Arquivos da categoria: Reflexões

Salmo 139

Sua mãe soube de você umas 24 horas antes de me contar. Ela ficou muito ansiosa quando as expectativas se transformaram em realidade. Ela soube de você na quinta-feira, dia 01 de junho. Na madrugada daquele dia ela ficou muito ansiosa. Não conseguia dormir, pensando em você.  Acho que ela queria muito me contar de você, mas ela também queria me fazer uma surpresa, envolvendo seus avós e seus tios. A surpresa foi muito emocionante. Posso te mostrar umas fotos depois. Você vai adorar!

A sua mãe é uma mulher muito especial, e você vai saber disto muito em breve. Então, foi nesta ansiedade de 24 horas que uma coisa muito legal aconteceu. Nosso Pai conversou com ela através de um salmo. Foi o salmo 139, especificamente. Esse nosso Pai é muito especial. Muito mesmo. Mas não se preocupe com detalhes agora pois no tempo certo eu vou te contar tudo que sei sobre salmos e tudo que sei sobre nosso Pai.

Quando me casei com sua mãe, eu prometi isto para ela. Prometi que faria tudo que pudesse para estarmos todos juntos quando voltássemos para casa. Você faz parte desta promessa, e mesmo sendo apenas do tamanho de um grão de gergelim, você já mudou nossas vidas e já é muito amado.  E é este amor que nos unirá para sempre!

Pode parecer estranho eu dizer que um dia vamos voltar para casa sendo que você mal chegou por aqui. Mas não se preocupe sobre isto agora também. Só saiba que você virá a este mundo como um ser muito amado, mas este mundo não é o lugar onde ficaremos para sempre. No tempo certo, te mostrarei como é viver como um peregrino. Seu papai tem tentado viver assim, e tudo que ele aprendeu ele vai te ensinar.

Mas voltando aquele salmo 139 que eu te falei, foi muito marcante para a sua mãe ter lido este trecho justamente na madrugada do dia 01 de junho. Eu vou ler um trechinho dele para você ver como ele é legal:

Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Salmos 139:13-16

Esta é a primeira coisa que quero te ensinar sobre nosso Pai: ele já te conhece! Na verdade, ele está tecendo cada pedacinho seu neste exato momento! E eu e sua mãe sabemos que ele vai fazer um excelente trabalho, pois tudo que Ele faz é sempre sensacional. Sua mãe ficou muito mais calma quando leu isto pois confiou que nosso Pai está cuidando de tudo! Aliás, eu e sua mãe já falamos muito de você com nosso Pai. Isto se chama oração, e vou te ensinar também!

E sabe do que é mais legal? Nosso Pai te conhece melhor que o seu papai aqui, e até mesmo melhor que sua mamãe! Isto é outro mistério que quero te ensinar! Temos muito a aprender um com outro, e tenho muita coisa para te mostrar. Mas não se preocupe com isto ainda! Por enquanto, aproveita bem este tempinho aí que você está passando na barriga da sua mãe, pois logo a gente se encontra!

Um beijo do seu papai,

Neruda

Entre espinhos

Tenho o privilégio de me reunir com alguns amigos toda segunda feira para estudar a bíblia. São homens bons, que lutam para viver a fé cristã e que me ajudam muito nas minhas batalhas.

Semana passada estudamos a famosa parábola do semeador;

“E outra vez começou a ensinar junto do mar, e ajuntou-se a ele grande multidão, de sorte que ele entrou e assentou-se num barco, sobre o mar; e toda a multidão estava em terra junto do mar.
E ensinava-lhes muitas coisas por parábolas, e lhes dizia na sua doutrina:
Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear.
E aconteceu que semeando ele, uma parte da semente caiu junto do caminho, e vieram as aves do céu, e a comeram;
E outra caiu sobre pedregais, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque não tinha terra profunda;
Mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque não tinha raiz, secou-se.
E outra caiu entre espinhos e, crescendo os espinhos, a sufocaram e não deu fruto.
E outra caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu; e um produziu trinta, outro sessenta, e outro cem.
E disse-lhes: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
E, quando se achou só, osque estavam junto dele com os doze interrogaram-no acerca da parábola.
E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas,
Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados.
E disse-lhes: Não percebeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?
O que semeia, semeia a palavra;
E, os que estão junto do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; mas, tendo-a eles ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que foi semeada nos seus corações.
E da mesma forma os que recebem a semente sobre pedregais; os quais, ouvindo a palavra, logo com prazer a recebem;
Mas não têm raiz em si mesmos, antes são temporãos; depois, sobrevindo tribulação ou perseguição, por causa da palavra, logo se escandalizam.
E outros são os que recebem a semente entre espinhos, os quais ouvem a palavra;
Mas os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera.
E estes são os que foram semeados em boa terra, os que ouvem a palavra e a recebem, e dão fruto, um trinta, e outro sessenta, e outro cem.”
Mc (4:1-20)

