Congresso Nacional, quintal de Sarney

(Impossível alegar frustração de expectativa, porque não há direito adquirido)

Sabemos. Nada especial em referir-se a crises na política brasileira. Sempre os mesmos problemas, mas com aparência de novidade.  A cada escândalo uma nova surpresa. Alguém já ouviu acerca da curta memória de nosso povo? O espanto não se justifica. Sem fundamento. Ficar atônito é o mesmo que afirmar: “Mas que absurdo! Todos de reputação tão ilibada! Quase irrepreensíveis.” Entretanto, não se surpreender é o primeiro passo para a queda. Acostumar-se a eventualidade dos fatos traz o risco da estagnação. Se acaso não me espantar com as sujeiras, dificilmente irei limpá-las. Vale lembrar dos ciclos paradigmáticos de Thomas Kuhn. Em não havendo rompimento com o que está posto continuaremos no ciclo. Necessário, pois, ousar mudar o que está a nossa volta. Para tanto, admirar-se é a largada para a mudança.

José Sarney de Araújo Costa é a figurada evocada no título. Adotou legalmente o Sarney, embora não tenha sido registrado dessa forma. Era conhecido como “Zé do Sarney (seu pai)”. Enfim, tudo pela política.  Seus 60 anos de atividade pública são por quase todos conhecidos, porém nem sempre é lembrado pela vida de escritor literário. Quando jovem envolveu-se num movimento poético pós-modernista ao lado de expoentes do ramo (p. ex. Ferreira Gullar). É membro da Academia Brasileira de Letras. Grande homem.

Motivo pelo qual escrevo hoje. “Essa crise não é minha, é do Senado”, asseverou Sarney. Muito tem se falado na mídia sobre os atos secretos do Senado. Aqueles mesmos editados para nomear, transferir e premiar funcionários apadrinhados pelos senadores, incluindo uma sobrinha do nobre político em questão, tendo, inclusive, sido usados para realizar a demissão de vários de seus parentes que lá trabalhavam.

Conclusão óbvia é seu intenso envolvimento com a presente crise. Não se pretende ferir a imagem desse senhor. Mas é de se admirar que este sempre tenha frequentado os mais requintados salões da situação. Quem poderia trazer da memória um momento sequer em que Sarney tenha sido oposição? Exercício penoso. Que eu tenha lido, apenas o seu início de carreira. Opondo-se aos políticos locais do Maranhão, obteve vitórias e foi galgando patamares mais elevados da nossa estrutura política. Daí em diante, tenho notícia da singela contribuição a todos os governos. Seria, então, facilidade de se adaptar? Talvez, respeitável articulação política? Ou mesmo conveniência e desejo de não se distanciar do poder? Veja. O questionamento não quer insinuar nada.

Caminhou até que se tornou presidente da Arena, o partido que sustentava o regime das forças armadas. Como possuir maior influência que essa? Em seguida, com o fim do mencionado regime, as forças políticas organizaram-se num colégio eleitoral. Aquele que antes era favorável à ditadura tornou-se o vice-presidente de Tancredo Neves  que reprensentava os que haviam lutado intensamente contra o momento anterior. Contradição. Não há aqui intenção de determinar lobos e ovelhas. Errados somos todos nessa história. Mas não seria justo deixar que esse momento passasse em branco.

Na realidade, o que me salta aos olhos é a insistência de Sarney em fazer do Parlamento o quintal de sua casa. Em 60 anos foi inúmeras vezes Deputado e Senador. Aliás, continua reelegendo-se por um Estado que não é originalmente seu domicílio eleitoral. Atualmente, parlamentar eleito pelo Acre, não obstante sua trajetória política tenha sido desenhada no Maranhão. Seria irresponsabilidade concluir friamente que este homem não se dedicou com fidelidade a esse país, contudo não sei se posso afirmar sua vocação indiscutível para a altiva vida política. Isso porque me confundo com a inafastável tentação do poder, que antes ressaltei. E quantos de nós temos agido dessa maneira? Certamente que em proporções menores. Mas quais são nossas reais intenções? Enraizado está no homem o desejo pelo poder.

