Ele é um

“Ao que era. Nos dias em que tivemos de montar guarda nos lajeiros e lajeados, aprendi os rasgos daquele homem. Sô Candelário – como vou explicar ao senhor? Ele era é um. Acho que nem dormia, comia o nada, nada, às pressas, pitava o tempo todo. E olhava para os horizontes, sem paciência neles, parecia querer mesmo: guerra, a guerra, muita guerra. Donde ele era, donde vindo? (…) Doido, era? Quem não é, mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava. Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo.” (Riobaldo explicando sobre Sô Candelário em Grande sertão: veredas.)

Minha infância e início da adolescência foram marcadas por contatos com igrejas em busca de um Deus. “Um” porque eu passei muito tempo sem conhecê-lo. Visitei muitos lugares em diferentes denominações, mas nenhum deles conseguia me mostrar o Deus que queria se mostrar a mim. Em todos eles via o mesmo: pessoas perfeitas que me vigiavam para ver se seguia o padrão de perfeição ou, pior, pessoas que não buscavam a perfeição e faziam da comunidade cristã um clube social. Não sei se escolhi mal os lugares, não sei se hoje conheço lugares melhores… o fato é que, aos 18 anos de idade, conheci o que parecia, num primeiro momento, apenas mais um espaço com a promessa de ajuda no meu encontro pessoal com Deus.

Minha surpresa ocorreu quando conheci o líder daquela instituição na minha cidade. Ele era de carne e osso. Não usava grandes vestidos, muito menos terno e gravata. Ele era um de mim – pecador, sonhador e grande batalhador. Com ele não sentia o abismo entre o púlpito e as fileiras da igreja. Vencida a distância, compreendi melhor a mensagem. Após dois anos de experiências com Deus contando com o auxílio dos amigos daquela associação, em um acampamento nas margens da represa de Furnas, em uma palestra de sábado (ou domingo, não me lembro exatamente) à tarde, descobri finalmente que Deus queria ser meu amigo. As palavras e atitudes daquele homem influenciaram positivamente minha vida.

Este foi um marco para uma mudança de paradigma na minha forma de me relacionar com Deus. Sou grato a Adilson Donatelli pelas palestras e principalmente pelo testemunho como um cristão que vive em guerra para ser discípulo de Cristo. O vejo com características próximas com as que o personagem de Guimarães Rosa via o senhor descrito acima – ele é um para mim assim como Sô Candelário era para Riobaldo.

Minha simples homenagem e meus sinceros votos de melhora ao amigo que se encontra internado.

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

4 comentários sobre “Ele é um

  1. Estou lendo este livro há alguns anos e ainda não cheguei na metade dele. A riqueza de cada detalhe é muito bacana. Lia extamente este ponto enquanto pensava no Adilson, fiz a relação imediatamente.

  2. Conheci Adilsom neste mesmo acampamento em Furnas quando tinha 16 anos, hoje com 52 ainda lembro dele exatamente como você o descreve acima, em suas palestras divididas com Iberê Meirelles ele expunha de maneira simples e objetiva o que era ser um Cristão, lembro perfeitamente, como se fosse hoje, quando ele dizia que nossos problemas não iriam acabar, mas que no momento que tivessemos com Cristo, teríamos uma GRANDE força para supera-los, nunca pregou que ser cristão era achar a lampada de Aladim e que daquele momento em diante todos os problemas se resolveriam e a vida ia ser uma “Disneylandia”. Graças as palavras dele eu pude encontrar o verdadeiro Cristo, e você não sabe como isso era difícil para mim que sou Judeu e toda a família também, mas as palavras que o Adilson plantou em meu coração froresceram fortes, e pude, até hoje, estar sendo um dos “Vencedores por Cristo”.
    Minha oração hoje é para que Deus possa estar trabalhando na vida dele para um pronto restabelecimento e dos seus familiares, para que tenham força para superar este momento ruim.

  3. Muito legal, Rafa…

    Existem algumas pessoas que não é esforço algum, prestar uma homenagem… O Adilson, concerteza, é uma delas…

    Abração!

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