Conversamos sobre os tipos de solo e concluímos que em nossas vidas, passamos por diversas fases, podendo nosso coração, ou nosso solo, se encontrar de diferentes maneiras.

Confessei que meu solo se encontra repleto de espinhos, que sufocam as coisas de Deus. O cuidado com as coisas do mundo, especificamente o trabalho e as adaptações que a chegada da Duda exigem, estavam deixando tudo muito bagunçado.

O resultado dessa inversão de prioridades é uma vida desregrada, indisciplina com as leituras e com os momentos de comunhão, orações superficiais e egoístas, além de uns quilinhos a mais e uma latinha envelhecida.

Graças te dou, Senhor, porque tu és o Deus da misericórdia. O Deus que usa qualquer situação para reorganizar as prioridades.

Segunda feira é o dia internacional da dieta, e nesta segunda, iniciei a minha com um excelente acompanhamento nutricional.

Essa nova rotina exige disciplina e esforço, e isso será usado por Deus para tirar espinhos, fazendo do meu coração solo fértil. A motivação maior sempre será servir ao Senhor.

Bom levar tudo para Aquele que nos alivia. Bom saber, que mesmo entre espinhos podemos ver luz e ter irmãos que são como jardineiros, realizando a boa obra do Senhor.

Como anda seu coração?

Cooperador de Cristo.

Uma resposta ao amigo brasiliense

Dias atrás, escrevi um texto a respeito da dinâmica política de nosso país. Em seguida, o meu grande amigo Eduardo Victor publicou um comentário com suas objeções ao meu texto. Tivemos boas conversas privadas a partir dele, regadas a amor e desejo sincero de compreender um ao outro. Edu e eu andamos juntos há pelo menos 13 anos, portanto, não poderia ser diferente.

Seria muito importante indicar que faço uso da tradição cristã reformada – especialmente a vertente de Abraham Kuyper, Herman Dooyeeweerd e, alguma coisa, de Francis Schaeffer – para o diálogo que proponho entre cultura e cristianismo bíblico.

Contudo, não quero alongar-me nesses pontos. Existe alguma coisa no comentário do Edu que me retira o desejo de respondê-lo contrapondo-o e acaba por dirigir-me a interagir com ele de outra maneira.

O Peso de Glória (C. S. Lewis)
“Tanto vocês quanto eu precisamos do sortilégio mais forte que se possa encontrar para nos despertar do mau encantamento dessa mundanidade que se abateu sobre nós há quase um século. Quase toda nossa formação foi direcionada para silenciar essa voz interior reprimida e persistente; quase todas as nossas filosofias contemporâneas foram concebidas para nos convencer de que o bem do homem deve ser encontrado nessa terra. E é de chamar atenção que as próprias filosofias de Progresso e de Evolução Criativa guardam um relutante testemunho da verdade de que nosso objetivo está em outro lugar que não é este aqui. Quando essas filosofias tentam convencê-los de que esta terra não é o seu lar, notem como fazem isso. Começam tentando persuadi-los de que a terra pode transformar-se em céu, dando-lhes assim uma amostra grátis muito pálida para acalmar sua sensação de exílio na terra tal como ela é (…) Por fim, com medo de que seu anseio pelo transtemporal desperte e estrague tudo, essas filosofias usam de qualquer retórica que lhes venha a mão para manter-lhes afastada da mente a lembrança de que, mesmo se toda a felicidade que elas prometem pudesse ocorrer ao homem na terra, cada geração a perderia com a morte, incluindo a última de todas as gerações.”

Colossenses 3:1-4
“Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.”

A vida tal como experimentamos hoje nesse corpo mortal é por um instante. Existem muitas coisas que devem ser feitas nesse momento da eternidade, mas ainda mais importante é fixar nosso olhar para a Nova Jerusalém e ligar o nosso coração na Esperança que há no Cristo ressurreto.

