A felicidade, desesperadamente – um pouco mais

Hoje dou seguimento as idéias sobre felicidade, em segundo e, provavelmente, último post sobre o tema. Baseio-me ainda nas idéias de André Comte Sponville e valho-me deste para corrigir eventuais mal-entendidos e injustiças que eu possa ter cometido com o autor em meus escritos anteriores. Isto porque o primeiro texto refletiu uma perspectiva sobre a felicidade defendida por alguns pensadores, como dito, um pouco pessimistas. Comte os explicita em um primeiro capítulo do livro pelo qual me baseio, mas depois apresenta algumas refutações das quais hoje me detenho. Mais uma vez, com o objetivo de apresentar uma outra perspectiva da qual vejo pontos positivos, mas que também não me filio totalmente. Vamos adiante.

Há, em contrapartida aos pessimistas (Shopenhauer, Platão, Pascal, Sartre, etc), aqueles que crêem que não somos assim tão infelizes quanto hiperbolizam as referidas mentes. Isto porque estes que se filiam a idéia de que o desejo é falta, que nunca nos satisfazemos com a realização de nossos anseios e que nos entediamos e somos fadados a infelicidade, teriam se esquecido de alguns detalhes. Mais especificamente o prazer e a alegria.

Há prazer e alegria quando desejamos o que temos, o que fazemos, o que é. Quando desejamos o que não nos falta. Há prazer e alegria toda vez que Platão está errado. E a prova de que há nele erro é o casal que vive feliz, é a cerveja gelada ingerida quando se tem sede, o deleite de uma noite de sono bem aproveitada.

Para Comte, os pensadores dos quais chamo pessimistas teriam confundido desejo com esperança (esta última aliás, tema de minha próxima postagem). O que é esperança? É um desejo: não podemos esperar o que não desejamos. Toda esperança é um desejo, mas nem todo desejo é uma esperança. Esperar seria, para Comte, desejar sem gozar. O prazer é desejar gozando, desejar aquilo de que gozamos.  

Deste modo, “se é verdade que desejamos principalmente o que não temos e, portanto, se é verdade que nossos desejos na maioria das vezes são esperanças, também podemos desejar o que gozamos (isso se chama prazer, e todos sabem que há uma alegria do prazer), podemos desejar o que sabemos (isso se chama conhecer, e todos sabem que há uma alegria do conhecimento); e podemos desejar o que fazemos (isso se chama ação e todos sabem que há uma alegria na ação). Se é verdade que somos tanto menos felizes quanto esperamos sê-lo, também é verdade que esperamos tanto sê-lo quanto mais somos.”

Comte cita, assim, quase em estado de êxtase, algumas considerações sobre a esperança afirmando seu caráter prejudicial ao alcance da felicidade:

“A esperança não passa de um charlatão que nos engana sem cessar; e, para mim, a felicidade só começou quando a perdi”. – Chamfort

“Só é feliz quem perdeu toda a esperança; porque a esperança é a maior tortura que há, e o desespero a maior felicidade.” Mahabharata

Neste ponto me divirjo de André Comte, pelas razões que irei explicar na semana que vem, algumas delas embasadas em conceitos trazidos pelo próprio autor.

De toda sorte, creio que o essencial da idéias do livro “A Felicidade, Desesperadamente” é que a felicidade deve, de fato ser depositada no presente, e todo sentimento que a postergue ou a projete (para ele esperança), deve ser combatido, pois entendido dentro do contexto já desenhado, “Sou um homem feliz porque renunciei a felicidade.”

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