Despedida

Pois quando ali, no recato de um retirar-se, uma dor de paz, quase gostosa vai tomando o peito, espalhando-se pelo corpo inteiro. A serenidade. De que passos foram trocados, de um legado então perenizado. Pelos quinhões de olhos hoje molhados; de algumas cabeças grisalhas, de outras famílias então constituídas…

Uma voz de familiaridade reticente, de colo oferecido que ainda soa com delicadeza, ventando bem baixinho ao pé do ouvido. O gosto do café com pão, do bate-papo sempre preocupado à mesa da cozinha. A lembrança divertida dos conselhos reiterados de cuidado com o casaco, de alimentação saudável, de projeções fantásticas de futuro. O andar curtinho e arrastado pela casa e o momento quase sacro da novela no 12.

Ainda que alguns desentendimentos e implicâncias de rugas respeitosas, dos quais o tempo encarregou de revestir com comicidade e ingenuidade.

Hoje, além das lembranças – muitas delas providencialmente floreadas pela memória, também lágrimas. Umas de desamparo, outras de frustração, de paz e de guerra, de culpa e perdão – de um amor. Também as de um velhinho de paixão sexagenária que se despede da “rainha da casa” – como assim quis referi-la. Por ver assim, uma metade que se vai, e que no momento do adeus, presta sua última homenagem pelo vestido bordado também usado nas bodas de meio século do casal.

E se dois dias de hoje nos separam do natal. Daquela noite que de sempre sugere encontros sanguíneos, celebraremos então a falta. Um espaço vazio do qual a dor se encarrega de preencher. Ouviremos a voz que hoje se cala, responderemos ao sorriso que não foi dado. No dia em que presentes se fizeram desimportantes, a presença outrora corriqueira faz então muita falta.

* À vovó Zezé

5 comentários sobre “Despedida

  1. Que palavras lindas Guilherme, queria ter conhecido a senhora Zezé… você “cantou” o luto com dor e, ao mesmo tempo, com gratidão pelo caminho traçado… parece que reverenciando, com respeito, à vida vivida, ao Deus da vida… ao Deus que nos deu “os nossos”, nosso lar, nossa raiz…. mesmo imersos na dor, há uma beleza em poder guardar nossos tesouros…
    “se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria, isso pra mim é viver…”
    Bjos

  2. Lindo texto e linda homenagem Guilherme! Meus sentimentos a toda a sua família. Que Deus conforte a dor de vocês e traga paz!

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