Cegueira funcional

Era sábado pela manhã. Os amigos da roça se reuniram à beira do rio como de costume. Entediados dos mesmos programas, decidiram fazer algo diferente naquele dia. Um deles, José, sugeriu que fossem ao cinema na cidade. Todas as meninas da turma apoiaram a ideia e prontamente escolheram o filme, uma comédia romântica qualquer. Pedro era o mais humilde da turma e normalmente não embarcava nesse tipo de aventura por falta de condições financeiras. Por este mesmo motivo, não se mostrou empolgado em um primeiro momento. Com a pressão dos amigos e a promessa de ajuda com o dinheiro do ingresso, acabou cedendo e concordando em ir junto.

Todos colocaram suas roupas de ir à cidade e para lá se dirigiram, aproveitando o programa já no caminho. Ao chegarem, munidos de pipoca e refrigerante entraram na sessão. O filme começou e com ele a satisfação estampada no rosto de cada um dos amigos da roça. Nas partes engraçadas todos davam altas gargalhadas, nas partes mais tristes o silêncio tomava conta do lugar e a expressão de lamento era perceptível em cada olhar, inclusive no de Pedro. E assim prosseguiram até a última cena, com a morte do mocinho.

Ao voltar para casa, a mãe de José quis saber cada detalhe do programa. Ele lhe contou o quanto fora bom e como ficou satisfeito por Pedro tê-los acompanhado. Sua mãe, espantada, logo quis saber se o filme era dublado ou legendado. José lhe contou que era legendado. Ela então questionou se Pedro realmente havia gostado do filme. José respondeu que ele riu e chorou tanto quanto os demais. Mas, para sua surpresa, sua mãe lhe confidenciou o que há muito sabia – Pedro era analfabeto!

Triste? Para mim foi. E o pior é que a história guarda semelhança com a realidade, a ouvi de um amigo no último domingo. Preciso confessar que meu impulso inicial foi rir, mas, refletindo um pouco, tenho me perguntado quantas pessoas passam a vida como Pedro – comportando-se como “cegas funcionais”. Observam o filme de suas vidas, do mundo, da história, riem e choram, mas na verdade não conseguem compreender praticamente nada do que se passa na realidade. Sabem o básico e simplesmente repetem o que as pessoas à sua volta tem feito.

A legenda da filme da minha vida atende pelo nome de Espírito Santo, me fazendo compreender tudo o que se passa. De vez em quando eu perco alguma coisa, mas tenho lutado para acompanhar bem. E você, tem legenda no seu filme? Você tem entendido alguma coisa? Compartilhe conosco ou simplesmente twitt ou curta no face.

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

5 comentários sobre “Cegueira funcional

  1. gostei Rafa! ainda mais a parte que fala “Sabem o básico e simplesmente repetem o que as pessoas à sua volta tem feito.”
    Temos que parar de desviar a atenção pro filme alheio e ficar atento ao que nossa legenda tem passado!
    #curti =)
    bjos
    bleble!

  2. “Observam o filme de suas vidas, do mundo, da história, riem e choram, mas na verdade não conseguem compreender praticamente nada do que se passa na realidade. Sabem o básico e simplesmente repetem o que as pessoas à sua volta tem feito.”

    Pesado

  3. Eiiiiiiiii RAFA!!

    Saudades de vc!!

    Que bunito seu post!!! Gostei!!
    Me fez lembrar do filme O Leitor, ja viu? Muito bom tb!!

    E, fico pensando na alfabetizacao, nesse processo de ensino e aprendizagem que tanto estudo…… e percebo q as vezes me esqueco da alfabetizacao espiritual, a mais importante e mais facil de se esconder!!

    Obrigada pela reflexao!

    Bjinhos romanos…….=)

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