Direito de Sofrer

Desde criança fui ensinado que não deveria ficar me lamentado por qualquer coisa. “Qualquer coisa” em geral se referia àquelas miudesas na vida de um pequenino que na época parecem ser o mundo. Não ter o brinquedo da propaganda, não ter isso, não ter aquilo. “Tem tanto menino na rua querendo comida e você chorando por um carrinho”.

Com o passar do tempo as coisas vão se tornando mais sérias, as coisas de criança realmente se mostram pequenas e é isso aí. Surgem coisas muito importantes, algumas que de fato “valem à pena o sofrimento”.

Semana passada estive com uma oportunidade de ouro, em termos profissionais. Apareceu-me um estágio que me deixou louco e que apenas o pensamento de talvez não consegui-lo me deixava arrasado. Agora não se tratava apenas de uma questão infantil, nem era bem um preocupação material (não era definitivamente pelo salário que o estágio era atrativo), o que seria pequeno, ali sim estava diante de mim: Uma razão “justa” pela qual sofrer.

Já viram isso? As questões em que se legitima padecer. Muitas outras aparecem pela vida: o vestibular é hors concour. Há também o sofrer por amor. Mesmo se o alvo da honraria não valer uma lágrima sequer, a pessoa se sente livre para derramar quantas quiser e ficar naquela ali, absorta em seus sentimentos. Quantos e quantos exes são assim.

Qual a cura para o sofrimento? A questão não é bem essa. Temos que mudar de perspectiva.

Primeiro que não há isso: direito de sofrer. A pessoa que sofra pelo que quiser, a pergunta aqui é outra: você vai querer sofrer… por isso?!

E isso, assim, inclinado, mostrando o quão pouco vale é fruto de uma relativização das coisas. Pois no meu caso, por exemplo, o que era aquilo, o estágio-deus? O vestibular-deus, a menina-deus? Ora, temos que parar é de idolatrar as coisas que vemos como “nobres”. Idolatrar o banal é fácil ridicularizar mas lembremo-nos de que só deve haver um Deus e só um digno de adoração. Isso inclui todo o resto, as coisas vistas como nobres ou não. O estágio, a posição, a honra, a sabedoria.

Quantas pessoas não ficam sofrendo “por amor” sendo que nãaverdade estão é sem amor-próprio, sofrendo por ciúmes. Ciúme não é nobre, ninguém admite sofrer por ele, é bem melhor dizer que se sofre por amor. A pessoa passa de boba a elevada.

A Bíblia nos ensina plain and simple: grande será o sofrimento dos que correm atrás de outros deuses. E aí, quão nobre é isso?

No final das contas vemos que Deus de fato tinha razão em declarar no primeiro mandamento a Moisés que não deveria haver outros deuses. Para o nosso próprio bem.

4 comentários sobre “Direito de Sofrer

  1. “A Bíblia nos ensina plain and simple:”
    ah vidigal, você tem um jeito muito único de deixar as coisas a sua cara. sempre te imagino falando as coisas que você escreve =)
    you know it!

  2. muito bom!
    a gente cresce, e os problemas também!
    a proporção da criança para o carrinho é a mesma de você para o estágio. mesmo que agora pareça muito maior e você se ache no direito de derramar lágrimas, parece que Deus continua olhando pra você com os olhos de Pai: “aah meu querido vidigal, de novo sofrendo por um carrinho…”
    =)

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