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A morada de Deus e a morada do homem

Essa semana fiz um estudo bem legal com um grupo de amigos sobre João 14. No início do capítulo Jesus fala o seguinte nos versos 1 à 3:

Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também.

Existe uma discussão sobre o que seria essa morada. Muitos, dentro de uma perspectiva escatológica, acreditam ser Jesus preparando um lugar físico na eternidade. Pensando em todo o contexto do capítulo prefiro crer em outra ideia. Olhando o ser humano vejo que uma das maiores carências nossa é a busca por segurança, por aceitação, proteção, intimidade … busca por moradia! Jesus demonstra possuir esse lugar: “Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai…” e faz uma promessa para o homem no fim do mesmo verso: “…e vós em mim, e eu em vós.” (V.20) Jesus encontra moradia no Pai e ambos querem fazer moradia no homem e deixar que o homem faça moradia Neles.

Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. (v.23)

Creio que a morada que Jesus prepara está nesse novo relacionamento entre homem e Deus. Através da morte de Cristo dando ao homem um novo coração, coração pronto para ser moradia de Deus. Essa nova relação se estabelece através do Consolador: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” ou seja, o “Espírito da verdade”(v.17). Creio que essa era a melhor mensagem que Jesus poderia deixar para seus discípulos, mensagem de conforto, de uma nova relação e de promessa de proteção, intimidade, aceitação, segurança, em uma moradia fantástica!

Que possamos fazer morada em Deus e deixá-lo fazer morada em nós!

Abraço e até a próxima!




Perdão – zerando a lista

“Eu nunca fiz coisa tão certa
Entrei pra escola do perdão
A minha casa vive aberta
Abri todas as portas do coração”

(Tom Jobim)

 

Ano novo, vida nova. Por que não aproveitar a oportunidade do novo para fazer coisas novas? Por que não perdoar as pessoas que há algum tempo temos acumulado na nossa listinha de “devedores”? Será que fazemos parte da listinha de alguém?

***

Depois de um tempo de vida cristã descobri que só viveria em paz se resolvesse todos os problemas que havia acumulado durante minha vida.

Não foi fácil, havia onze pessoas na minha listinha. Dentre elas, algumas tinham apenas me deixado chateado, mas não necessitava de eu procurar porque já não tinham mais nada a ver comigo. Outras, não faziam mais parte do meu vínculo de relacionamentos e foi difícil encontrá-las. Na hora de conversar, foi muito fácil com algumas poucas. Já com a maioria, tive de me propor desafios específicos com cada. Demorou alguns anos, mas ao final foi muito bom – paz de espírito é algo que não há preço.

Com o passar do tempo descobri que problemas continuariam a acontecer por conta da minha natureza pecadora e também dos que estão à minha volta. Assim, com muita dificuldade, tive de aprender a resolver as novas questões que surgiam, em especial, com meus amigos cristãos. Por vezes tenho criado, sem querer, listinhas que muito me fazem mal. O ideal seria que elas não existissem, mas ainda não cheguei lá.

***

Esse fim de ano viajava em um ônibus vazio em direção a um sítio para me encontrar com amigos. Durante o trajeto ouvia Tom Jobim e me chamou a atenção a música que descrevi acima. Com um pouco de dificuldade, resolvi perdoar no meu coração algumas pessoas que haviam me deixado chateado por questões supérfluas, não necessariamente por pecarem contra mim. Desafio você a fazer o mesmo – perdoar. Listo abaixo algumas dicas que me são muito úteis sempre que lido com o assunto.

1. Antes:

. Faça uma lista com as pessoas que devem ter algo contra você.
. Liste também as pessoas que possivelmente tenham lhe feito mal e que lhe chatearam.
. Ore para que Deus o auxilie e, se for o caso, lhe ajude a promover o encontro.

. Procure essas pessoas individualmente para conversar, evite fazer em grupo ou por carta – pessoalmente ajuda a não criar novos atritos.

2. Durante:

. Converse desarmado. Cuidado para não falar nada que vá piorar a questão. (Pv 15:1).
. Fale somente o que lhe chateou ou que você tenha chateado. Não tente se justificar para abrandar seu erro (Pv 10:19).
. Se estiver errado em algo, peça claramente perdão.

