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Sobre vidigal

Vidigal, cristão, 20 e tantos anos, casado, engenheiro, Belo Horizonte, MG.

Ele poderia

Ele poderia ter aumentado a voz.

Em discussões falsamente objetivas poderia desmascarar a competição velada.

Elogios poderiam ser revelados como bajulações interesseiras. Falso zelo exposto. Vaidades, inferioridades, competições.

Ele poderia ter revelado os corações.

Em rodas de pesquisadores zelosos poderia ter surpreendido.

Ele poderia acabar com qualquer discussão, qualquer impasse.

Ele poderia colocar o dedo em riste.

Poderia fitar nos olhos.

Ele poderia ter jogado a primeira pedra.

 

Comunidade

Comunidade de baixinhos de mais.

Comunidade de feios de mais.

Comunidade de gordos demais.

Comunidade de magros de mais.

Comunidade de estranhos de mais.

De burros de mais.

De instáveis de mais.

Imaturos de mais.

Irritantes de mais.

Loucos de mais.

Gays de mais.

Devassos de mais.

Metidíssimos.

Carentes.

Explosivos, briguentos.

Sem sal.

Insignificantes.

Altos de mais.

Desengonçados.

Pele ruim.

Cabelo.

Isso.

Aquilo.

Pobres.

Roupas feias.

Mal gosto.

Nerds.

Bizarros.

 

A gente

Plus de noblesse

Educação. Etiqueta. Usar tal garfo assim assim assado, jamais perguntar sobre tal tema, levantar-se para cumprimentar as pessoas… Boas maneiras.

Somos ensinados a declinar comida, não dar trabalho para os pais do coleguinha, sermos bem comportados. A utilidade destas instituições é clara, mas qual a sua motivação?

Aos poucos vamos aprendendo a sermos muito corteses. Atenciosos, simpáticos, educados. Nobres até.

“A maioria de nós aprendeu a ser cortês com os outros, a falar gentilmente, evitar ofender os sentimentos alheios e parecer interessado no bem-estar do outro. Podemos até ser muito habilidosos e fingir compaixão (…) Mas Deus nos conclama a um amor sincero e real que vai muito além (…) de um comportamento polido. O amor sincero exige concentração e esforço.” – Comentário da Bíblia Aplicação Pessoal ao versículo de Rm 12:9: O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai ao bem.

Ao identificar que é por um quase condicionamento que tenho atitudes polidas, tenho vontade de romper com toda “mera convenção social”: pode ser má-educação mas não é falta de amor!, me justifico. Talvez às vezes eu até tenha razão. O ponto, contudo, não é simplesmente fazer isto ou aquilo mas a motivação. E quando a motivação é o amor compromissado e sacrificial de Jesus, o padrão não desce, apenas sobe!

Ainda assim, vale também questionar nossa conduta.

O controverso personagem de um livro que estou lendo acusa um de seus: “Miússov, meu parente, gosta de que tudo na fala seja plus de noblesse que de sincérité (mais nobreza que sinceridade), mas eu, ao contrário, gosto de que em minha fala haja plus de sincérité que de noblesse, e estou me lixando para a noblesse.” Afinal de contas, não seria a falsidade a verdadeira falta de nobreza?

Eu tenho você não tem

“Eu tenho, você não te-em”.

Imagem de Amostra do You Tube

Em uma frase, a síntese do comportamento infantil frente a coisas. A propaganda de 1992 que marcou muitas crianças anunciava a tesoura do Mickey e tinha como “par” a hipnótica igualmente marcante “Compre Baton”.

As crianças, coitadas, sofreram. São tão suscetíveis a este tipo de competição. Mas nós não, nós crescemos. Não precisamos nos comparar e certamente nunca diremos que temos algo e você não.

Nunca seremos tão pouco sutis quanto o garoto-propaganda da tesoura. As coisas na idade adulta são menos diretas. Jamais choraremos por não ter uma coisa e certamente não ostentaremos de forma clara.

Nas palavras de empresário francês da moda a respeito do objeto de desejo da brasileira: “qualquer coisa com uma logomarca bem nítida e que custe menos de 1.500 reais”.

Precisamos voltar ao menino que ouviu sobre a tesoura do Mickey e entender seus sentimentos, aceitá-los e, a partir disto, julgar: “Êpa, péra aí , não preciso desta maldita tesoura!”. Não preciso de um carro novo porque o vizinho/colega de trabalho/amigo comprou outro. Não preciso de um celular ainda mais novo. Não preciso…

Acredito que muito desta competição se relaciona ao fato de precisarmos de sermos amados. Preenchamos nosso vazio com Deus e com relações verdadeiras, não com tesouras de plástico que não cortam bem.

Quando te digo eu te amo…

Tenho algo a dizer. É sobre nós dois. Eu te amo.

