Bem devagar – a volta ao primeiro amor

Imagine uma pessoa que conhece a Jesus e passa a desenvolver uma relação com ele. À medida que o tempo passa, esta pessoa aprofunda esta relação. Ela se envolve na comunidade cristã, tem excelentes tempos de oração, faz estudos em grupo e sozinho da Bíblia, etc. Ela cresce e amadurece enquanto cristã. Passado um tempo, este relacionamento esfria e a pessoa acaba por se afastar de Deus nas suas decisões, nas atividades corriqueiras do dia a dia e principalmente no seu coração. Você talvez conheça alguma história assim. Desculpe a ousadia, mas arrisco afirmar que talvez você mesmo já tenha passado por uma situação como esta, ou ainda talvez vá passar.

O distanciamento é apenas momentâneo, uma fase ruim. A pessoa em questão tenta então retomar a antiga amizade. Quem viveu com Jesus de verdade jamais conseguiria cogitar a possibilidade de viver longe dele. Ele tenta orar, ler, meditar, mas sofre ao ver que a relação não é mais como fora um dia. Desanimado, volta a se afastar. Esperançoso, tenta ir num acampamento cristão, num evento com algum grande nome do meio teológico, tenta buscar algo mais profundo. Assim,  passa a travar uma verdadeira guerra consigo mesmo na busca por um relacionamento com Deus ora de um lado, ora de outro nestes extremos.
Esse tipo de luta, apesar de parecer nobre, não é lá muito edificante. A frustração é a primeira consequência. As demais são provenientes dos pecados mesmo, aqueles cruéis que fazem com que ela se sinta ainda pior do que já estava. Parece que há uma bola de neve e que cada atitude leva pra lugares sempre mais distantes de Deus.
O que a pessoa da qual falamos não percebe é que a Deus está tão perto e tão acessível que a busca por um tipo específico de relacionamento vira um fim em si mesmo e o que se queria num primeiro momento deixa de ser buscado. Um exemplo de algo assim é o personagem Ted Mosby, protagonista da série de TV americana How I Met Your Mother. Durante temporadas e temporadas ele corre atrás de alguém que estava ali todo o tempo, mas alguém com quem ele nunca consegue se encontrar de verdade.
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Ted Mosby e o guarda-chuvas dividido por ele e a futura mãe de seus filhos

O desafio então não seria perder um tempo precioso buscando o inalcançável, mas sim ir devagar, dia a dia, nas pequenas coisas ir incluindo Deus de volta na sua vida. Se observarmos bem, toda dia e toda hora temos a oportunidade de buscar a Deus. E cada experiência pode ser única, assim como já foi um dia. O primeiro amor do cristão pode sempre voltar a ser experimentado.

Tenho vivido este desafio há (digamos) alguns anos. Hoje, após esta descoberta, tem sido sobremaneira gratificante pra mim ler um capítulo da Bíblia ou participar de um grupinho de estudos bíblicos. Através de uma palestra sou tocado pelo Espírito Santo de maneira muito especial como há muito não acontecia. Não há nada de mágico acontecendo, mas sinto que minha relação com Deus tem melhorado.
“Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim,
Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”
Paulo de Tarso, em carta aos filipenses (Filipenses 3:13-14)
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Conheço um monte de gente que passa por algo parecido, já conversamos muito, boa parte deles e eu, sobre este assunto. Meu desejo e minha oração hoje é que nós consigamos ter uma relação simples e ao mesmo tempo profunda com nosso amigo. Algo que não seja necessariamente voltar àquela velha relação com Deus, mas sim criar uma nova, talvez até mais profunda do que a anterior.
Termino com o trecho de uma música composta por Gilberto Gil e cantada por Caetano Veloso, da a qual gosto muito.
Sem correr
Bem devagar
A felicidade voltou pra mim
Sem perceber
Sem suspeitar
O meu coração deixou você surgir
E como o despertar depois de um sonho mau
Eu vi o amor sorrindo em seu olhar
E a beleza da ternura de sentir você
Chegou sem correr
Bem devagar
Bem devagar – Gilberto Gil. Prenda Minha (Caetano Veloso, 2000)

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

2 comentários sobre “Bem devagar – a volta ao primeiro amor

  1. Rafael,
    Também participo de um grupo cristão, e diversas vezes já me entristeci por ver pessoas se afastando da vida com Cristo, e ainda vejo.
    Muito obrigada pelas palavras, sei que Deus tem grande parte em tudo isso, mas o seu potencial também ajuda. O texto me fez refletir muito sobre vida de pessoas que aos poucos vão se esfriando, e é bom relembrar que nada está perdido.
    Abraço!

  2. Oi Paula.
    Que bom ler seu comentário. Sinto que esta luta por ficar bem com Deus é eterna. Sempre estamos de alguma forma tentando aprofundar nossa relação com Deus.
    Fiz este post pensando nuns dois amigos específicos. Como é bom ver esta caminhada deles de volta a Cristo. Espero nunca me distanciar, como há um tempo fiz. Espero que você também não se distancie. E como você mesma disse, nada está perdido nunca.

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