Obrigado, Du, pela oportunidade de dizer sem receio o maior desejo do meu coração.
Abraços do amigo de Belo Horizonte.

Eleições em 2017: diretas e indiretas trazem o mesmo o grau de instabilidade

Muitos defendem que, caso Temer saia por quaisquer das vias disponíveis hoje, a Constituição deveria ser estritamente seguida e as eleições para o cargo vago de Presidente da República deveriam ocorrer de maneira indireta. É isso o que nos ensina o artigo 81 da Constituição da República Federativa do Brasil:

“Vagando os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga.§ 1º Ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei.§ 2º Em qualquer dos casos, os eleitos deverão completar o período de seus antecessores.”

Mas você sabe o que é uma eleição indireta?

A eleição indireta para Presidente da República é a eleição cujos eleitores são apenas parlamentares, membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Na prática, isso significa que se o Temer sair amanhã, haverá uma eleição para a qual você não votará.

Ora, mas qual é o problema de não participar dessas novas eleições, uma vez que essa é uma determinação constitucional?

Você já deve saber que mais da metade dos deputados e senadores desse país estão implicados na maior operação contra a corrupção de nossa história. Já está provado que em momentos de crise institucional, a classe política não retrocede, mas avança contra o povo a fim de permanecer no poder. Essa já seria uma defesa importante para as eleições diretas,  porque se falta legitimidade aos nossos representantes, eles não devem eleger o novo Presidente.

É verdade que todo rompimento constitucional deve ser analisado com cautela. Contudo, apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para admitir as eleições diretas no cenário que vem sendo desenhado não é uma afronta ao sistema constitucional. Note o que diz o art. 60 da CRFB/1988: “Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I – a forma federativa de Estado; II – o voto direto, secreto, universal e periódico; III – a separação dos Poderes; IV – os direitos e garantias individuais.” Portanto, não há nenhuma cláusula pétrea que seria atingida com essa proposta. PEC’s vem e vão. São votadas, rejeitadas ou aprovadas todos os anos.

Há quem argumente que uma PEC dessa natureza cria precedente e desestabiliza a república. Em primeiro lugar, uma PEC não é uma mudança temporária e em segundo lugar, a República já sucumbiu há bastante tempo. As estruturas de poder fedem apodrecidas e seguem perpetrando injustiça nesse país tão sofrido. Pouquíssimos fogem à essa regra porque nosso problema é também estrutural.

A minha tese é: embora prevista na Constituição, a eleição indireta traz o mesmo grau de instabilidade para a República. A menção constitucional à eleição indireta limita-se a um ínfimo parágrafo dentro de um pequeno artigo. Além disso, a Carta Magna previu que uma lei regulamentaria essa eleição indireta, mas essa lei não existe. O que temos hoje é uma legislação desatualizada, fruto de uma técnica legislativa não confiável e com poucos detalhes (Lei 4.321/1964).

Acompanhe os problemas: Como seriam as candidaturas? Não sabemos! Quais são os prazos? Não temos! Votos de senadores valeriam o mesmo que de deputados? Não podemos dizer! Ora, mas a Câmara tem 513 parlamentares e o Senado apenas 81! É por essa razão que já existe uma disputa nos bastidores.

Conclua comigo: as eleições indiretas são um verdadeiro improviso, meu amigo!

Eu não iria tão longe agora, mas há fundamento para defender um novo pacto republicano. A sociedade civil livre e organizada poderia, inclusive, determinar uma nova Assembleia Geral Constituinte. Por quê não? O equilíbrio constitucional vem sendo rompido sistematicamente nos últimos anos, entretanto, essa é uma bandeira mais pesada para empunhar agora.

Reconheçamos que tanto as eleições diretas quanto as indiretas carregam um perigoso grau de instabilidade, todavia, uma delas precisará ser adotada.

Portanto, diante da fragilidade do instituto da eleição indireta, deixo aqui o registro do meu apoio às eleições diretas (inclusive com a possibilidade de candidaturas independentes dos partidos) para o frescor da política brasileira.

Respirar novos ares é  um empreendimento necessário, mas que não pode negar, em seu horizonte, que o verdadeiro titular do governo civil é o povo. Poder esse exercido por representantes, diretamente nos termos da Constituição ou mesmo sem qualquer restrição prevista nesse atual ordenamento jurídico, mas fruto genuíno da sociedade civil livre e organizada para repactuar a República Federativa e refundar o Estado brasileiro.