3. Depois:

. Tente esquecer a questão. Não há necessidade de tentar ser o melhor amigo da pessoa. Confiança é algo que se conquista com dificuldade e se perde muito fácil. A reconstrução da confiança pode levar mais tempo que a construção. A lembrança de algo ruim será semelhante a uma cicatriz de um machucado – está ali, mas já não dói mais.

***

Dedico este post a meu amigo Guilherme Trópia, que me ensinou muita coisa em um estudo sobre o assunto em 2003, salve engano. Dedico também a um amigo que de bom coração tentou resolver questões no ano que passou, mas conseguiu piorar boa parte delas.

Versículos importantes: Gn 45: 5-11; Mt 5:44; Mt 5:23,24; Mt 18:15,16; Mt 18:22-35; Mc 11:25; Lc 23:34; Jo 1:29; Cl 3:13; Ef 1:7.

Uma frase para motivá-lo: “boas lembranças afasta maus sentimentos” (é de Herivelto, da minissérie “Dava e Herivelto” que está passando na TV).

João 1:35-51 – Vinde e vede

Se, no último trecho, o evangelista deu enfoque ao testemunho de João Batista, neste trecho ele nos mostra as consequências desse testemunho. Ora, se o João Batista tinha uma boa compreensão do seu lugar e missão naquele tempo, era natural ele anunciar o Verdadeiro, quando o reconhecesse. Foi isso que ocorreu e é isso que vamos ver hoje.

O contexto era o seguinte: João Batista, já famoso na região, vinha pregando batismo de arrependimento como preparação para o verdadeiro batismo que estava por vir (v26,27). Com o seu discurso de volta para Deus, conquistou discípulos, que passaram a participar do seu dia a dia (v35) e compartilhar seus ideais.

Tudo ocorria normalmente quando ocorreu o (in)esperado: João viu o Espírito descer dos ceús, como uma pomba, e pousar sobre um batizando (v32). João Batista sabia o que era aquilo – ele já fora avisado antes: “Aquele sobre quem vires descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo” (v33). E acredito que foi assim que ele reconheceu quem era Jesus.

Naquele momento tudo mudou, pois o “tempo vindouro” que ele anunciava em seus discursos havia chegado. Aquele que iria trazer o batismo verdadeiro havia se mostrado (v34). Tendo em vista a compreensão de João Batista de si mesmo (v23), não havia nada mais natural do que ele explicar tudo para seus discípulos (v35) e dizer: “Vão! Agora é inútil me seguir!” (v36). E é nesse contexto que começa nossa discussão.

Que buscais?

Dois dos discípulos obedeceram a ordem de João e foram atrás de Jesus (v37) (que temos notícias foram apenas os dois, mas é bem provável que haja mais). Jesus toma iniciativa e dirigi-lhes uma pergunta (v38), uma pergunta tão ambígua e forte que ecooa até hoje: que buscais?

E, como era de se esperar ;), eu a direciono para você, leitor: que buscais? Ou, caso prefira, em um português mais moderno: o que você tem buscado?

[pausa para reflexão]

E ai? O que me diz? Já se avaliou nesse ponto? Essa é uma pergunta que me faço constantemente, pois ela influencia muito no meu viver, querendo eu ou não. Afinal, o objeto de minha busca é o que eu provavelmente encontrarei e viverei por.

Não adianta eu buscar tesouros sobre a terra esperando ajuntar tesouros no céu (Mt 6:19-21). Não há como eu gastar todo meu tempo em faculdade/estágio/afazeres, sem gastar o mínimo de tempo com Deus/família/namorada e querer que fique tudo bem com os últimos 3. É impossível. É uma questão de escolha e investimentos: vou dar qual enfoque para minha vida? Vou buscar bens terrenos ou bens eternos?

Vinde e vede

Os discípulos, respondendo a pergunta de Jesus, deixam claro o que estavam buscando: o Messias. Mas, ainda mais interessante que a forma como Jesus inicialmente os aborda é a forma como Jesus responde ao anseio dos mesmos: vinde e vede. Novamente, uma fala que ecooa até nossos tempos.

Caro leitor, não sei o que você têm buscado, quais são suas escolhas e o que você tem priorizado. Mas, independente das suas decisões, Jesus tem te chamado:

» Para aqueles que buscam bens terrenos, Ele diz: vinde e vede.

