Classificados

1970: “Procura-se economista graduado para ocupar vaga de analista de finanças. Ligar 555-5555”

2009: “Procura-se economista graduad@ para ocupar vaga de analista de finanças. Necessário 5 anos de experiência no ramo, fluência em inglês, alemão e chinês. Profissional dinâmico, com espírito de liderança e iniciativa. Desejável conhecimento de direito. Pessoa ativa, esportista e que seja engajada em movimentos sociais, realizando também trabalho voluntário. Ligar 3555-5555.”

Sabemos que o mercado exige cada vez mais das pessoas, dos profissionais que dele desejam participar. Podemos ver nesses classificados, mas a competição no sistema é cada vez mais acirrada: não só entre produtos e custos, mas entre as pessoas também. Somos uma sociedade competitiva, portanto. Pressão. Percebemos isso no nosso dia-a-dia.

Cada vez mais as pessoas precisam ser mais especialistas em mais coisas, ser polivalentes, abarcar todas as qualidades necessárias e ainda (nos diz a mídia) sermos bonitos e bons pais/amigos, pessoas com perfeita vida social também. Ok, é fácil conciliar tudo, não? E com o tempo acelerando cada vez mais, mais fácil ainda. Pense o quão rápido se passou esse mês ou esse ano em relação ao anterior. O tempo acelera porque nós aceleramos, vivemos em um ritmo frenético, cada vez mais.

Como explicitei num post anterior, tendo a utilizar o marxismo como forma de análise da economia. Marx descreveu as inviabilidades estruturais do capitalismo e as formas pela qual ele mesmo ruiria, por não ser um sistema auto-sustentável. Acho que não vale a pena aqui (aborreceria muito vocês com meu economês marxista) explicar as leis e as tendências do mesmo, mas posso fazê-lo em outra oportunidade. Mas olhemos para o próprio direcionamento que os classificados acima assinalam: exige-se cada vez mais. Querem pessoas que não sejam pessoas e sim robôs. Eis os que serão classificados, os “vencedores” do sistema: os que se extirparem de sua humanidade e viverem como máquinas. Cada vez fica mais claro que o capitalismo não é para as pessoas, mas para ele mesmo. Para seu próprio lucro e valorização. Ganância. E como é que o sistema pode se sustentar assim no Longo Prazo? Keynes já dizia que não nos preocupemos com o futuro (em linhas gerais), pois “no longo prazo estaremos todos mortos”.

Ainda na faculdade, tenho pena daqueles que já vivem para o trabalho e não vivem de verdade. É isso que o sistema quer. Não quero aqui julgar aqueles que desejam se jogar no mercado, abraçar uma empresa e viver em prol de fazê-la lucrar. É uma forma de sobrevivência também – e eu mesma não sei de que vou sobreviver (Mt6:33)-, há quem goste do frenesi dessa competição. Eu, pessoalmente, não me vejo nos dias de hoje dando raça por uma empresa, buscando o lucro da mesma e vendo a mais-valia ser extraída de mim ou explorar outras pessoas, forçando-as a comprar algo ou criando nelas uma vontade que antes elas não tinham, através da propaganda. Só acho necessário que façamos as coisas conscientemente e tenhamos a percepção de que o sistema é algo muito maior, mais profundo e com maior controle sobre a nossa vida do que imaginamos.

Grande main gauche crispée avec figure (Rodin)
Grande main gauche crispée avec figure Grande mão esquerda crispada com figura (Rodin)

Termino com uma escultura de Rodin. Mas o que eu pensei (não creio que Rodin tenha a mesma interpretação que eu)ao vê-la (está em exposição na Casa Fiat de Cultura, confiram!!) é que é exatamente a mão “invisível” que pressiona de forma silenciosa ou invisível (ou às vezes nem tanto) as pessoas, que imploram por uma chance de viver dignamente. Ok, forcei a barra com o Rodin, mas é isso…

ana.oliveira

Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

11 comentários sobre “Classificados

  1. gostei do link para Under Pressure!
    se vc não quer que ser objeto nem sujeito da mais valia, o que você vai ser? as únicas opções que vejo são os cargos públicos… ou eles são maisvaliados também?

    no mais, é isso ai, abaixo o capitalismo! revolução já! 😀

  2. Oferta de Estágio
    Curso: Direito.
    Requisitos: No mínimo no 7º período, com carteira da OAB, 6h por dia com flexibilidade no tempo, carro próprio, homem (pra ter força pra carregar processo) ou mulher educada (pra atender telefone), com inglês fluente, boa redação.
    Interesses: Civil, Penal, Tributário, Administrativo, Comercial, Ambiental e Trabalhista.
    Bolsa: a combinar (menos de um salário mínimo).

    É assim em todos os andares da faculdade!
    Todos são assim, se você não aceita nenhum, fica de fora de tudo. Vai sofrer pra conseguir se sustentar e ter vida social (visto que todo mundo aceita isso numa boa).

  3. não é, Rafa? a vida é assim. infelizmente.

    e não, rato, setor público não é “maisvaliado”. apesar de que o governo em si, infelizmente, tb muitas vezes trabalha em prol dos interesses do sistema. é a vida tb…

    bjos!!

