O enterro de um perfeito

                Falava-se muito dele. Por isso, era de se esperar que naquela ocasião estivessem todos presentes, um tanto pelas bajulações de outrora. Fato é, contudo, que apenas uma pessoa estava por lá e esta já não mais se impressionava com as pompas do defunto. Ainda assim, castiçais de prata e velas vermelhas por todo o imenso salão. Coroas de flores com dizeres de sentimentos como não se podia faltar, ainda que encomendadas pelo próprio morto.

                Fez ele também questão de ser enterrado com um terno branco que lhe caia sob medida e combinava com as madeiras do caixão. Segurava em uma das mãos um espelho redondo, daqueles de lentes curvas que aumentavam os objetos. Exibia ainda os pés descalços como que em sinal de simplicidade calculada.

                O salão vazio incomodava o homem à beira do caixão. O tal defunto arrancava comentários de admiração de todas as bocas que a ele se referiam. Pensou que talvez fora justamente este ideal fabricado o real culpado pelo afastamento de almas imperfeitas que o enalteciam quase que por obrigação. Talvez. Foi ainda capaz de reparar a ausência do pai a quem o morto quase sempre se referia com especial carinho. Algumas línguas nervosas diziam que o ancião teria se revoltado com a morte de sua cria como que de alguém houvesse fracassado. Num acesso de loucura, teria até mesmo falado que o filho apenas dormia, que se levantaria a qualquer momento. Sem dúvidas, um devaneio, mas que não se custava enterrá-lo de uma vez.

                Curioso perceber como aquele funeral era especialmente peculiar. As observações nostálgicas de honradez, ainda que quase sempre tendenciosas, não existiam naquele salão. Não se falava de legado e faltavam histórias das quais se valeria a pena contar.

                Não havia dúvidas, porém, de que era um dia triste. Por isso o choro compulsivo daquele que por lá estava. Lágrimas de quem enterrava um velho companheiro. De quem escancarava feridas ocultas. Pôde observar, ainda que sem surpresa, que a fisionomia daquele corpo morto era a sua própria. O mesmo cabelo, traços, porte físico. Tocou naquela que seria a sua própria mão. Uma pele grossa e flexível que se afundava até encontrar o fundo do outro lado. E era assim por todo o corpo; epiderme em formato do homem oco, maleável ao que lhe comprimisse ainda que quase impossível de se romper.

                Fechou a tampa do caixão sem maiores resistências. Ao cruzar a porta do salão foi possível observar que as flores lá dentro haviam repentinamente se murchado e as velas, se apagado. Nasciam bolores por toda madeira branca do caixão e muitas traças o comiam sem, contudo, consumi-lo. Ninguém veio buscar o corpo para que fosse enterrado. As grandes portas permaneciam abertas caso quisesse voltar. Deu de costas, mas ainda pôde perceber a inscrição que continha o nome daquele morto na parede do salão: Orgulho.

 

3 comentários sobre “O enterro de um perfeito

  1. que armadilha, que inimigo sagaz é esse tal de orgulho
    precisamos sempre termos uma medida exata de nós mesmo, dar glória a Deus e perceber que é Ele quem tudo efetua. o centro do mundo não somos nós, mas deve ser Ele.
    muito obrigada pelo texto.

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