(…)

E aí, não vai dizer nada? Eu disse que te amo. Acho que o mínimo que mereço é um eu te amo em troca. Ora por que é tão importante? Por que eu disse que te amo! Você tem que me dizer que me ama também! Afinal de contas, eu amo você!

Quando digo que te amo quero dizer… ora que te amo. Isso cria um compromisso entre nós. Quer dizer que você tem que dizer que me ama. E é claro, não apenas dizer, você tem que me amar. Não, não como uma troca, você tem que… querer me amar também, e não só querer, você tem que amar simplesmente. Por que se eu te amo, eu sou seu e logo… você é meu.

Eu te amo, isso é, eu te vejo e sinto muito amor! Quero ficar só com você! E te ouvir e saber de você! E saber coisas que ninguém sabe sobre você! Compartilhar dos seus segredos, etc e tal. Teremos nossos programas e nossos tempos. Claro que nos relacionaremos com outras pessoas, mas nosso relacionamento será especial, será único, uma coisa só nossa.

Claro que sim que fico bravo, por que você não disse logo que me ama? Não, dizer agora não basta! Eu faço tanto por você, me sacrifico… o mínimo que eu posso querer, o mínimo, nem estou pedindo que você faça nada, como aliás eu faço tanto!, seu eu fosse pedir para você igualar o tanto que eu faço, mas não, estou pedindo apenas que você diga que também me ama, e você não pode fazer isso! Aliás, não pôde, porque como eu já disse agora não adianta.

O jeito vai ser da próxima vez quando eu disser, veja bem uma outra vez, aí você terá que sentir que também me ama e me dizer… não, claro que não estou sonhando com filme e nem novela, só estou pedindo que você diga que me ama, meu Deus!, será que é tão difícil assim?!

Quando eu te vejo eu quero… fazer tudo por você! Te dar tudo! Eu quero ver você feliz! Quero te fazer feliz, e… estar sempre com você! E… é isso eu acho. Eu te amo. É uma coisa de sentimento, do coração.

***

“Sabemos que nossa solidão só pode ser preenchida com o amor do outros. Sabemos que precisamos nos sentir amados. O paradoxo é este: quando tentamos preencher o vazio de nossa solidão buscando o amor dos outros, é inevitável não encontrarmos consolo algum, só mais desolação”

John Powell

Espírito de Manada

Ah! As multidões!

Na semana de sua morte Jesus experimentou adoração e condenação de uma mesma cidade. Vai entender.

Ao entrar em Jerusalém no Domingo (de ramos) ele fora adorado com o Messias – “bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana nas alturas”. TUdo parecia ótimo. Teria o Cristo cumprido sua missão na Terra? Ele já vinha triunfante! Era recebido pelo povo com grande admiração.

Não, Jesus ainda não tinha feito o principal de sua vinda (a morte na cruz foi o principal) e ele não havia efetivamente conquistado o povo.

Bastam alguns dias para que provavelmente muitos que gritaram Hosana, clamassem pela Crucificação da mesma pessoa.

“Eles não sabem o que fazem”.

Pilatos, governante da parte de Roma na região entendia que a população estava perdida. Perguntou, ao ouvir os pedidos de morte, qual teria sido o mal feito por aquele homem, ao que a população respondeu gritando, cada vez mais, “crucifica-o!”.

Como teriam sido tão rapidamente levados de um lado para o outro? Como puderam pedir a morte do mesmo que a pouco idolatraram? É nos dito simplesmente que “os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram à multidão que pedisse Barrabás e matasse Jesus”.

Pode parecer caso superado, contudo creio que padecemos do mesmo mal. Somos, diariamente, conduzidos a ações que tomam nossa atenção para coisas banais, nossas forças para motivos vãos, nosso tempo para atividades de pouco proveito, nossas profundidades por relacionamentos rasos.

O Ego procura excitação, divertimento, gratificação, elogios, recompensa, desafio e satisfação. Muita gente se dedica a manipular e vender esses impulsos através de sedução e persuasão. A sociedade costuma preferir a orientação dos publicitários à dos apóstolos (…) À medida que nos acostumamos a orar, deixamos de ser levados por tais bagatelas

Eugene Peterson

O cristão tem que “nadar contra a corrente” e, para isso, é preciso identificar e tomar consciência da corrente. Possamos criticar nossas ações no temor do Senhor e, em oração, ajustar o foco.

Seja feito segundo a sua fé

“Se você quisesse aprender como curar um cego e pensasse que seguir a Cristo e ver como Ele o fazia tornaria as coisas claras, com certeza ficaria muito frustrado. Ele não costuma fazer duas vezes um ato da mesma maneira. Em um caso o Senhor aplicava saliva nos olhos de um homem; em outro, Ele cospe no chão, faz lodo (…). A um terceiro, Ele simplesmente fala…[Deus] é uma pessoa e insiste em trabalhar pessoalmente” John Eldredge

– Credes que eu posso fazer isso?