Deus, onde estás?

Assistimos espantados ao grande circo dos políticos brasileiros. Como podem ser tão canalhas?

Não me falem de bandeiras partidárias, de político F, L, D, T ou A. Apresentam seus redundantes números, e depois se reúnem para repartir o dinheiro. Banquete regado a sangue.

Livro transformado em caviar. Leitos transformados em bordéis. Escolares em lates.

São assassinos. Deveriam proteger a sociedade e a destroem.

Nesse terrível cenário, famílias perdem o sustento, doentes não são atendidos, crianças vendem balas no sinal ao invés de estudarem. Estão destruindo nosso gigantesco país.

Estive em Itaúna, minha cidade natal, e deparei-me com uma placa que dizia “Não dê esmola.” Lei municipal…..haha…agora o criminoso é quem dá esmola.

Cristão, por favor, movimente-se. Lembre-se que somos templo e morada do Espírito de Deus. Sal da terra. Corpo de Cristo. Cristão, pequeno Cristo.

O que faremos? Oremos, trabalhemos e sejamos luz, porque de picareta esse país já está lotado.

Fico essa linda canção, “Deus, onde estás”, que é uma linda oração da banda Palavrantiga.

“Deus, onde estás?
Te procuro.
Te procuraria na porta dessa rua.

Deus, onde estás?
Olha o que eu vejo agora:
O menino dançou sem roupa.
O menino botou na boca um doce
Com gosto de fel.

Deus, onde estás?
A Igreja arrancou o sino,
O homem esqueceu o menino.
Fez castelo de ouro e prata
E perdeu a vida.

Ah! Acende toda luz,
Iluminando a Terra
que convive com a dor,
Sem esperança.

Vai onde há a dor, e cura!
Vai onde não há amor, e ama!
Vai onde há a dor, e alegra!
Vai onde não há amor, transforma!

Teu toque forte muda a sorte de quem Te encontra.

Deus, onde estás?
Te procuro.
Te procuraria no beco, nessa rua.

Deus, onde estás?
Olha o que eu vejo agora:
O menino dançou sem roupa.
O menino botou na boca um doce
Com gosto de fel.

Deus, onde estás?
Eu passei por aquele palco.
Vi um grande homem fardado
Que gritava ao povo:
Dinheiro!!, sem piedade.
Ah! O homem passou e se esqueceu
da dor que sangra dentro do peito.
Dentro do peito.

Vai onde há a dor, e cura!
Vai onde não há amor, e ama!
Vai onde há a dor, e alegra!
Vai onde não há esperança!

Traz esperança!
Faz esperança!
Traz esperança!”

Cooperador de Cristo

A divina Providência

O início do capítulo 22 de Genêsis não deixa dúvidas: “Deus pôs Abraão à prova”.

Eu certamente sucumbiria face a tamanha prova. Qual é o sentimento que o Abraão carregava no peito ao subir o Monte Moriá com o propósito de sacrificar o seu único filho? Não consigo imaginar. Era o seu o filho amado, o filho da promessa…

Leia a história e você perceberá que toda ela é permeada de obediência. Abraão respondeu o chamado do Senhor com o famoso “eis me aqui” e nem mesmo na sequência da narrativa percebemos qualquer hesitação desse herói da fé. Ele cerrou os dentes, trancou as lágrimas, engoliu a seco e partiu para uma longa jornada até a morte do filho Isaque.

Abraão respondeu à pergunta do filho a respeito do cordeiro para o holocausto afirmando: “Deus mesmo há de prover“. Em seguida, Isaque, também obediente, foi amarrado e colocado em cima da lenha sem dar sequer um grunhido. Mesmo diante da faca que vinha da mão de seu pai em sua direção, Isaque permaneceu em silêncio obediente.

Deus gosta das provas. A prova não é nem tanto para revelar sobre o caráter de Deus, mas é certamente reveladora do caráter do provado. Abraão obedeceu, não negou o seu filho, e por esse motivo Deus disse que o abençoaria.

Esse capítulo do livro sobre as origens é muito similar ao que diz o capítulo 13 do livro primeiro do Imitação de Cristo, obra clássica da espiritualidade cristã. Lá acentua Tomás de Kempis: “alguns são tentados levemente, segundo a sabedoria da divina Providência, que pondera as circunstâncias e o merecimento dos homens, e tudo predispõe para a salvação de seus eleitos.”