  4. Rato, esse link aqui é mto melhor!!! http://www.youtube.com/watch?v=Z3qVl8Gb2J4&feature=related

    E só pra contextualizar, essa música Under Pressure (e as imagens desse segundo link) são da década de 80, em que o mundo enfrentou uma recessão, falta de liquidez etc. Um momento de crise do sistema… A música não está nem um pouco relacionada com o fato do Freddie ser gay e se sentir “under pressure” sobre ele mesmo. Ok, talvez ambos… :)

  5. A Analu é o meu orgulho!

    O lance da escultura achei mto legal… Mas achei paia nao ter pegado essa exposicao ai em Beaga…

    PS: por um minuto eu pensei q o link da pressao era para um super fuk! 😀

    Bjos

  6. Ana,
    como colega de economês, não posso deixar de concordar contigo! Seu texto me lembrou vagamente uns pontos explorados no livro “Perca Tempo”, cujo autor não me recordo no momento.
    Porém, não posso deixar de expor uma opinião que tenho a respeito do trabalho. Vejo que o trabalho em si, não é sofrimento, como diriam os economistas clássicos. Penso que o trabalho seja fonte de realização pessoal em si e uma das melhores formas pra se construir o caráter de uma pessoa!
    Acredito que, enquanto olhamos pra oportunidades de trabalhar como formas de exploração/submissão ao sistema, nos esquecemos do quanto o estar ocupado, realizando uma obra, pode nos fazer bem, não?
    Por isso, não creio que uma revolução socio-politico-econômica solucione todos os nossos problemas, precisamos renovar nossas mentes, transformando nossos padrões de pensamento, buscando alcançar a paz.
    É o que penso, por enquanto!
    Saudades!
    Bjs,
    André Dumont
    Campinas

  7. Nossaaaaaaaaa concordo muito com o André. O trabaho pode mesmo ser um excelente recurso didático pra gente trabalhar outras coisas na nossa vida, como o caráter, o convívio com outras pessoas e sei lá mais o que. Hoje tenho aprendido a ver o trabalho como uma maneira de me sustentar também e não um fim em si mesmo.

  8. Oi Bruno!! Tem funk na Holanda?? Aposto que tem numas mocambas por aí… Mas é verdade, é mto bom ter essas coisas em BH e acho que a gente tem que aproveitar mesmo e estimular a vinda de mais coisas dessas ao dar ibope pras mesmas. Mas tenho notado uma expansão na oferta de bens culturais na cidade, ultimamente (deixa eu gastar o economês, tô formando!!)… E tô achando ótimo!! 😀
    Ei André! Não sei se eu lembrava que vc fazia economia tb… haha coitados de nós! A verdade é que eu quero meditar um pouco sobre o seu comentário antes de responder… haha depois eu volto aqui!
    bjos!

  9. Ana,

    só quero deixar claro que concordei com toda sua exposição, que sem duvida alguma, é uma interpretação bastante correta sobre nossa realidade. Mas é que meu dedo coçou pra escrever sobre o esforço pessoal que tenho, de tentar viver sob uma óptica onde os que servem são os primeiros… acredito que, pensando deste modo, posso dizer que sou livre. Afinal, não trabalho pra satisfazer a ganancia humana do próximo, mas para ama-lo, não é verdade?
    Vou esperar ansiosamente seus comentários… uma vez que é raro poder conversar sobre sociedade capitalista em nosso grupo!!!! rs… Então nunca encontrei contra-argumentos!!!! 😛
    Saudades imensas!
    Bjs!
    E até breve!

  10. Ei André!

    Creio que Deus nos fez com dons e habilidades e quer que as usemos e nos sintamos bem com elas e as usando (seja no trabalho ou onde for), virão diversas oportunidades para honrar o nome dele e crescermos como pessoas…

    Individualmente, sim, esse é um foco completamente válido para a questão. Mas, no todo (e muitas vezes com o nosso consentimento, tem gente que GOSTA da competição, da pressão, das metas etc) vemos (=eu vejo) que nossos dons e habilidades estão sendo usados para algo mais que somente o crescimento pessoal e a propagação da mensagem, mas também para manter o sistema, seu lucro etc…

    Pra te falar a verdade, eu me sinto meio deslocada nisso tudo. Não gosto desse clima capitalista, lucro sobre lucro, venda sobre venda, meta sobre meta e dane-se o resto (pra mim, no fim das contas, as empresas chegam a isso, pq se não for pra dar lucro, falando friamente, não tem pq uma empresa existir, essa é a função dela. ajudar ao próximo é muitas vezes secundário se não simples estratégia de marketing, como acho que essa “onda verde – somos amigos do meio-ambiente” é. essa hipocrisia me dá nojo, na verdade. odeio os capitalistas verdinhos. o único verdinho que eles defendem com unhas e dentes de verdade são as notas de dólar).

    haha adoooooooooro essa temática!!! nem sabia que vc era economista tb! bom saber!! onde vc estuda, aliás (pergunta importante de ser feita! se for na unicamp vou virar sua fã!).

    bjos!!! até!!

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