Contentamento

Domingo. Família reunida à mesa. Comida de mãe. Clássica cena, a não ser por um detalhe.  Acompanhe comigo…

Havia um convidado especial naquele dia. Um primo vindo de uma cidadezinha próxima. Não era qualquer primo. Ele era um pouco mais velho. Já o era quando eu ainda me achava em meio aos brinquedos. Sempre muito humilde. Segundo conta minha mãe, não tinha aprendido a ler e escrever por conta das responsabilidades que assumira no lugar de ir para a escola.  À época, tinha o dever de ir para a roça ajudar a fazer o almoço para seu pai e os demais homens que com ele trabalhavam. Ironicamente, não serviu o próprio alimento naquele domingo. Minha mãe o fez e o faz até hoje quando nos visita. Não aprendeu a comer de garfo e faca, a colher sempre lhe foi mais que suficiente. Nunca se acostumou também com a ideia de comer com o prato sobre a mesa. De pernas cruzadas, ele carrega confortavelmente a refeição na mão.

Ver aquele homem grande, negro, com o rosto abatido pela vida dura de trabalhador de olaria, segurando um prato de comida de domingo na mão, fez com que aquele momento se tornasse ainda mais intrigante. Eu o observava sem saber que o fazia. Nunca quis constrangê-lo. E não o fiz. Aliás, ao contrário, fui eu quem ficou constrangido. Ele não sabe e nunca saberia o porquê. Mas eu sei: uma pessoa com estas características, tão distantes daquilo que imagino para meu futuro e, por que não(?), para meu presente, ao ver que meu pensamento ia longe naquele momento, olhou-me com os olhos negros de sempre e, instintivamente, abriu aquele sorriso… Foi o conjunto de dentes mais sincero com que já fui encarado até hoje. Vi no modesto senhor aquilo que busco e muito gostaria de ver em mim – o contentamento descrito por Jesus!

Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. (Mateus 11:25)

Impressionante o quanto o que vestir e o que comer satisfez os anseios do meu primo. Estou longe de ser sábio e entendido, ainda mais de ser um destes pequeninos. Mesmo assim, depois de tanto resmungar, hoje venho aqui para compartilhar com você o que tenho vivido. Assim, não sei se com o sorriso tão sincero do meu primo, digo ao meu Pai – Senhor, muito obrigado!

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

5 comentários sobre “Contentamento

  1. Gostei muito Rafa! Contentamento se tornou em uma virtude ainda mais colocada de escanteio com o advento do capitalismo!
    Abraço

  2. é… vivemos cercados por propaganda de ideologias burguesas, o que comer, o que comprar, seja fino, tenha modos, mas no fim das contas nada disso importa. é vaidade.
    muito bom o post.

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