Eu fico me perguntando se o Kempis não confundiu aqui os conceitos de tentação e provação, uma vez que de Deus não se origina o pecado. Há quem diga, entretanto, que hipercalvinistas defendem ser o próprio Deus o autor do mal.

Certo mesmo é que tanto provas quanto tentações são utilíssimas porque nos humilham, purificam e instruem. Enquanto caminhamos com dor no peito em direção ao Moriá, o Senhor fala conosco e transforma o nosso caráter. C. S. Lewis nos advertiu de que o sofrimento era o megafone de Deus para se comunicar com o humano. Vai ver é isso mesmo.

Não importa qual é a carência, a dor, a provação e a tentação, porque o Senhor proverá, assim como exclamou Abraão.

Prover. Por à disposição os recursos necessários. Providenciar.

A divina Providência.

Um palpite breve a respeito da legislação trabalhista e o sindicalismo no Brasil

O dia 1º de maio foi antecedido por uma greve geral no Brasil. Não sabemos precisar o significado de “geral” nesse contexto, uma vez que muitos não pararam. Mas houve muitos que, embora não tenham aderido à greve, apoiaram-na em pensamentos.

É momento de reformas: trabalhista, previdenciária… É reforma pra todo lado. Talvez por isso a urgência do tema.

É certo que a pausa da atividade laboral possibilita o ócio criativo. Arriscaria dizer que essa não é a realidade da maior parte dos trabalhadores brasileiros, mas o feriado, em tempo de crises, instiga uma boa leitura.

Estava eu lendo a Laborem Exercens – encíclica papal sobre o trabalho humano – e me deparei com ideias interessantíssimas. Não me contive e acabei associando alguns aspectos desse documento com a reforma trabalhista defendida pelo governo federal.

A ideia geral a respeito da reforma transmitida pelo governo é de modernização da lei trabalhista. Aqueles que são contrários insistem que, na verdade, a reforma e a lei recentemente aprovada sobre terceirização fazem parte de um processo radical de precarização do trabalho.

Uma primeira proposta trata do alcance dos acordos coletivos. Se compreendi bem, sindicatos de trabalhadores e associações de caráter patronal terão ampla liberdade para negociar, mesmo à revelia da lei. Uma primeira pergunta: ora, não era a lei o limite para as negociações? Não era o Estado que faria correções pontuais do flagrante desequilíbrio econômico? Negociar férias parceladas, duração da jornada, deslocamento até o trabalho, intervalo sem o balizamento legal tem como resultado aparentemente óbvio a perda de direitos.

Por dois motivos: distorções éticas na prática capitalista de compra da força de trabalho e, ainda, pelo enfraquecimento dos sindicatos.

Mas sindicato é importante?

A mencionada encíclica diz que o direito de se associar ou de formar associações para resguardar interesses vitais é indispensável. O trabalho é um direito vital, logo o sindicato é indispensável. “A Igreja está convencida de que o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência do homem sobre a terra “ e o fundamento dessa convicção é encontrado logo nas primeiras páginas do livro de Gênesis. Não obstante, é um direito que deve ser exercido com limites, é verdade.

“enquanto sujeito, individualizado, pouco pode o trabalhador, quer contra o empresário individualmente considerado, quer contra a própria ordem econômica, não só porque a própria ordem econômica é estruturada com esta finalidade, mas ainda porque existe uma condicionante cultural que apresenta o empresário como aquele que venceu, o vitorioso.” (Domingos S. Nogueira Neto, “O Sindicato Metamórfico”)

Repare que uma das propostas do governo é tornar a contribuição sindical universal e obrigatória em uma contribuição facultativa. Essa é uma iniciativa que certamente enfraquece a estrutura sindical e torna o trabalhador ainda mais vulnerável.

Entretanto, admito que a representação sindical no Brasil precisa ser repensada. Há aqueles que dão conta de que enquanto a contribuição sindical é obrigatória para todos trabalhadores, apenas 18% deles são sindicalizados.

Há muito para ser ressignificado e poderíamos citar a relação do Estado com os sindicatos, a relação de grandes empresas, os meios antiéticos implementados por muitas lideranças sindicais para alcançar os fins almejados. É necessário que a sociedade civil floresça e muitas dessas iniciativas possam emergir naturalmente, mas como promover o seu florescimento?

