Entrega a Deus

Um dia, já há certo tempo, conversava com um amigo enquanto caminhávamos em direção a mais uma corriqueira reunião de domingo à tarde. Tentava lhe explicar o que acreditava ser (e acredito ainda) “entrega a Deus”:

– É bem simples, você só precisa entregar e esperar que Deus vai agir. (eu disse)

– Como??? Por exemplo, meu braço está doendo agora. É só entregar a Deus que ele vai fazer meu braço parar de doer? (ele perguntou)

– Sim! (respondi)

– Então está entregue. (ele disse)

– Oh, parou de doer!!! (ele disse ao final, espantado)

Quem me dera todas as entregas fossem tão simples e tivessem respostas tão rápidas! E como não é assim, o assunto “entrega a Deus” torna-se um tanto quanto complicado de ser compreendido e principalmente de ser vivido.

O processo de entregar a Deus qualquer sentimento, situação, pessoa (que julgamos nos pertencer) é algo que deveria ser natural para qualquer cristão. Creio que quando for procurar por este assunto nas gavetas de doutrinas do meu cérebro devo buscar num documento que está dentro de uma pasta maior chamada “mordomia”. Mordomia porque na verdade já não somos dono de nada neste mundo, muito pelo contrário, quando morremos não levamos sequer a roupa do corpo. Como o mundo é de Deus, somos apenas mordomos que tem o dever de guardar suas coisas enquanto estamos aqui, com o imenso privilégio de desfrutar de uma quantidade boa delas. Mas se não é meu, porque tenho dificuldade de “entregar” para Deus?

Vivemos numa sociedade capitalista e nos foi ensinado desde cedo que tudo deve girar em torno da propriedade privada do capital. Acabamos por transportar isto para pessoas e situações, nos sentimos literalmente donos de tudo.

Quando Jesus nos convida a andar com Ele no evangelho, nos diz que devemos entregar a carga pesada em suas costas, porque seu julgo é suave e seu fardo é leve, ou seja, podemos descansar e deixar que Ele leve consigo aquele peso enorme que tem nos impedido de caminhar.

Aqui faço a primeira pergunta: quais são os fardos que temos tentado carregar? Pense nos bens materiais que você não tem utilizado para glorificar a Deus. Pense no quanto eles tem dificultado sua relação com as pessoas. Pense nas situações que perturbam insistentemente sua alma. Pense nas pessoas que você gostaria que estivessem a seu dispor, servindo seus a interesses egoístas.

Ainda que não esteja lhe atrapalhando, pense em tudo que Deus lhe confiou para ser mordomo. Algumas destas coisas tem um valor em si e que fazem delas algo a que devemos dedicar maior atenção. Se você for um homem médio e se deparar com uma nota de R$100 no chão à sua frente, por exemplo, você necessariamente vai pegá-la. Isto porque a nota tem um valor em si. O mesmo se aplica para a bolsa ou o sapato elegantes numa vitrine para as mulheres. Elas tem muitas bolsas e pares de sapato em casas, mas vão pelo menos dar aquela olhadinha com um fundo desejo no coração. Já nós homens, seremos igualmente tentados a olhar se passar ao nosso lado uma mulher atraente fisicamente. Ainda que estejamos acompanhados da modelo mais bonita do mundo, nosso olho vai querer acompanhar o corpo bonito que desperta nossa atenção logo ao lado. Ouvi certa vez a este respeito e concordo: são pessoas, situações e coisas com valores em si. Com elas, como disse, devemos ter maior cuidado.

***

Agora que já sabemos o quê, está bem fácil: basta entregar! Mas não é tão simples né? Quando tinha apenas três meses de caminhada ao lado de Cristo fui convidado a entregar tudo a Ele por meio de uma carta. Lembro que minha lista não era muito grande, mas havia nela alguns itens bastante críticos. Sinalizei com asterisco alguns deles e orei crendo que entregava tudo nas mãos de Deus. Com o tempo percebi que eles foram realmente entregues. Deus me afastou com carinho e de forma sutil de alguns que me faziam mal. Ele permitiu que vivesse com muitos dos itens na condição de mordomo, sem deixar que eles se tornassem maiores em minha vida do que Ele próprio. E alguns foram quase arrancados das minhas mãos porque, apesar de entregar, acabava tentando tomar de volta vez e outra. É um processo que pode ser doloroso e muito difícil, mas ao final muito gratificante.