Quais eram as chances para os cegos no século I? Estes não sabemos se sempre foram cegos mas certamente há tanto tempo desejaram por alguma solução. Atualmente a solução se dá de diversas formas: cirurgias, medicamentos, dispositivos. Mas, naquela época, será que teriam sequer esperança remota de qualquer progresso?

E, no entanto, tomados por entusiasmo incomum mesmo diante de Jesus, clamaram:

– Tem compaixão de nós, Filho de Davi!

O que nos traz à pergunta inicial do texto: Credes que posso fazer isso?, ao que complementa:

– Faça-se-vos conforme a vossa fé.

***

O que seria feito a você se Jesus lhe dissesse isto?

Será que se não tivessem fé aqueles dois cegos seriam curados?

Você realmente crê que ele pode mudá-lo? Você pede a ele por compaixão?

Você vai entusiasmado ao encontro de Jesus?

O Cristão e o uso dos talentos

Sabemos que não é por obras.

“My wings don’t sail me to the sky”, ou minhas asas não me levarão ao céu, diz a canção.

Ou ainda: “não por obras, para que ninguém se glorie” (Efésios).

Há, contudo, de se pensar nas obras.

Tiago é sempre apontado como um dos seus maiores defensores: mostre-me sua fé sem obras…

Há também inquietante passagem em 1 Pedro:

E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação

O contexto parece dizer especificamente a respeito de santidade. Seria santidade apenas o que não podemos fazer?

Pensei neste duplo enfoque e confesso que o segundo me deixou mais abismado: não devemos fazer uma série de coisas, é a lei e tal. Entretanto, e as coisas que deixamos de fazer?

Lembro-me do funcionário a quem foram confiados talentos.

Lembro-me da continuação do versículo de Efésios: [não por obras, mas por fé…] Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos [grifo meu].

“Andai em temor durante o tempo da vossa peregrinação”

Chamados para a aspersão

O apóstolo Pedro em sua primeira carta lembra prontamente aos cristãos que são chamados para a aspersão do sangue de Jesus.

Em Levítico, o sangue de ofertas deveria ser aspergido sobre o altar como expiação do pecado. Antes de Jesus, a prática de sacrifícios animais era necessária para santificação do povo.

Jesus, porém, foi o sacrifício perfeito. Depois dele, os sacrifícios animais não são mais necessários, contudo, a aspersão do sangue continua.

Continua para a purificação do pecador. Para a redenção dos pecados. Para que o filho possa voltar ao lar. Pagamento providenciado pelo pai.

Devemos receber a aspersão pela primeira vez, mas não ficar somente nela. Devemos receber diariamente o perdão dos nossos pecados que, se tudo der certo, se mostrarão cada vez maiores e mais profundos – estamos cavando um iceberg. Primeiro mentirinhas, zoações; depois pensamentos impuros, invejas; seguido de questionamentos conflitantes a respeito de nossa identidade como filhos amados… A coisa vai ser mostrando cada vez mais enraizada em nossa natureza, não apenas composta de pequenos atos de delinquência.

Confessar e receber o perdão. Tarefa diária. Necessidade para a sobrevivência da fé.

Mas não para por aí.

A aspersão não deve ser apenas recebida. Tornamo-nos também sacerdócio e, assim, figuradamente, ministros da aspersão: devemos anunciar o perdão dos pecados a todos. A não-cristãos para o perdão dos pecados, a cristãos para o renovo da vida em Cristo.

Há nisto alguns desvios possíveis – o homem sempre encontra meios de deturpar as coisas. Podemos focar primariamente apenas em nós mesmos. Estamos ali diante de Deus e é tudo que importa. Em certa medida sim, mas também somos chamados por ele às nações. E nisto reside o outro perigo: tornar-me apenas “aplicador” do sangue, nunca o recebendo. Entregando-me ao ministério mas não o recebendo nunca.

Em nome de Jesus é o novo Se Deus quiser

Entreouvido na rua. Esse mês vou fazer hora extra em nome de Jesus. Estou precisando de dinheiro.

Pareceu-me que a cultura evangélica está se difundindo sem que necessariamente a piedade dos Evangelhos acompanhe.

O temor.

A missão.

Sabemos a origem bíblica do Se Deus quiser.

Não digam que farão isso, isso e aquilo, mas digam que Se Deus quiser o farão. Alguns temem até mesmo projetar sem colocar a “obrigatória” ressalva.

De fato, devemos observar nossas palavras, mas o coração é que no fundo importa. Agora, por outro lado, é nos dito que a boca serve apenas de revelação daquilo que está por dentro, daquilo do que o coração está cheio.

De modo que não posso recriminar um Em nome de Jesus dito assim ao leu, mas ao mesmo tempo isso serve de objeto de reflexão. Estaríamos nos apropriando de uma pretensa autoridade espiritual para demandar nossos desejos?

Possamos temer o Senhor verdadeiramente e subjulgarmos nossa vontade.