Você já sabe o que Jesus pode te proporcionar? Por que não experimentar? Foi assim que começou minha vida cristã: não tinha convicção nem mesmo que Deus existia – mas resolvi experimentar. Pensava eu: “e se for verdade? Não custa nada tentar…” E estou ai até hoje. E não somente eu – há vários amigos que começaram assim também. Você não precisa acreditar firmemente, ou ter um coração bom, ou qualquer outra coisa – precisa apenas dar o primeiro passo – experimente – vá e veja!

» Para aqueles que já buscam bens eternos, Ele também diz: vinde e vede.

Sempre terá algo a mais que você ainda não viu. Não adianta. Ele é eterno e infinito, nós somos apenas mortais finitos. Então, eu te pergunto: o que está faltando na sua relação com Deus? O que está faltando mudar no seu caráter, nos seus hábitos, na sua vida? As vezes (quase sempre) a vida cristã é dura, mas não desanime, vá e veja. Você sabe que ele pode aumentar ainda mais suas fronteiras e te dar pés como os da corça nos lugares altos (Hc 3:19).

Verdadeiro Israelita

No final do trecho, Jesus se dirige a Nataniel com essas palavras – “verdadeiro Israelita, em quem não há engano” – sem nem mesmo eles terem conversado antes. Jesus já o conhecia, mas Nataniel não conhecia Jesus e se espanta. Então Jesus o lembra do momento “debaixo da figueira”. Nada podemos dizer sobre esse momento, mas podemos especular – e arrisco dizer que foi um momento de intensa busca a Deus.

O importante a se notar nesse trecho é que Jesus traça um paralelo explicíto com o antigo testamento, com Israel, o herdeiro da promessa de Abraão. Sua fala vai muito além do que uma simples leitura pode revelar:

Israel é o nome dado por Deus a Jacó, filho de Isaque, filho de Abraão. Deus não o nomeia ao acaso: Jacó era um traiçoeiro, que enganou seu irmão Esaú duas vezes (Gn 27:25,26), mas que teve seu nome trocado após ter sofrido uma grande transformação em seu caráter (Gn 28-32). Então, quando Jesus diz a Nataniel que ele era um verdadeiro israelita, além de estar afirmando que ele era um verdadeiro herdeiro da promessa de Deus, Jesus também estava dizendo que Nataniel era “um Israel”, e não “um Jacó”.

Creio que todos nós também podemos ter nossos nomes trocados. Isto é, somos apenas Jacós, mas podemos vir a ser verdadeiros israelitas. E essa transformação está a nosso pleno alcance. Precisamos, antes de mais nada, fazermos nossa escolha e definirmos o que vamos buscar. Depois, só restará irmos e vermos, pois Ele estará nos esperando.

João 1:19-34 – Quem é João Batista?

Se na primeira parte do capítulo 1 João tenta explicitar quem é Jesus e qual foi sua missão, nessa segunda parte, João tenta responder quem foi João Batista. Um homem no mínimo peculiar, uma vez que vivia no deserto (Mc 1:4), usava vestimentas ímpar (Mc 1:6) e, com um discurso de arrependimento (Mc 1:4), batizava multidões (Mc 1:5) – hábitos completamente semelhantes aos dos profetas antigos. Sem contar os agravantes de aquela era uma época de silêncio (não havia nenhum enviado de Deus há mais de 400 anos) e de dominação externa sobre Israel (dos Romanos).

Em meio a esse cenário, era natural as autoridades religiosas se preocuparem com tal homem. Afinal, seria ele um legítimo profeta? Ou, quem sabe, até mesmo o Cristo? Ou seria apenas mais um farsante (At 5:36)? Assim, João Batista era, no mínimo, digno de observação, pois, na pior das hipóteses, poderia ter um discurso que causaria problemas e, na melhor delas, poderia ser uma nova autoridade enviada por Deus que libertaria o povo judeu.

E é nesse contexto que o evangelista tenta nos responder quem foi João – num inquérito organizado pelas pelas próprias autoridades religiosas da época (v19).

Quem é você?

O interessante desse trecho é que o evangelista nos responde a essa pergunta sobre a própria ótica do entrevistado. E, com isso, vemos que João Batista demonstra grande conhecimento de si mesmo. Ele sabia quem ele era, onde estava e para que veio – isto é, ele sabia que ele era apenas um precursor do Verdadeiro. Ele trazia o batismo de arrependimento, enquanto O que havia de vir iria trazer o batismo da transformação.