Uma é a vida pública. Cheia de entrega e sacrifícios. Outra a particular. A coisa pública não pode ser extensão do terreno de nossa moradia. Lembro mais uma vezes de Kuhn. Se não rompermos com os ultrapassados modelos, com a velha política e os mesmos rostos de 60 anos atrás, os ciclos paradigmáticos nos consumirão. Por fim, embora tenha despendido enorme contrbuição a essa caminhada, parece-me momento oportuno para que ele, enfim, descanse. Assistir de seu sofá o desenrolar da política desse país.

Até breve.

Gabriel Lazarotti

Sobre Gabriel Lazarotti

Redimido pelo amor de Deus. Discípulo de Jesus que segue por este Caminho. Um sincero apreciador da criação. Pretenso poeta todo o tempo, advogado e músico nas horas vagas.

12 comentários sobre “Congresso Nacional, quintal de Sarney

  1. Não preocupa não Gabriel, assim como já tem um A.C.M Neto no poder, logo logo teremos o José Sarney Neto ou Bisneto e o ciclo de Kuhn continuará!!!
    Sobre o Sarney fico com a frase do nosso amigo Lula: “Sarney não é uma pessoa comum.” Portanto Gabriel, se ele não é comum tudo o que ele quiser fazer ele pode e quem somos nós (os comuns) para questionar!
    Abraço a todos!

  2. Sou um tanto quanto alienado à política e afins, mas concordo com o desejo de poder do homem. Dá até para dar um exemplo bem próximo, salvo as devidas proporções – quando olho o menu da direita sinto-me um pouco ameaçado: a analu está com quase o mesmo número de posts que eu! Meu Deus, perderei minha hegemonia no blog! hehe
    Lógico que isso aparece em relapsos, mas não deixa de ser um “desejo pelo poder”… Bom post! Só faltou um pocuo mais de reflexão!

  3. Adorei o tema político e as citações de Kuhn!
    Por um breve instante me assustei, pensando que vc estivesse defendendo o Sarney… Mas afinal todos nós somos “repreensíveis”, se eu me defendo apesar de meus erros, pq não defender os outros? Realmente é fácil olhar pro lado, olhar pra mídia e falar mal das figuras públicas, que muitas vezes têm a vida escrutinada. Se as nossas vidas fossem conhecidas como as deles…
    Podemos começar a campanha “aposenta, sarney”, apesar de que virá outro de sua família que o subsitua da mesma forma. Agora, que é um absurdo, é. Ele é DONO do Maranhão, o estado mais pobre do Brasil. A galera passando fome e ele de tranquilo lá…

  4. Gab,
    Delegamos poderes aos políticos, quando os elegemos.
    O que não pode é confiar cegamente.
    Devemos sim, acompanhar de perto, divulgar tudo que soubermos, tentar participar de associações, ouvir os outros e tentar fazer valer a vontade do povo. Já que eles, políticos, estão lá “em cima” atuando pelo bem comum. Estão única e exclusivamente por nossa causa, por nós e para nós…
    Porque não acompanhamos de perto, tudo que eles planejam fazer e acabam fazendo; de dia ou de madrugada? Acho que o horário que tudo é decidido, não importa, não temos mesmo é o hábito de participar.
    Dá trabalho e não temos argumentos, já que somos mesmo é alienados…
    Uma vez, ouvi de um avô que participava da reunião da escola da neta, em que lecionava, dizer:
    Estou aqui, por minha neta, por sua educação e pensando num futuro melhor para ela.
    Sinto-me responsável por ela, já que os pais apenas a colocaram no mundo. E é por amor que faço isso. Acho os professores qualificados e capazes, mas gostaria de saber tudo, mesmo que não possa entender todo o processo de aprendizagem, mas vou me esforçar. Tenho direito de saber e quero participar ativamente. Não é uma escola particular, mas o dinheiro para que ela funcione sai do bolso de todos nós.
    Foi uma lição, vinda de uma pessoa muito simples; pobre mesmo, com pouco estudo; mas que conseguiu se fazer ouvir e tocar o coração de todos.
    Nunca me esqueci e a escola melhorou muito.
    Entregar o nosso futuro, confiando cegamente, num “ser humano”? Não deveríamos deixar que isso acontecesse…
    Confiar cegamente, só em Deus…

