Em defesa do Aniquilacionismo – 2

Olá pessoal!  Tudo bem?

Este é nosso segundo post sobre o tema “Aniquilacionismo”. Este texto é uma continuação do primeiro,  e caso você esteja lendo este aqui sem ter lido o anterior, eu sugiro que você dê um pulo rapidinho AQUI e faça a leitura! Para os demais que nos acompanham desde a semana passada, vamos em frente!

Na semana passada eu propus dividir este estudo em quatro partes, mas devido ao tamanho da segunda parte, optei por dividi-la em dois posts, logo, a principio, teremos 5 partes no total. Deixarei para introduzir os argumentos favoraveis ao aniquilacionismo na semana que vem, me permitindo estender um pouco mais a introdução e definições iniciais da nossa discussão.  Apesar de estar praticamente finalizado em relação à forma e conteúdo, os posts futuros ainda não estão escritos pois pretendo utilizar-me de todos os comentários que voces fizerem, permintindo assim uma construção participativa do que estamos falando.

Apesar de me apoiar nos ombros de alguns teólogos para suscitar a discussão que agora produzimos, é necessário afirmar que mesmo entre os aniquilacionistas existe uma série de variações a respeito de diversas teorias. Tenho tentado filtrar aquilo que realmente nos interessa, trazendo para mesa apenas elementos seguros e reconhecidamente aceitos por boa parte da comunidade cristã. De qualquer forma, para procedermos com a defesa do aniquilacionismo é necessário que sejam definidas algumas verdades sobre as quais vamos trabalhar. Algumas das divisões doutrinárias são tão complexas que discutir sua natureza iria requerer um estudo ainda maior do que este que agora fazemos. De complexo, por hora, nos basta o aniquilacionismo em si mesmo. Desta forma, é preciso assumir os seguintes axiomas:

Primeiro Axioma: Existem duas mortes

Sabemos de maneira corriqueira que a morte é o salário do pecado. Sabemos que o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus, mas por causa da queda lhe foi negado o fruto da árvore da vida, e desta maneira, fomos condenados a morrer. Sabemos que a morte implica em cessar nossas atividades neste mundo físico. Paulo nos confirma isto quando escreve aos hebreus, no capítulo 9, verso 27: “Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o Juízo.”  Até aqui temos o seguinte esquema:

                                           nascemos > morremos > somos julgados.

O livro do apocalipse nos apresenta ao conceito da segunda morte. Ele aparece primeiro na carta escrita para a igreja de Esmirna, dizendo que aqueles que ficarem firmes com Cristo não sofrerão os “danos da segunda morte” (Ap 2:11).  Logo mais a frente,  o mesmo livro nos esclarece o que é a segunda morte: é ser lançado no lago de fogo (Ap 20:14-15).

Pelo texto do capítulo vinte, podemos interpretar que os “não-salvos” serão aqueles que sofrerão a segunda morte ( e serão lançados no lago de fogo após o julgamento final), mas podemos também concluir que a primeira morte é inevitável para todos os seres humanos (obviamente existem exceções , como Elias e os arrebatados, mas esta vereda é daquelas complexas que evitaremos, por hora).

Logo, podemos assumir de maneira geral que existem duas mortes, sendo a primeira delas, inevitável.  A segunda será nosso ponto de discussão.

Base bíblica chave: Ap 2:11, Ap 20:14-15

 Segundo Axioma: O espírito (ou alma) é sensiente

Vamos considerar como verdade a hipótese de que o espírito humano (alma) existe e é sensiente e consciente, ou seja, mantém-se sensível mesmo após a perda de sua unidade corporal. Em resumo: temos consciência após a primeira morte, mesmo sem nosso corpo físico. Contudo, exclua-se deste axioma o entendimento de que as almas são imortais ou que não possam ser destruídas. A destruição ou não destruição da alma é justamente o cerne do nosso debate, e tanto uma opção como a outra serão apresentadas como argumentos favoráveis ou desfavoráveis ao aniquilacionismo. A afirmação também só vale para a primeira morte, ou seja, só vale até o juízo final.

O evangelho de Lucas nos apresenta uma história bastante singular sobre um homem rico que, indo ao inferno, conversa com Abraão, que se encontra separado deste homem por um profundo abismo. A interação do homem rico com Abraão é claramente pós-morte, assim como é clara a consciência dos envolvidos. A passagem não parece ser alegórica (não é parábola e envolve seres reais), e, portanto, seu sentido literal nos permite confirmar este axioma. Esta passagem é bastante simbólica para o contexto do aniquilacionismo. É de fato uma revelação assustadora, e eu creio ser real e literal. Isto nos levará para o terceiro axioma.