João em momento algum colocou-se maior do que era, como é nosso costume – muito pelo contrário, ele se anulou. Diferentemente de nós, ele apontava para outro e não para si próprio. Ele sabia exatamente seu lugar e sua missão.

Que homem diferente, hein? Quantos de nós, mesmo com anos de cristianismo nas costas, sabemos quem somos e para que existimos? Quantos de nós nos colocamos no nosso lugar de pecador, no lugar de quem tem autoridade apenas para apontar e se rebaixar?

É duro e confrontador o exemplo de João. E o mais legal é que a pergunta dos inqueridores ressoa 2000 anos depois – e eu a passo para frente, querido leitor – quem é você?

E ai? O que me diz? Pare e pense um pouco. Difícil responder, não?

Uma questão existencial, mas não mera filosofia – essa é uma pergunta que influencia totalmente nosso viver. Afinal, se não sabemos quem somos, o mundo determinará quem você será. Sem saber de onde você veio, para onde você irá, qual a sua missão, não há outra escolha senão seguir o fluxo.

E, seguindo o fluxo, vivemos deixando de viver com Deus, por causa de provas na faculdade e estágios que agregam no currículo; vivemos trabalhando 12 horas por dia para ser “bem sucedidos”, sem tempo para nada;  vivemos “pegando e sendo pegados”, pois é o que todo mundo faz; vivemos indo em reuniões cristãs disciplinadamente, mas sem dedicar nenhum tempo para reconstruir aquele relacionamento ruim com nosso pai/mãe/irmão; vivemos comprando mais do que deveriamos, porque as pessoas vão nos achar cool com os novos acessórios;  vivemos lendo a bíblia farisaicamente, mas não aplicamos nada faz algum tempo; vivemos falando de amor; mas não conseguimos abrir mão de um pouco de tempo em favor de alguém.

O segredo do sucesso

Se você não conseguiu responder essa pergunta nenhum pouquinho e/ou se identificou com algum exemplo que eu dei, não se desespere – ainda há salvação (rs). João Batista, em sua própria resposta, nos dá o segredo do seu auto-conhecimento. E o segredo (como todos os outros segredos no cristianismo) é: um relacionamento íntimo com Deus.

João Batista possuía um relacionamento extremamente pessoal com Deus, a ponto do mesmo o falar (v32). Não bastasse isso, ele também possuía um conhecimento das escrituras profundo, a ponto de responder quem ele era apenas citando uma passagem de Isaías (v23) e também possuia uma submissão a Deus e abnegação invejáveis (afinal, não é qualquer um que larga tudo e vai para o deserto pregar o arrependimento).

E o legal que esse é exatamente o processo que eu vi em minha experiência de cristão. É um paradoxo: a medida que eu mais me nego em favor de Deus, mais eu sou eu mesmo. Cada vez mais que eu coloco Deus no centro, mais eu me conheço, mais perto da resposta daquela pergunta eu chego. E essa resposta influencia todo meu viver – é estranho dizer isso, mas passo a ver a vida e minhas escolhas de modo diferente – como se eu estivesse olhando “de cima”. Consigo ver muitas coisas que eu não via antes e consigo tomar decisões que eu não conseguia tomar antes.

Eu vi e tenho testificado

O ideal é legal, mas não seria só utopia? Isto é, “como poderia eu, um reles mortal, ter a mesma experiência de João? Nunca conseguirei responder àquela pergunta com a certeza e convicção que João respondeu.” Não creio nisso. Acho que você pode sim, basta querer.

Uma métrica legal é se fazer uma pergunta retirada da fala de João: você tem, realmente, visto e testificado que Jesus é o Filho de Deus? (v34) Se a resposta for não, não há como haver mudança. Se for sim, será uma consequência natural. Mas, é aquela velha história: você só conseguirá ver e testificar que Jesus é quem Ele é dedicando tempo ao relacionamento de vocês.

Conclusão

Com isso, eu concluo o estudo de hoje, deixando as tradicionais perguntas (sinta-se liver para comentar ou não o texto, mas não deixe parar e pensar em cada uma):

  • quem é você? qual seu objetivo nessa vida?
  • como está seu relacionamento com Deus?
  • você tem realmente visto e testificado que Jesus é quem Ele é?
  • se sim, quais mudanças ocorreram nos últimos meses?
  • se não, quanto tempo você gasto diariamente com Deus? por que?