  5. Gabana, por mais que eu não goste de política, gostei muito do seu post.
    Gostei de saber mais sobre o Sarney.

    Acho muito válido, mais uma vez (pois no post anterior da Ana ela já havia nos alertado para o julgamento precipitado e fora de context0), lembrarmos que somos repreensíveis. Isso não quer dizer que não podemos nos indignar com as coisas absurdas que os políticos fazem. Entretanto, nos leva a fazer a reflexão de uma forma mais profunda, de um lugar diferente, com implicações pessoais.

    Mais uma vez, parabéns. Gostei muito do seu post.

    Bjao

  6. O problema é que a massa é burra e o Sarney continuará se elegendo enquanto quiser. As vezes paro pra pensar se a democracia realmente é a melhor opção para o nosso país…

    Ótimo texto, Gabs!

  7. Seguindo o que a Carla (mãe) escreveu, tenho também que é nossa culpa, (meu post dessa semana que o diga) nós elegemos. Se aqui no Sudeste somos melhor educados e sabemos votar melhor, porque não elegemos pessoas que farão o suficiente para educar aquele que “elegem mal”?
    Não vou ficar desabafando minha revolta pra não virar um outro post, só quero comentar uma última coisa, já tem a prole dele pra continuar no poder ad eterno, a filha, Roseana, governadora do Maranhão.

  8. “Recentemente, pesquisadores descobriram que as células de câncer tem uma queda particular por desligar exatamente os genes que determinariam o crescimento normal das células ou definiriam que uma célula danificada provocasse seu suicídio. Sendo assim, as células de um tumor e toda sua prole conseguem proliferar quando uma célula saudável não conseguiria. O Vorinostat bloqueia as enzimas que removem as ligações químicas e assim libera o DNA de seu empacotamento restritivo, desempacotando os genes que foram previamente silenciados…” me lembram aos políticos brasileiros, velhas raposas que não querem largar as tetas, temos que mudar isso, temos que colocar pessoas íntegras para nos representar e, Vc GAB, se enganjasse na política seria um bom representante do povo, por ser você a pessoa que é.
    Orgulho muito de você e acompanhando o seu madurecimento e visão da vida, envaideço-me de ser seu pai. Te amo. KInho (Zé do Téo?, Gabana do Kinho?)

  9. hahaha! Assim eu vou derreter aqui! Meu pai e minha mãe comentando! Bem que o Mateus falou, o mais legal do blog são as surpresas com as “outras fronteiras” exploradas!

    Pai obrigado pelo comentário! Zé do Téo é verdade! Mas Gabana do Presidente é ainda mais verdade! hehe orgulho-me de vc!

    Se um dia caminhar nessa direção vc estará lá me acompanhando mas não com cargo, pois o nepotismo é coisa das velhas raposas. Mas te contrato pra ser meu assessor pessoal. “personal stylist” hehe.
    Pai, te amo!

    Mãe, te amo mto! Obrigado por ser a pessoa que é e esar fazendo 50 anos hoje! 2 de JULHO DE 2009. PARABENS!

    abraço a todos

  10. Gabana, muito bom o seu texto. Temos de fato vários questionamentos a respeito da política. Mas indo um pouco para a brincadeira:
    “Não se pretende ferir a imagem desse senhor” essa frase só podia ser sua mesmo… tive a certeza que estava lendo um texto seu… hehehehhehe

    Brincadeiras à parte, gostaria de comentar aqui a mesma coisa que eu comentei no post “(In)Consciência Eleitoral x Consequência ambiental”. Não acho prudente colar aqui, mas quem quiser saber a minha opinião visite o post supracitado e leia os comentários de número 13 e 14. Particularmente, acho que há alguns aspectos muito importantes para esse debate abordados lá. Li um livro FANTÁSTICO sobre política e coloquei algumas questões sobre ele. Dá para questionar algumas coisas a respeito da política. Acho que vocês vão ficar com a pulga atrás da orelha. hehehhe. Afinal, o que é a política?
    Um abraço!!

  11. Pingback: Ídolos

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