristianismo é o amor.

Mas nunca vou me permitir condenar esses chamados “cristãos passivos” e alheios à política. Tais pessoas vão à igreja, rezam sozinhos ou em família, não lêem jornal nem participam de reuniões públicas. Muitos renunciaram a postos acadêmicos para dedicar-se a um trabalho  “silencioso”, contentando-se com um salário mínimo para sobreviver. O cristianismo dessas pessoas, que dão a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, não se pode qualificar de “tímido” ou “parcial”: se mantêm ligados ao mundo por meio da oração e da igreja, que sofre por todos.

Nos monastérios russos repete-se a oração “por todos” e sabemos que essa oração tem poder. Às vezes escutamos dos ateus a crítica de que “seus monges não militam ativamente contra o mal, mas se refugiam na segurança de suas orações, têm medo do mundo e só salvam a eles mesmos”. Nada é mais absurdo e distante da realidade transformadora da oração. Nos monastérios se desenvolve a luta mais dura de todas, o combate entre os espíritos: os monges são os guerreiros mais valentes do mundo! Mas a vida puramente contemplativa não é dada a todos…

Obviamente, a política é a esfera da vida em que se exprimem com maior intensidade a ambição, o orgulho, arrogância e a agressividade. Por isso é importante para o cristão estar atento não se deixar cegar até o ponto de despreocupar-se com a implementação do paraíso na terra e de não se atrever não a falar alto o suficiente em nome dos oprimidos e deserdados.

Essas declarações quanto à política e o cristianismo são inconcebíveis para um ortodoxo. Tudo o que acontece na vida de um cristão, para o ortodoxo, tem que estar banhado de uma luz interior, imbuído da força da oração e do amor, de uma força que nasce do coração e não do cálculo político, mas tem que ser místico. Só a incessante purificação de sua alma traz a felicidade. O tumulto do mundo não deve perturbar a paz do coração, pois somente nela se pode ouvir a voz de Deus. O cristão pode muito bem não ser político, mas para isso tem que ser místico…

Que Deus ou nos dê a sensibilidade de enxergar nos que sofrem (aqui no Brasil, com o nosso regime injusto ou na China ou outros lugares com os cristãos perseguidos) o nosso próximo, como o samaritano, que traz a inquietação também política, ou a vocação do monge.

ana.oliveira

Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

Um comentário sobre “A força da loucura cristã

  1. Sensibilidade pelos que sofrem ou vocação monástica?

    Muito boa, a reflexão…

    Ainda bem que Jesus não veio a esse mundo para ficar em cima de uma montanha, intercedendo pelos seres humanos…

    A cruz é a prova de que Deus inseriu-se completamente no sistema da época. (PS: A crucificação era a forma mais terrível de execução do império romano…)

    Pelo menos, é assim que vejo…

    Bjo, Ana!

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