Aqui um importante esclarecimento: essa não é uma questão de defesa de um determinado pólo do espectro político. Como exemplo, o ex-presidente Lula – ex sindicalista eleito pela maioria esmagadora dos trabalhadores do Brasil – enviou ao Congresso Nacional projeto de Emenda Constitucional de reforma sindical que, se fosse aprovada, poderia extinguir 8 mil sindicatos de trabalhadores.

Logo, rapidamente podemos concluir que iniciativas que vulnerabilizam o homem trabalhador podem emergir de qualquer lugar.

A Laborem Exercens deixa claro que há no trabalho um valor ético na medida em que se define como um mandato criacional presente desde o Gênesis:

“Esta circunstância constitui por si mesma o mais eloquente « evangelho do trabalho; aí se torna patente que o fundamento para determinar o valor do trabalho humano não é em primeiro lugar o género de trabalho que se realiza, mas o facto de aquele que o executa ser uma pessoa. As fontes da dignidade do trabalho devem ser procuradas sobretudo não na sua dimensão objectiva, mas sim na sua dimensão subjectiva.”

As teorias materialistas e mecanicistas transformaram o trabalho em mercadoria, mas o trabalho é o próprio trabalhador, que é o sujeito eficiente e criativo nessa relação, o artífice que lembra o Criador:

“o trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social, se nós procurarmos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem do homem. E se a solução — ou melhor, a gradual solução — da questão social, que continuamente se reapresenta e se vai tornando cada vez mais complexa, deve ser buscada no sentido de « tornar a vida humana mais humana »,então por isso mesmo a chave, que é o trabalho humano, assume una importância fundamental e decisiva.”
Portanto, é muito necessário que uma visão cristã do trabalho seja amplamente difundida.
É importante que se lance um olhar sobre a dignidade da pessoa e sobre o trabalho, que se faça uma profunda reflexão acerca de suas condições, da exploração que insiste em se manter e que se lembre todos os dias o princípio da prioridade do trabalho em relação ao capital.
É que na ordem social-moral estabelecida pelo próprio Deus “gente vem sempre antes de dinheiro”.

Encontro

“E trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal…” Romanos 1:23

Creio que uma das imagens que o homem esteja criando no que se refere à relação com Deus é a do “encontro”.
Do encontro religioso entre homem e Deus sai o homem cheio de si, regozijante, pleno, satisfeito. São esses “encontros” que por aí brotam em testemunhos sob os mais variados grupos cristãos e grupos “espiritualistas” em nossa sociedade. No entanto, se passarmos pelo crivo da Bíblia, poderíamos afirmar (ou duvidarmos muito) se isso não seria um falso encontro com Deus ou um encontro com o “Não deus” criado segundo a semelhança “do homem mortal”.
Creio que encontros verdadeiros com Deus nos tira pretensões, quebra arrogância, auto-suficiência, a piedade religiosa, a fé vencedora. Esse encontro nos chama a pensar a falta, nos traz novas compreensões, novos deveres e serviços. Foi assim com Moisés (que esconde seu rosto e coloca suas fraquezas), foi assim com Jacó (que temeu aterrorizado), com Isaías (que se avaliou negativamente perante Deus), com Paulo (caiu por terra em cegueira, perguntando “que queres que eu faça?”). Todos feito em um contexto de muito temor e respeito!

Encontros esplendorosos entre o cristão “pop” e o Deus “rastafari” não me convencem e creio que não convenceriam nenhum desses homens acima!

Que tipo de “encontro” você tem tido?

Abraço e até a próxima!

Entre o querer e o fazer

Todos dizem sim! Desejamos bênçãos. Desejamos salvação.

Infidelidade parece pertencer ao DNA da raça humana. Quando não concretizamos na prática, através de um só pensamento somos condenados.

É difícil cumprir todas as promessas.  E Deus sabe disso. Deus se mantem fiel enquanto demonstramos infidelidade.

Mas creio que Ele deseja que estejamos no Caminho, mesmo sabendo que durante o processo tropeçaremos diversas vezes.

Mas apesar de dizermos “sim, Senhor!” ; “obrigado, Senhor!”; “Amém, Senhor!”; “Aleluia, Senhor!”; muitos não desejam verdadeiramente estar com o Senhor. Não buscam andar no Caminho.

