O dia que foi noite

À quarta-feira reservou-se a desventura. Todos sentiam uma dor real advinda da imaginação, mas relutavam a aceitar aquilo que os olhos não viam. Tinha forma de verdade, havia evidências, tal como a foto 3×4, mas não poderia ser. Não no interior… Ele chegaria a qualquer momento e diria: reza por mim que eu rezo por você.

Mas a quarta-feira parecia ter sido um ensaio. O ponteiro do relógio passava com dificuldade, os compromissos do dia foram todos suspensos, o coração ficou agitado e a cabeça seguia distante… Mas ainda havia alguma chance… Poderiam todos despertar de um pesadelo na quinta-feira e tudo se resolveria num abraço caloroso.

Embora o calendário tenha seguido como de costume e o dia da semana fosse outro, a luz parecia preguiçosa naquele dia. O celular despertou e ainda era noite. Era a quinta-feira da “folhinha”, mas a quarta não havia saído dos corações. Chovia, fazia frio e estava muito escuro.

As horas mantinham uma caminhada insistente, nem lenta e nem acelerada. Era, contudo, uma marcha contínua, que levaria a contra gosto ao horário marcado. A despedida por causa do revés. Não queriam, mas estavam todos ali por causa da perda repentina no meio da calmaria.

Os olhos e o tato confirmaram o que o coração se negava a reconhecer. Amigo sempre presente. Vai ver que é porque a ser-humanidade consiste num radical desejo pela eternidade. A ser-humanidade é imagem e semelhança do Criador. Seres radicalmente relacionais desejosos pelo eterno acabam não aceitando com naturalidade a morte.

Foi um adeus breve, ou mesmo, um até breve. Não foi uma simples contrariedade, é uma desgraça. Não há rebeldia nisso porque se sabe que o Deus Criador enche de vida seus filhos e certamente a morte não era o plano inicial, mas essa conversa fica pra outro momento.

Saíram todos do local coberto e seguiram enfileirados ao descampado. A cena comovia. O ritmo era sincronizado, mas não havia trilha sonora. Viam-se homens encapuzados tentando se proteger do frio e da chuva, uns olhando para o chão e outros para um lugar muito distante, muito além do horizonte. Porque os olhos não estavam ali, eram apenas interrogações ansiosas pelo amanhã. O que será?

Embora profundamente tristes, outros tentavam viver um pouco de gratidão, reconhecendo no próprio Deus o Senhor Soberano. Lamentavam, mas tentavam se lembrar da redenção. Os corações estavam um pouco iluminados.

Uma coisa é certa, porém, caminhavam ainda na quarta-feira. Marchavam por uma escuridão exterior não usual para aquela hora do relógio.

É que na quinta-feira o dia foi noite…

 

 

Gabriel Lazarotti

Sobre Gabriel Lazarotti

Redimido pelo amor de Deus. Discípulo de Jesus que segue por este Caminho. Um sincero apreciador da criação. Pretenso poeta todo o tempo, advogado e músico nas horas vagas.

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