Antes que as moscas

Comecei a sentir um cheiro ruim no domingo. Na segunda-feira, piorou. Olhei dentro da geladeira, vasculhei o lixo. Parecia alguma coisa podre. Será que deixei alguma coisa estragada por aqui? Pra quem nunca morou sozinho, a hipótese é bastante plausível.
Mosca-varejeira-1Terça-feira, comecei a notar a presença de algumas moscas. Aquelas chamadas “varejeira” que indicam que algo podre está por perto. Saí cedinho para dar uma corrida. Na volta, enquanto subia as escadas do meu prédio, o cheiro era absurdamente forte. Olhei para a tampa que dava acesso ao telhado do prédio e pensei: “Deve ter algum bicho morto lá em cima! Precisamos tirar isso daí…”

Enquanto abria a porta do meu apartamento, ocorreu-me (tipo um lampejo repentino) dar alguns passos até a porta do vizinho. “E se o cheiro estiver vindo do apartamento ao lado?” Dirigi-me à porta e, literalmente, encostei o nariz na quina da porta. Certa resposta!!! Não havia como se confundir. O cheiro vinha de lá. Enfiei a cabeça na janela do corredor e olhei na direção do apartamento do meu vizinho. A cena mais nefasta que presenciei em Brasília até hoje: um enxame nojento das moscas varejeiras entravam e saíam do apartamento do meu vizinho. Chamei o síndico e ligamos para o Corpo de Bombeiros. Um dos oficiais entrou no apartamento com a ajuda de uma escada e saiu de lá dizendo: “Há um senhor morto aí dentro e o estado de decomposição do corpo parece ser de uns 4 ou 5 dias!”

A Polícia Civil foi acionada. Foi feita a perícia e, no final do dia, o rabecão chegou para a retirada do corpo. Essa experiência conseguiu marcar profundamente a minha semana.

Meu vizinho era o Sr. Davi, um homem de 64 anos que morava sozinho. Cruzei com o Sr. Davi apenas umas 5 vezes nesse tempo que estou em Brasília. Não conversamos nada além de um “bom dia”. Ele era um homem solitário e de semblante triste. Ninguém havia dado falta dele. Sua morte ainda é considerada pela polícia como indeterminada. Disseram que ele não foi trabalhar na sexta-feira e isso significa que ele morreu de quinta para sexta. Nessa mesma sexta-feira, a reunião com os jovens aconteceu aqui em casa. Estávamos todos aqui na sala e nunca poderíamos imaginar que no apartamento ao lado havia alguém morto.

Foi inevitável não falar sobre isso com Deus. A experiência mexeu por demais comigo.

Fiquei ainda mais convicto de que a morte tem lá suas “garras” e elas são simplesmente horripilantes. O pecado é fúnebre e cheira muito mal. Talvez Deus tenha me trazido para Brasília para que eu possa encontrar aqueles que estão “mortos” longe de Cristo. E talvez não seja preciso ir muito longe para encontrá-los. Naquela sexta-feira, as realidades em cada apartamento eram completamente distintas. Vida de um lado, morte do outro.

Que as moscas não sejam as primeiras a notarem aqueles que estão mortos. Que Deus me ajude a encontrá-los antes que a morte os abrace completamente. Que as relações possam ir muito além de um simples “bom dia” e que o bom perfume de Cristo possa exalar por onde quer que eu vá.

Um grande abraço!!!

Eduardo Victor

Sobre Eduardo Victor

Mineiro de Belo Horizonte, 33 anos, cristão e missionário em Alvo da Mocidade. Apaixonado pelas Escrituras, tornei-me um sonhador quando descobri que Deus pode nos surpreender com as coisas mais simples e inusitadas desta vida...

2 comentários sobre “Antes que as moscas

  1. Que Deus te abençoe nessa missão meu amigo. Abraços e obrigado por compartilhar essa experiência.

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