Quando vamos para uma festa num local desconhecido procuramos o endereço. Muitas vezes buscamos referências, perguntamos, colocamos GPS para nos guiar. Mas só chegamos no local desejado se trilharmos o caminho correto. Se você não sair de casa não chega a lugar algum.

Porque pensamos que com as coisas de Deus seria diferente? Ou você está no Caminho ou não chega a lugar algum (ou chega em outro endereço). Tem gente que acha que andar com Cristo é piscina gelada, põe o pezinho, tira o pezinho.

Entre o querer e o fazer existe um grande abismo. E esse abismo é preenchido com uma cruz. Se não nos enfrentarmos, a preguiça e desculpas esfarrapadas nos manterão afastados do Alvo.

Deus é dinâmico. Selvagem. E fiel. Ele quer você. Mas antes, deseja ardentemente que você realmente O queira.

Cooperador de Cristo.

Uma história marcante

O dia de ontem caminhava para o seu fim com ares de normalidade. É verdade que a minha falta de expectativa era resultado da pouca reflexão a respeito do que a noite me reservaria. Mas ninguém pode descrever prévia e precisamente as emoções desencadeadas por nenhum encontro sequer.

E digo logo: ontem à noite encontrei-me com a pobreza.

Eram 22h. Saímos todos juntos da igreja para distribuir quase uma centena de marmitas e um grande número de garrafas d’água nas proximidades do antigo Elevado Castelo Branco.

Por seus desígnios, Deus agraciou-me com o conforto de um teto, cama, família e comida por longos 30 anos. Isso não quer dizer, porém, que não me falta nada. Oh, Senhor, só Tu sabes a escassez de minh’alma: miserável coração que tem se enchido transbordante de alegria e gratidão.

Mas eu nunca experimentei a pobreza da sarjeta, nascedouro das dores físicas mais intensas e torturantes. Porque a calçada é o lugar mais hostil que podemos encontrar nos grandes centros urbanos. Foi ali que ouvimos a respeito do frio que corta os ossos, da pele queimada pela violência do desconhecido, e a dor de ser ignorado, aquela mesma que alcança o espírito e faz diluir a esperança.

Encontrei-me hoje com o Onofre. Ele tinha uma pobreza diferente da minha, a miséria da sarjeta. Ele divide a pequena porção de que dispõe da calçada com baratas e ratos, mas da sua escassez ele tirou um sem número de sorrisos. Foram muitos. Não cheguei a contar.

A história dele é confusa. Disse-nos que deixou Mairiporã a fim de encontrar emprego, mas sua companheira circunstancial nos confidenciou que ele havia presenciado um crime, o que foi prontamente confirmado. Temendo as consequências legais, abandonou sua família e lançou-se numa jornada de 25 dias de caminhada até Belo Horizonte.

Aquele homem de 36 anos nos contou que saiu de casa aos 13 e que estava na cidade há 10 anos. Ora, a conta não fecha, mas quem se importa? 13 + 10 são 23. Onde foram parar os outros 13 anos? Provavelmente escoados pelos cantos sujos daquela sarjeta.

Ele quase foi pastor e nos assegurou que quando voltasse para sua casa gostaria de finalizar o serviço que iniciou lá atrás: ser pastor, vestir um bonito terno e ter um carrão. Pode ser esse o modelo de espiritualidade que ele ouviu nos lugares pelos quais passou. Uma evidente teologia da vitória. Mas como eu poderia falar a alguém como ele acerca da necessidade de carregar uma cruz? Qual cruz se para qualquer um de nós a que ele carrega já seria um fardo pesadíssimo?

Posso lhe garantir, entretanto, que ele não foi forçado a dizer o que não queria. Ao contrário, ele foi amado. Ganhou um prato de comida, água, bíblia e muita atenção. Ele ouviu a respeito da Esperança, ouviu que é importante para Jesus e participou conosco de uma roda de oração. De mãos dadas, unhas sujas e coração aberto.

Ele quer voltar para casa. Eu também quero voltar para casa.

Abaixei-me depois que todos saíram e lhe disse: esse prato de comida não resolve a sua fome, mas sinaliza que um dia não haverá mais fome, nem frio e nem dor na alma.

Eu não sei o que esse prato de comida representou para o Onofre, mas a vida dele foi um banquete para a minha pobre existência. Cheguei faminto e voltei alimentado.

Farto. Saciedade. O Deus da satisfação.

Qual é a sua riqueza que supre a pobreza do outro?