Muitas outras situações/coisas/pessoas passaram pela minha vida ao longo dos dez anos que se seguiram após aquela cartinha singela endereçada a Jesus. Continuo, assim como todo mundo, necessitando praticar a disciplina da entrega diariamente. E tenho descoberto nos últimos anos uma expressão do amor de Deus de maneira até então pouco conhecida por mim: o desespero!

À medida que ficamos mais velhos somos mais tendenciosos a crer na nossa autosuficiência. A história e a experiência de tentativa-erro-tentativa-acerto nos ensina a lidar com as mais diversas situações. Criamos fórmulas mágicas para esta ou aquela dificuldade e tentamos, assim, domar o indomável. Quando chegamos ao fundo do poço, quando estamos no meio do lamaçal, quando cremos que não temos mais força para tentar fazer dar certo aquela tática infalível aprendida por nós, Deus nos faz um convite: entrega! Já não temos mais a quer recorrer e recorremos então a quem deveríamos ter procurado desde o início.

Quero terminar com mais algumas perguntas:

– o que lhe impede de entregar tudo de “sua” vida a Deus?
– o que você pode fazer para mudar este quadro?
– quando você foi levado ao fundo do poço para então entregar algo a Deus? (compartilhe suas experiências conosco, deixe de ser egoísta)

E abro espaço para maiores discussões a respeito de um tema que tanto luto para viver, mas que confesso não compreender por completo: a entrega a Deus.

Post dedicado ao amigo de filosofia, de experiências com Jesus e de um bate papo sempre muito saudável, Matheus Coelho,  que me influenciou a relembrar estas coisas.

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

8 comentários sobre “Entrega a Deus

  1. Rafa, minha maior dificuldade é separar, dentro de mim mesmo, aquilo que eu de fato entreguei pra Deus daquilo que simplesmente não me importa mais. Afinal de contas, entregar algo pra Deus é deixar que Ele resolva, então, teoricamente, no ato da entrega vc deixa de preocupar-se com o fato, pois está nas mãos de Deus. O grande paradoxo é não se preocupar com algo que lhe é importante. Eis aí o mistério da Fé!

  2. Interessante o tema, Rafa! Você abriu o espaço para discussões então resolvi colocar algumas considerações que tenho pensado há algum tempo:

    A entrega à Deus é inteira. Não parcial. Percebo que quando há problemas, todos falam: “entregue a Deus!” (Como o exemplo que você deu do braço). A questão é que não vejo a mesma atitude de entrega com relação às coisas que estão bem, que estão dando certo. Isso é uma entrega um tanto quanto interesseira – acho inclusive que talvez nem seja entrega. Com certeza, entendo que devemos entregar os problemas a Deus. Mas acredito que a entrega a Deus não deve ser posterior, mas anterior às coisas. A entrega a Deus deve anteceder todas as coisas e não ser consequência das mesmas. Não é porque temos um problema que devemos entregá-lo a Deus. Devemos viver entregues a Deus quer as coisas vão bem ou vão mal.

    A entrega a Deus deve base para todas as nossas decisões e não uma meta a ser alcançada. Vejo a entrega à Deus na base e não no topo de nossas vidas. Nunca foi e nunca será um objetivo para mim me entregar a Deus, pois acho que só o fato de tê-la como objetivo não estaria vivendo corretamente uma vez que a entrega a Deus é o ponto de partida. Ter o ponto de partida como objetivo é um tanto quanto contraditório.

    Em tudo na vida cristã entrega a Deus é o ponto de partida. Orar é inútil. Ler a Bíblia é vão. Se congregar vazio. Por si só qualquer disciplina ou algo que o cristão faça é vazio. A entrega a Deus deve ser o ponto de partida para todas essas coisas. Sem ela qualquer esforço é de si para si mesmo.

    Gosto muito de avaliar os questionamentos na Bíblia. E acho muito curioso. Não vejo Paulo, Pedro, Thiago falando da entrega a Deus da forma que falamos hoje. Eles mesmos não falam de entrega a Deus dessa forma “multi-repartida” como usamos. Para eles isso certamente era ilógico. Na Bíblia não há trechos esmiuçando entrega a Deus. Não há o que esmiuçar. Por outro lado, é curioso pois a entrega a Deus ela esta entranhada em toda a Bíblia. É algo como o ponto de partida e o meio de quase tudo. Da mesma forma não consigo ver a entrega a Deus como uma coisa separada na minha vida. É como algo entranhado. Abrindo um longo parêntesis:

    __

    Quando digo de entrega a Deus não digo ser perfeito. Não somos perfeitos e nem seremos enquanto carne. Ser perfeito para mim está em uma esfera distinta da entrega a Deus. Perfeição no grego, inclusive, significa completude:

    Perfeito: τέλειος – télios – completo, findouro; “completude”; “fim”

    A completude não se dá no começo mas no fim. Enquanto a entrega a Deus é o princípio de todas as coisas, a perfeição (τέλειος – télios – completo, findouro; “completude”; “fim”) é o fim de todas elas. Nisto não estou colocando um pensamento evolucionista de que tudo se aperfeiçoa. Não creio nisto. Acho isso oposto ao que a Bíblia diz. Não estou falando de aperfeiçoamento. Estou falando que tudo se completa, mesmo que este “completamento” seja um “completamento ao contrário”, em outras palavras, a extinção (como diz em 1 Co 13:8 – O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá).

    1 Co 13: 9-12 -> Porque em PARTE conhecemos, e em PARTE profetizamos; mas quando vier o que é perfeito (τέλειος – télios – COMPLETO, FINDOURO; “COMPLETUDE”), então o que é em PARTE será aniquilado. Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos COMO POR ESPELHO, em ENIGMA, mas então veremos face a face; agora conheço em PARTE, mas então conhecerei PLENAMENTE, como também sou conhecido.

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    Fechando o longo parêntesis que abri para explicar porque vejo a entrega como base e porque é diferente de perfeição, vou fechar com um exemplo clássico:

    Davi viveu sua vida de forma entregue a Deus, quer quando desprezado, em ameaça de morte, quer quando rei de Israel. O fato de ele saber que era o próximo rei de Israel não o fez ambicionar usurpar o cargo de Saul. Ao contrário, viveu fiel a Deus na falta e na abundância. Era um homem perfeito? Longe disso! Na Bíblia vemos isso claramente! Mas era um homem entregue a Deus. Não é porque ele pecava que deixava de ser entregue a Deus. A questão é Davi foi um homem que se entregou por inteiro, quente e com algumas atitudes de frio, mas nunca morno.

    Para sermos salvos temos que nos entregar. Como a Bíblia diz nem todo o que disser: Senhor/Dono, Senhor/Dono, em teu nome fiz isso ou aquilo… será salvo. Pois o que importa não é dizer Senhor/Dono. Mas sim tê-lo como Senhor/Dono. E não há como tê-lo como Senhor/Dono sem entrega. A entrega é base. Então não consigo pensar em cristianismo sem entrega a Deus.

    P.S.: Nunca iremos compreender por completo, apenas em parte, como diz 1 Co 13:9-12. Não seja nosso objetivo entender por completo o tema, mas, na medida do possível, entender corretamente.

  3. Continuando o debate:

    Vejo que dentro do cristianismo muitas pessoas associam a entrega a Deus à perfeição. Associando a ideia de que se pecamos é porque não estamos entregues a Deus. Discordo dessa forma de pensar. Somos pecadores. Por cristãos mais dedicados que sejamos iremos cometer pecado. Está na nossa natureza. Entender a entrega como ausência de pecado é como colocá-la como um objetivo inatingível. É como correr atrás do vento. É correr em vão. O cristianismo não consiste nisso. O cristianismo não consiste em ter a entrega como meta, mas como base de tudo. O cristianismo consiste em uma entrega de fato, nascer de novo. Isto é a base da vida cristã. Esse é o ponto de partida para tudo na vida cristã. Acredito que não há como recortar a entrega a Deus.

    Mateus 13:44 -> Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo.

    Não existe financiamento, nem prestações a serem pagas pelo campo com tesouro escondido. Deus não quer que paguemos com partes de nossas vidas aos poucos, mas por inteiro. A entrega não é feita a prestações. Deus me quer inteiro. O cristianismo é inteiro, é íntegro. Ou se envolve integralmente ou não se envolve.

  4. Neruda, não acho que esqueço quando entrego algo a Deus. fico pensando todo o tempo, não não fico ansioso e querendo resolver as coisas do meu jeito quando está entregue. eis o mistério mesmo hahaha.

    alfa, concordo com muito do que você escreveu. é tudo muito bonito na teoria, mas quero ver na prática. Não é tão fácil assim, principalmente quanto à naturalidade da entrega e entregar anteriormente tudo. ainda acho que é algo que preciso buscar individualmente, fragmentado mesmo. em tese já estou totalmente entregue há 10 anos.

