Especulações do evento suspenso

Trazia no caminhar a nítida diferença dos outros homens. Sua limitação era sua identidade pois não podia de forma alguma disfarçá-la ou esquecê-la. Sempre fora assim, assim viera ao mundo. Conheceu-o bem logo toda a sua frieza: o amor negado, o desprezo, o medo, a repulsa. Nunca deixou de depender de alguém. Neste sentido, não cresceu pois de certa forma continua criança.

Adicionada à limitação física há também a econômica. Esta restrição veio a conhecer já mais velho, quando pôde sair à rua e depender de não-familiares. Sempre foram menos solícitos do que os de casa e foi compreendendo que se tivesse posses não precisaria conta com a boa vontade de ninguém. Oh como seria bom não ter que pedir e alcançar um favor tão pequeno para os outros e tão grande para si. Este tipo de humilhação foi lhe trazendo uma amargura contida e sufocada que foi lhe fechando o rosto, o coração, a vida de modo geral. Não que não fosse simpático e sorridente – esse luxo não poderia se dar. Tinha que sempre agradecer toda e qualquer consideração embora desprezasse a tudo e a todos.

Surpreendeu-se com a sentença do homem que encontrou quando suspenso por cordas. De todos, sentia-se o menos devedor. Era o que mais sofrera. Era o que menos tinha. O que menos recebera. O perdão lhe era devido. A mudança de sua condição era o que o levava ali.

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