Da carne e do espírito

                Historicamente, alguns pensadores cristãos tem dividido os pecados de uma forma geral, como sendo “da carne” ou do “espírito”. Os primeiros deles são mais facilmente identificados: luxúria, gula, preguiça, embriaguez entre outros. Quanto aos chamados pecados do espírito, podemos dizer que guardam maior relação com aquilo que levamos em nosso coração e alma. Seriam exemplos o orgulho, a arrogância, hipocrisia, julgamento.

                A sociedade e o meio cristão de uma forma geral sempre pareceram dar maior atenção aos pecados da carne. Talvez pelo fato de serem mais facilmente identificados. Algumas igrejas costumam ser extremamente rigorosas com tais pecados dirigindo reiterados cultos e pregações para o combate de tais práticas e reprimindo com veemência alguns membros que apresentem maior dificuldade. Com bem menos freqüência, contudo, vemos um direcionamento conciso da igreja contra pecados do espírito, que são assim abordados esporadicamente.

                C.S. Lewis, certa vez, manifestou-se sobre esta dicotomia afirmando que todos os pecados são perversos, mas que entendia ser aqueles do espírito os da pior espécie. Seguiu dizendo que havia dentro de nós duas coisas competindo com o eu humano: o eu animal e o eu diabólico, sendo o último deles o mais perigoso. Deste modo, não se espantaria ao verificar que uma prostituta estivesse muito mais próxima de Cristo que um moralista frio e hipócrita que freqüenta a igreja com assiduidade.

                Jesus Cristo pareceu estar também muito preocupado com os pecados do espírito. É o que podemos perceber do episódio da mulher adúltera em vias de ser apedrejada. Sem, de nenhum modo consentir com o pecado da carne explicitado por ela, Jesus alerta para a necessidade de uma reflexão interior na qual os acusadores ali presentes puderam perceber, nas pedras que traziam nas mãos, a prova de sua hipocrisia e julgamento. Com algumas poucas palavras Cristo levou as pessoas que lá estavam a entenderem como os pecados do espírito são enganadores e socialmente aceitos ainda que igualmente perversos.

Referência: Somos todos (a)normais – John Ortberg

5 comentários sobre “Da carne e do espírito

  1. Lembro-me dessa idéia no “Somos todos (a)normais.” Acho muito pesado a maneira como fica evidenciado nos evangelhos, a capacidade que Jesus possui de nos fazer refletir a respeito dos pecados do espírito…

    Acabei de ler essa manhã, o pedido de Davi, à Deus: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” Sl.139:23-24

    Fica nítido a preocupação de Davi com os pecados que, nem ele mesmo, conseguia perceber em sua própria vida…

    Muito boa a reflexão, Guilherme…

    Abração!!!

  2. Homerão, realmente lembrei da nossa discussão no estudo… Talvez ela tenha me influenciado a escolher o tema….

    Edu, ótimo vs…

    Grande abraço!

  3. é muito fácil julgar os outros (e nós mesmo, pela vergonha dos outros) pelos pecados da carne, que são os que mais aparecem. mas mais difícil é admitir, confessar e lutar contra os pecados “do Espírito”.
    legal, ganso, não conhecia essas idéias.

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