A vereda sobre os que “adormecem” quando morrem, ficando inertes até o julgamento, também será evitada pelo mesmo motivo do axioma anterior. Seu estudo levaria mais tempo do que este que agora apresentamos, e não interfere no resultado final. O estado de “dormindo” ou “acordado” antes do julgamento final não interfere diretamente no destino da alma após este julgamento, esteja o condenado indo para o inferno ou sendo aniquilado.  O imortalismo, portando, não será um assunto para este post.

Base bíblica chave: Lucas 16:19-31

Terceiro Axioma: O inferno existe

Sim, meus amigos. Eu creio que o inferno exista. Negar a realidade do inferno nunca foi prerrogativa deste estudo. Grande parte dos aniquilacionistas é acusada de querer amenizar a consequência do pecado ou relativizar a existência de um sofrimento pós-morte. Não é nosso caso. Neste estudo, partiremos do principio de que o inferno existe. O que de fato queremos pensar não é a existência do inferno, pois estou convencido de que ele é real. Existe sim um lugar de sofrimento e ranger de dentes, e este lugar é o inferno. O que eu pretendo discutir é a natureza deste inferno. Em última instância, pretendo discutir a sua composição, mas principalmente eu pretendo discutir a sua duração! Acredito que o inferno tenha prazo de validade, e só não farei deste fato um axioma por questões de retórica. Precisarei de um inferno eterno para negar o aniquilacionismo nas próximas semanas.

Apesar de não ser necessário ao nosso objetivo final, acho interessante entrar, mesmo que minimamente, em um assunto que é tangencial a teoria do aniquilacionismo: o que é o inferno?  Meu principal objetivo com esta pequena exposição é equalizar nosso entendimento sobre o assunto e dismistificar o que é cultural do que é de fato bíblico.

Biblicamente falando, o inferno (lugar) é uma composição complexa de quatro termos utilizados nas versões originais, e traduzidas para diversas línguas como simplesmente “inferno”.  Fato semelhante se deu com a palavra “amor”, e sobre este assunto já escreveu o nosso amigo Rafa Santtos aqui mesmo no blog (leia aqui). No caso do inferno (lugar) as palavras que o definiam originalmente são: Sheol, Hades, Gehenna e Tártaro, a saber:

Sheol / Hades (1) – Um vocábulo hebreu (She`Ol) e um vocábulo grego (Heidi), que basicamente podem ser considerados sinônimos. Em hebraico puro e simples, a tradução mais aproximada seria “sepulcro” ou “sepultura”. É utilizado frequentemente na bíblia como referência a uma condição de morte e para um lugar para onde os mortos vão. O termo utilizado para definir o local onde o homem rico suplica por água na passagem de Lucas 16:19-31 (mostrado no axioma anterior) , traduzido como inferno nas versões em português, é Hades (vide nota de rodapé das traduções NVI).

Gehenna (2) – Vocábulo derivado do hebraico “Geh Hinnóm”, que significa “Vale do Hinom”. Uma pesquisa rápida vai nos revelar em 2 Crônicas 28:1-3 que o Vale do Hinom foi utilizado para oferecer sacrifícios ao deus Moloque por, pasmem, Acaz, rei de Judá. A bíblia relata que Acaz sacrificou seus filhos queimando-os e produzindo fumaça sacrificial.

“O comentador judeu David Kimhi (1160-1235), no seu comentário sobre o Salmo 27:13, dá a seguinte informação histórica a respeito de “Gehinnom”: “E é um lugar no terreno adjacente a Jerusalém, e é um lugar repugnante, e eles lançam ali coisas impuras e cadáveres. Havia ali também um fogo contínuo para queimar as coisas impuras e os ossos dos cadáveres. Por isso, o julgamento dos iníquos é parabolicamente chamado de Gehinnom.” (3)

Vale do Hinom

Então, quando pensamos na idéia de “inferno” da cultura ocidental, a imagem que mais se assemelha seria a do Vale do Hinom, local de morte, com um fogo constantemente acesso para queimar lixo, corpos humanos e restos de animais.