  5. rsrsrsrsrsrsrs

    Rafa, concordo que a prática não é fácil. Ninguém falou que seria. Quero ressaltar que na passagem que citei de 1 Co 13:9-12, Paulo diz que enquanto carne conhecemos, entendemos e fazemos tudo em parte. Ora, é claro, portanto, que nenhum homem é capaz de se entregar perfeitamente. Entendemos tudo em parte e fazemos tudo em parte. Nenhum homem é capaz de se entregar com perfeição. Mas quem falou que teríamos que ser capazes? Então o que digo é que não deve ser nosso objetivo se entregar perfeitamente pois isso é inatingível. Mas sim entendo que a entrega deve ser a base de tudo. Ou seja, ao invés de vê-la como meta, tê-la como base. E acho que muitas vezes invertemos essa concepção erroneamente. Esse é o ponto que defendo.

  6. “Pessoas egoístas”!!!!! ri demais de você, Rafa..

    Vou deixar de ser egoísta, e compartilhar o que tenho vivido desde julho/agosto do ano passado. Finalmente, senti que consegui entregar minha vida como um todo para Deus, e não apenas partes dela. Foi quando consegui orar e dizer:

    “Pai, não me interessa o que vai me acontecer. Se estou estudando tanto para ser reprovada na faculdade, se eu me decepcionar com alguém, se eu ou alguém na minha família adoecer e/ou morrer, se o SENHOR me chamar para trabalhar com os miseráveis na África, no Haiti ou qualquer lugar do mundo pelo resto da minha vida, se o SENHOR quiser que eu venda tudo que eu tenho e doe para os pobres, se eu trabalhar muito e passar dificuldade financeira, enfim…. Absolutamente, qualquer coisa que acontecer, não me importa. Me leve para onde quiser, faça de mim o que quiser, eu sei que o SENHOR está no controle, e minha vida está nas suas mãos! Não tenho porque temer ou me preocupar… apenas orar para que o SENHOR me dê paz, e sabedoria para lidar com o que vier.”

    Eu sei que parece muito trágico, e realmente é! rs… Mas tive que pensar nas situações mais extremas para ter certeza de que minha vida está realmente entregue a Deus. Sabe, vivo uma vida muito confortável, e parece que essas coisas estão muito fora da minha realidade… E é muito mais fácil entregar-se para Deus quando tudo está do jeito que você quer. Portanto, minha tentativa tem sido entregar-me para Deus e estar com ele, como Jó, que perdeu todos a quem amava, tudo o que tinha, e inclusive sua saúde, e não maldisse Deus. Ou como Habacuque, que quer se alegrar em Deus qualquer que seja a situação. (Habacuque 3:17-19)

    Minha dificuldade maior, no entando, tem sido me entregar todo dia. Fiz isso uma vez, mas viver assim é difícil… e tem dias que as dificuldades apertam, e eu me questiono se estou tão livre assim para o que der e vier. Então peço a Deus que me mantenha firme, para que não queira “tomar de volta” o que entreguei. E claro, questiono-me se não estou com a mão preparada para puxar de volta, tão logo Deus queira tirar algo de mim! Mas, de qualquer forma, é assim que quero viver, e quero que esta oração seja realmente verdadeira, e reflita meu coração. Se ainda não o é, creio que Deus vai transformar meu coração para que seja!

    Abraço

  7. Por diversas vezes “entreguei” nas mãos de Deus e acabei, por fim colocando as minhas mãos. Achando que era o momento de agir. E ao pressionar para que as coisas aconteçam, pude ver que ainda não é o momento certo, que ainda muitas coisas precisam serem resolvidas. Nada é no nosso tempo. Eu conto os dias em que estou nessa situação de espera. Diversas vezes Deus usou pessoas pra me dizer que Ele estava trabalhando, que eu deveria aquietar o meu coração. Naquele momento um conforto tão grande alcançava o meu coração. Ao passar alguns dias, lá estava eu outra vez, chorando e clamando a Deus para que tudo fosse resolvido. É triste saber que essa dor que eu sinto, e em vário momentos o desespero, pode ser falta de fé… Realmente entregar nas mãos de Deus é muito difícil, mas de acordo com as minhas experiências, tentar resolver as coisas sozinha, não adianta! Tudo deve ser entregue nas mãos dEle. Estou caminhando aos poucos e creio que em breve tudo estará resolvido. Gosto muito de ler textos e opiniões das pessoas, pois acabam me mostrando o quanto posso confiar, como agir. Agradeço a todos!

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