A Batalha das Górgonas

Hoje abro espaço ao meu amigo Pablo, mais conhecido por Neruda. Pedi a ele que desenvolvesse um post a partir de um ótimo comentário feito em um dos meus posts (Anfisbena). Obrigado Neruda! Segue o texto :
No post “Anfisbena”, publicado no dia 03/07 aqui no Outras Fronteiras, o Homero nos apresentou ao animal mitológico que, composto por duas cabeças, uma em cada cauda, teria nascido do sangue da Medusa, uma górgona. Naquele tratado, fomos apresentados a uma analogia de dualidade muito interessante. Este post  de hoje é continuação da idéia que o Homero já tinha exposto antes. Vamos lá?
 A mitologia grega é muita rica em criaturas mágicas e seres fantásticos. Eu confesso que sempre gostei muito destas lendas, impulsionado principalmente pelo filme “Fúria de Titãs” (e para os mais novos que acompanham este blog, estou me referindo ao filme original, de 1981). Pois bem, no Fúria de Titãs original vemos Perseu em uma batalha terrível contra o Kraken, um mostro marinho que pretende devorar sua noiva e destruir sua cidade natal. No filme, a única forma de impedir o Kraken é usar a cabeça da Medusa . Perseu caça a Medusa, corta sua cabeça, voa com ela em suas mãos até a cidade de Joppa e derrota o Kraken, transformando-o em pedra. Foi durante esta viagem que, segundo a mitologia grega e conforme o post do Homero, o sangue da Medusa teria gotejado e dado origem à “Anfisbena”.
 Acontece que nos escritos de Hesíodo, principal fonte literária da mitologia grega, a Medusa não é a única górgona. Existiam mais duas! Este  “trio ternura” são filhas de uma relação incestuosa dos deuses e irmãos Fórcis e Cetos.
 Estas  filhas são a já famosa Medusa, cujo nome significa “Impetuosidade”, Esteno, que significa “Opressão” e Euríale, que significa “Universalidade”.É justamente sobre estes três significados que vamos falar.
           Primeiro Medusa, a impetuosa, com cabelos de serpente e olhar petrificante, é a vivificação do egoísmo. Sua maldição é transformar em pedra tudo aquilo que olha. Desta forma, sua sina é viver para sempre sozinha ou trazer morte para tudo que se chegue próximo. É impossível viver próximo da Medusa, pois ela é totalmente cheia de si, mortal e feroz, sempre pronta para matar e defender, literalmente, seu ponto de vista. É como o pensamento fariseu, que esvazia as experiências do seu contexto e julga com a rapidez dos tolos.
           Depois, Esteno, a opressora. Possuía grande força física e mental, e apesar de não transformar seres vivos em pedra, era ainda mais temida que a própria Medusa. Segundo a Mitologia, foi a górgona que matou o maior número de pessoas. Seu conceito é o da imposição, que obriga tudo e todos a agir conforme a vontade e a verdade de outrem, mediante o uso da força. É o cruel exercício do poder, forçando todo ser vivente a um comportamento pré-definido. É a antítese do Amor de Deus, que liberta e permite escolhas.
          Por fim, Euríale. Era tida como a maior das górgonas em tamanho, e a única que não tinha nenhum atributo de beleza. Não tirou a vida de nenhum ser humano, e apesar da forma monstruosa, era tida como aquela cujas ações não traziam mal a outras pessoas. Era guardiã de templos de diversos deuses, e também é descrita como a mãe do Caos e do Destino. Euríale representa a cultura humanista e helenista, o pensamento politeísta e a universalidade de ações. Diretamente, não mata ninguém. Sob uma ótica apressada, pode até representar algum bem. Mas uma análise demorada logo escancara os perigos de colocar o ser humano no centro do universo e das atenções. Seus filhos, Caos e Destino, representam a total falta de ordem ou controle,  a impossibilidade da mudança, do perdão, da transformação. É a antítese o sacrifício de Cristo, que morreu para redenção, para nos ligar ao único Deus e nos mostrar que nossa incapacidade não é o que nos define, e sim nossa livre escolha  por acreditar na Graça.
          Acredito que dentro de cada um de nós vivem estas três górgonas. Todos temos que lutar e matar diariamente estes monstros que habitam nossos corações e insistem em nos desviar do verdadeiro caminho. Às vezes somos como a Medusa e só nos preocupamos com nosso próprio umbigo, “matando” todos que tentam se aproximar de nossa vida. Às vezes somos como Esteno, que impõe sua vontade pela força bruta e não permite que o outro seja quem Deus quer que ele seja.  Mas acredito que na maioria das vezes agimos como Euríale. Achamos-nos suficientemente bons porque não fazemos diretamente o mal a nenhum outro ser humano. Mas será que só isto basta? Se me basta ser um bom humanista, certamente não me sobrará espaço para ser um bom cristão.
          Para fechar, revelo que o mostro chamado Kraken, morto pela cabeça de Medusa, é também descrito na mitologia como Cetos, pai das górgonas. Na alegoria, Medusa matou seu próprio pai.
E no final, não é justamente isso que fazemos todas as vezes que pecamos? Não seremos nós a própria imagem da Medusa, matando o Deus Pai que habita em nós todas as vezes que usamos “nossa própria cabeça”?
Vamos lá! Com força ,garra e fé vamos vencer a “Batalha das Górgonas”.
 Um abraço!
 Neruda

Homero Castro

Sobre Homero Castro

Nome: Homero Resende Castro Nasci em 1979 em Belém do Pará, moro em Belo Horizonte desde 1989. Sou formado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Desde 1999 trabalho como missionário na associação Alvo da mocidade. Eu e minha maravilhosa esposa, Camila temos duas filhinhas lindonas, Helena e Elisa, e uma sapeca cadela chamada Leona.

3 comentários sobre “A Batalha das Górgonas

  1. Sensacional….curti muito todas essas analogias e;
    “…o sacrifício de Cristo, que morreu para redenção, para nos ligar ao único Deus e nos mostrar que nossa incapacidade não é o que nos define, e sim nossa livre escolha por acreditar na Graça.”
    muito bom!!!

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