João 1:1-18 – Quem é Jesus?

Como esse é o primeiro estudo, creio que devo fazer uma introdução relativa a prática do estudo, antes de irmos para o conteúdo propriamente dito. Bom, é extremamente indicado que você leia o trecho que será discutido antes de iniciar a leitura dos meus comentários. Não só leia, mas também ore pedindo por discernimento e sabedoria e releia quantas vezes for necessário para criar um entendimento básico do texto. Só assim poderemos falar a mesma língua. Só assim a Palavra ficará viva em você.

Como já falamos na nossa introdução, o propósito de João com esse evangelho é possibilitar que os leitores conheçam Jesus e, assim, possam viver a vida que só O mesmo pode proporcionar. Com esses objetivos em mente, porque não começar falando quem é esse tal de Jesus, do qual tantos falam?

Ora, no princípio era o Verbo (v.1). E o Verbo, paradoxalmente, era Deus e estava com Deus (v.1,2). Não bastasse isso, o Verbo foi o propiciador de toda a criação (v.3,4). Mas a sua própria criação não o reconheceu (v.10,11). Como não queria perdê-la, Ele se fez carne e habitou entre ela (v.14). Isso não só iluminou a toda criatura (v9), como revelou a glória do Pai (v.14,18) e possibilitou um renascimento como Filhos de Deus (v12), para todos aqueles que o recebessem (v13).

Bem resumidademente é isso que João responde. Uma resposta um tanto quanto fascinante e confusa. Nela Ele nos revela alguns fatos sobre Jesus que devem ser destacados:

1. Sua Origem

Talvez não haja nenhum outro texto do Novo Testamento que deixe mais explicíto a divindade de Jesus. No versículo 1, João começa seu texto exatamente igual o começo de Gênesis: no princípio. Com isso, ele está afirmando que o Jesus que ele próprio conheceu não estava limitado por laços sanguíneos: ele existia desde o princípio.

Logo depois ele usa o termo Verbo (ou Palavra, em outras traduções) para referenciar Jesus. Esse termo vem do grego logos que significa “o princípio racional e essencial por trás de tudo que existe”. Adicionalmente, no antigo testamento a “palavra” de Deus é tida como poderosa – foi utilizada para a criação, revelação e libertação. Com isso ele estava afirmando que Jesus é o criador e a engrenagem de tudo que existe, peça chave para inúmeros acontecimentos históricos, bem como a auto-revelação gloriosa do próprio deus.

Sem contar que Ele tinha um relacionamento singular com Deus, desde o princípio. Isso é extraido da expressão estava com Deus, uma vez que a preposição “com”, no seu original no grego, pros, significa algo além do seu seu sentido comum “estar em companhia”. Essa preposição era usada também no sentido de “estar em direção a”, refletindo um relacionamento pessoal e bem forte com a outra pessoa.

2. É o Criador

Não bastasse isso, João diz explicitamente que Jesus foi o propriciador de toda a criação. Foi Ele quem criou e, sem Ele, nada que foi criado teria sido criado. Foi ele quem trouxe luz e proporcionou vida aos homens. Foi quem Ele quem nos idealizou e nos deu forma.

E isso é bem legal, afinal, mostra que Jesus nos amava desde o princípio. Ele não foi somente o cara que veio para nos resgastar, Ele planejou e construiu cada detalhezinho do nosso ser. Assim, na criação vemos a primeira grande demonstração de amor de Deus pela humanidade. Uma demonstração de amor tão grande quanto a cruz. Isso porque Eles simplesmente não tinham a menor necessidade de nós. Eles possuiam um relacionamento pleno e suficiente.

3. É o recriador

Simplesmente negando esse grande amor, as criaturas não reconheceram o criador. O mundo não reconheceu Jesus. E vemos isso claramente no antigo testamento: Deus se revelando através dos profetas e o povo o recusando.

Mas João termina com um final feliz: Jesus não se conformou com essa rejeição e fez-se homem e habitou entre nós. E, quando João diz que Ele habitou entre nós, ele está nos dizendo mais do que a simples tradução pode nos dizer. Uma tradução mais literal do verbo habitar, no original (skênoô) é “armou seu tabernáculo”. Ora, essa é uma relação clara com o tabernáculo do antigo testamento: o lugar em que Deus habitava, no meio do povo de Israel. João está nos dizendo, que Jesus veio restaurar o tabernáculo de outrora, mas de forma ainda mais especial: agora não há divisórias e limitações de acesso, Ele está pessoalmente disponível para todos os homens.

