Espinho na carne, uma dor na alma

A vida ia muito bem – estava feliz na minha relação com Deus, com as pessoas, cumpria bem as atividades cotidianas… até que um dia senti uma fisgada no peito, doeu no fundo da alma. Não sabia ao certo o que poderia ser, simplesmente orei para que Deus me tirasse aquele incômodo absurdo. Nada de resposta. Orei uma segunda e uma terceira vez. Foi então que li na segunda carta que Paulo escreveu aos cristãos da cidade de Corinto o seguinte trecho:

“Três vezes roguei ao Senhor que o afastasse [o espinho] de mim; mas ele me respondeu, ‘minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza’”.

2Coríntios 12:8,9

E foi assim que descobri que existe um espinho na minha carne. O espinho é na carne, mas a dor é sentida muito profundamente na alma… E com o tempo vieram também algumas simples perguntas: O que é o espinho? Quem colocou esse espinho aqui? Por que Deus permite um espinho? Como faço para conviver com este espinho (já que ele não quer sair)? É mesmo possível conviver?

Paulo afirma que é um enviado de Satanás para lhe tentar e não permitir que ele se gloriasse de estar tão próximo de Deus. Em determinadas fases em que tudo vai muito bem realmente temos a tendência natural de achar que somos bons em nós mesmos e acabamos por deixar Deus um pouco de lado.

Será que Deus enviaria Satanás para tentar alguém? Creio que não (não entendo o que Paulo escreve). Tiago, irmão de Jesus, afirma em sua carta (Tiago 1:13,14) que ninguém é tentado por Deus, mas sim pela sua própria paixão carnal, pela vontade de satisfazer seus instintos animais. O espinho é fruto daquilo que há em mim mesmo há um tempo considerável e que veio à tona neste momento de incômodo.

E por que Deus não respondeu à minha oração e curou minha alma? Quando nos tornamos cristãos temos a infeliz ideia de que os problemas não mais nos atingirão, que tudo ficou no passado negro de vida longe de Deus. Doce ilusão, os problemas continuam a acontecer e algumas vezes até pioram porque como bons cristãos buscamos nosso aprimoramento enquanto homens e mulheres, o que nem sempre acontecia antes de termos conhecido Jesus. E transformar dói, muito! Não foi Deus quem escolheu que conviveríamos todo o tempo com o mal, porque Deus é bom.

Sem muita opção de escolha, passamos a conviver com o espinho. Quando o percebi em mim pensei que Deus ou não podia ou não queria me ajudar. Tenho experiências de fé suficientes para entender que Deus pode tudo, inclusive me tirar o espinho. Por que, afinal, ele então não o faz??? Sua resposta às nossas orações nos ajuda a entender que o espinho serve como um recurso didático de nos ensinar que precisamos voltar nossa atenção ao fato de que dependemos somente da graça de Deus, daquilo que ele nos faz sem que sejamos obrigados a lhe dar algo em troca, a dependência na sua forma mais simples. Não creio que Deus permitiria um sofrimento sem que isto nos trouxesse algo de muito bom.

Conviver com o espinho não é fácil. Seu eu pudesse arrancar o espinho da minha carne não hesitaria em deixar que fosse uma parte do meu corpo junto. E quem sofre com um espinho sabe do que digo. Sei que Deus não é indiferente à minha angústia. Assim como Jesus sofreu no Gtsêmani antes de ser entregue à crucificação, hoje também Deus sofre com nossas dores. O benefício de nos aproximar de Deus e ver seu poder aperfeiçoado em nós é um grande consolo. E, ainda sobre o consolo, o Espírito ora a Deus por nós com gemidos inexprimíveis, intercedendo por aquilo que é impossível ser explicado com palavras.

Sei que todo mundo tem seu espinho. E se você não conhece o seu, cuidado! Pode ser que esteja tão enraizado na sua carne que ainda não o tenha percebido. Se você leu até aqui em busca de uma fórmula mágica, me desculpe, mas eu ainda não a descobri (se já descobriu não deixe de me informar!). A ideia do blog é sair da correria do dia-a-dia e pensar na vida. Espero que possamos pensar a respeito de mais este assunto. De toda forma, tenho visto o quanto cresci lutando contra o espinho. Como é bom ver que Deus não desistiu de mim e ainda trabalha para que eu tenha minha fé e caráter aperfeiçoados, e de graça.

Minha oração hoje é para que Deus cresça em nós, nos ajudando na transformação do nosso caráter, com ou sem espinho, e que sua graça seja o suficiente para fornecer subsídio pra vida por mais este dia. Não deixe de dividir com a gente suas experiências, comente!

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

5 comentários sobre “Espinho na carne, uma dor na alma

  1. Gostei da postagem… Eu ficava pensando se era só comigo que isso acontecia… Mas é bom saber que isso é normal, e que Deus nao me abandona só porque um espinho me fere… =)

  2. Legal, André. De perto ninguém é normal. Respeitadas as devidas diferenças que nos tornam únicos, de perto todo mundo é muito igual. Muito aliviador saber que não há nada que faça com que Deus me ame menos do que ele já me ama, inclusive eu mesmo.

  3. Muito bom… espinhos na carne… tinha me esquecido que esse termo existia.
    Tenho meu espinho e muitas vezes não entendia porque ele ainda estava ali, lembrando-me sempre de clamar, clamar e depender unicamente da mão poderosa do Senhor.

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