Tártaro (4) – Aparece uma única vez em toda a bíblia, em 2 Pedro 2:4 , para retratar o local para onde foram lançados os anjos que pecaram contra Deus. Uma tradução razoável seria “abismo”. Pouco importante para nosso caso, muito importante para um estudo sobre a queda de Lúcifer. Particularmente falando, faz alguns anos que tento me aprofundar no estudo da queda dos anjos, então acho importante apenas acrescentar que não existe nenhuma referência bíblia sobre o diabo reinar no inferno, como se o inferno fosse a batcaverna do capiroto. Isso é folclore. O diabo nem mesmo habita no inferno, quanto mais reinar. O diabo habita no mundo, e o que ele quer é reinar sobre as nossas vidas. Colocar o diabo no inferno é negar que ele anda entre nós, procurando para o homem a mesma ruina que atraiu para sí mesmo. Logo, é sábio ficarmos livres desta versão do inferno, uma vez que ela não é bíblica. Não pretendo escrever com mais profundidade sobre isto neste estudo, então, se por curiosidade quiser se aventurar neste universo, me ligue e vamos tomar um café. Na bibliografia vou deixar um livro interessante sobre o assunto. (5)

Na maioria das aparições destas quatro palavras nos escritos em hebraico e grego, os tradutores optaram por utilizar a palavra “inferno”, principalmente quando o termo se refere ao mundo dos mortos. Quando o sentido é literalmente de sepultura ou cova (o que acontece principalmente com o She`ol), a tradução é costumeiramente por “sepultura”.

De qualquer maneira, para nosso estudo, as traduções feitas pelas versões NVI ou ARA nos bastará. Alguns teólogos consideram que as diferenças entre um ou outro “inferno” difere no resultado final, se apegando a estes conceitos para justificar a aniquilação. São teorias longas e repletas de silogismos e traduções complicadas. Interessantes, mas pouco práticas e fora do meu alcance semântico. Novamente, não será nosso caso. Quer seja o Hades, quer seja o Gehenna, trabalharemos com o conceito de “inferno” como o “mundo dos mortos”, e chegaremos à mesma conclusão . Apenas como nota e talvez para futuras referências de um estudo sobre o inferno e suas variações, daqui em diante quando eu me utilizar de algum trecho bíblico que contenha a palavra ou conceito de “inferno”, tentarei colocar o termo de origem da tradução utilizada.

Enfim, temos as verdades sobre as quais vamos trabalhar.  Duas mortes, almas conscientes e um inferno real.  Conceitos absolutamente clássicos entre diversas comunidades.

Vamos ficar por aqui.  Semana que vem, finalmente,  vamos partir para os argumentos pró-aniquilacionistas.  Nosso campo para comentários está aberto para críticas, sugestões, complementos, comentários ou o que mais quiserem acrescentar.

Um abraço!

Bibliografia

(1) Mercer Dictionary of the Bible - Robert Rainwater
(2) http://www.jewishencyclopedia.com/articles/6558-gehenna
(3) http://www.jw.org/pt/
(4) http://sobregrecia.com/2009/08/25/el-tartaro-infierno-mitologico/
(5) Satã, Uma Biografia - Henry Kelly

4 comentários sobre “Em defesa do Aniquilacionismo – 2

  1. Amigão, muito boa a sua exposição do 2º post! E está, inclusive, muito bem escrito!

    Eu entendo e creio nos pontos que você retratou. Creio na existência das duas mortes, creio no estado consciente das almas após a 1ª morte e entendo sim, o inferno como um fato.

    Fico no aguardo esperando os argumentos pró-aniquilacionismo, até porque, com a ínfima bagagem que tenho sobre o tema, tenho uma inclinação para não crer no aniquilacionismo. Consigo enxergar o estado consciente das almas, também, após a 2ª morte, amigão!

    Sobre a sua proposta, ela está muito de pé! Nosso café está marcado como pretexto para o nosso papo… Não que eu queira entender mais sobre o “Tártaro”… Hehehehe! Você já explicou bem no seu post!

    E sobre suas citações, a única ressalva é que há controvérsias sobre a autoria de Hebreus atribuída ao apóstolo Paulo. Acho, inclusive, que não foi ele quem escreveu o livro. Mas isso é apenas detalhe…

    Grande abraço, meu jovem!

    E valeu pelo esforço e pelos estudos que têm feito sobre o tema!

    PS: Passei mal com a “batcaverna do capiroto”! Hauahuahauhauhua…

  2. Nossa como demorei tanto pra te achar?! Parabéns pela abordagem e forma de escrita. Já te admiro demais, vamos ao post 03.♥

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