Com isso, Jesus assume o posto de recriador. Ele veio recriar a relação dos homens com Deus, restaurar a luz que havia sido invadida pelas trevas logo depois da criação, nos dar a possibilidade e o privilégio de um renascimento como Filhos de Deus. E, para usufruirmos dessa recriação, basta crermos no seu nome e o recebermos – não precisamos de rituais e leis sacrificiais para uma reconciliação com Deus como outrora, Jesus já fez tudo, em graça e verdade.

Conclusão

É basicamente isso que eu vejo nesse trecho. João está nos dizendo que Jesus é Deus, nos criou do nada e agora, mesmo depois de termos nos afastado, quer recriar nossa relação com Deus. E essa relação irá nos trazer vida e luz, pois ambos estão Nele. Mas, para isso, temos que crer em seu nome e o receber em nossas vidas.

Dessa forma, queria te propor algumas perguntas que eu próprio já me fiz:

  • sua relação com o Pai já foi recriada?
  • se não, o que te impede?
  • se sim, em que áreas da sua vida você tem visto essa luz agir? onde há ainda a trevas? porque a luz ainda não chegou nessas áreas?

Sinta-se livre para responder ou não as perguntas, e comentar qualquer coisa sobre o texto. Mas não deixe de pensar em sua vida.

Evangelho de João – Introdução

Vou começar a fazer um estudo do Evangelho de João aqui nas sextas feiras. Minha idéia é começar com João e ir passando de livro em livro, até que terminemos toda a bíblia 😀 (talvez  daqui a uns 25 anos? rs).  Será? Vamos ver no que que isso dá….

Enfim, creio que o estudo de qualquer livro da bíblia deve ter um objetivo claro: o amor. Desenvolvendo nosso amor por Deus e pelos homens, o resto é consequência – afinal, não deve ser atoa que o próprio Cristo resumiu todas os mandamentos apenas nesses dois (Mt22:34-40).

Ora, se o foco é o amor, o foco não pode ser o conhecimento. Creio que nunca devemos estudar algo apenas pelo conhecimento. A luz dos dois grandes mandamentos (Mt22:34-40), esse ato se torna vão.

Ora, não estou desprezando o conhecimento – estou desprezando o conhecimento como fim. O amar envolve conhecer, mas como um meio. Eu diria até mais: amar implica conhecer (IJo4:7,8). Não tem como amarmos alguém sem conhecer esse alguém – principalmente no caso Deus.

Enfim, para um cristão, no meu ponto de vista, o amor sempre deve ser o fim e o meio, em qualquer coisa que façamos, em qualquer lugar, em qualquer época. E é nessa abordagem que quero seguir. E é nesse contexto que entra o apóstolo João.

Alguém que reinvindicou para si próprio o título de o discípulo amado (Jo21:20-24). Alguém que viu e sentiu o Amor Verdadeiro. Não só viu e sentiu, mas foi o apóstolo que mais presenciou esse amor.

E é exatamente por essa motivação que ele escreve o evangelho. Em Jo20:31, fica claro que João queria que nós, leitores, também vivessemos a vida de amor que só Jesus pode nos proporcionar e que ele presenciou e vivia.

E, para nos auxiliar nessa caminhada, ele foca bastante em dois pontos durante todo o seu livro: a identidade e a missão de Jesus. Isso por que ele sabia que se entendessemos melhor o Amor Verdadeiro por nós, se cressemos verdadeiramente Nele, seria natural tentarmos vivermos com e pelo O Mesmo.

Podemos inclusive dividir o Evangelho de João nesses dois enfoques: o chamado “Livro dos Sinais” (capítulos 1 a 12) – no qual João nos revela o identidade e origem divina de Jesus com a descrição de inúmeros sinais;  e o chamado “Livro da Glória” (capítulos 14 em diante) – no qual João muda o foco para a revelação de Jesus, para seus discípulos, em toda sua profundidade e glória. Mas esses pontos nós vamos desenvolver melhor durante os próximos meses…

Estou animado. Vocês topam descobrir comigo o que o discípulo amado tem a nos falar sobre a vida de Jesus e a vida que ele (João) desejava que vivessemos? 😀