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Sobre vidigal

Vidigal, cristão, 20 e tantos anos, casado, engenheiro, Belo Horizonte, MG.

Meditações no silêncio

Especulo que para compreender sobre o deus com que se relaciona é necessário dar atenção aos próprios sentimentos.

Conceitualmente, creio, não seremos muito divergentes. Se perguntados sobre quem é Deus e quais seus atributos, acredito que diremos coisas bem semelhantes. É contudo verdade que ao me direcionar a Ele meus sentimentos revelem pressupostos insondáveis sobre os quais me apoio, os quais serão bastante diferentes do que prego ou penso.

Por que a diferença entre o pensar e o sentir? E qual o mais verdadeiro?

Ora, creio que ambos são verdadeiros e igualmente relevantes, se bem compreendidos.

Se o pensar pode ser questionado pois pode ser confrontado com a revelação divina, os sentimentos não precisam ser julgados corretos para serem verdadeiros. Eles estão ali. Eles não atestam a verdade externa, não mostram quem é Deus. Eles mostram nossa visão humana de um deus, a qual acreditamos ser verdadeira.

Precisamos calibrar nossa visão, confrontar nosso sentir com o nosso pensar. Estou me sentindo culpado por essa e essa razão. “Deus me cobra, Deus exige…”. Estou bem, não tenho pecado ultimamente “Sou merecedor de bençãos, Deus me aceita…”. Será que algum dos dois é verdade? Sabemos que não! Mas por que tão frequentemente sentimos assim? Se sabemos que Deus nos ama como somos, por que precisamos de tantas e tantas coisas para nos sentirmos bem e aceitos? Beleza, magreza, riqueza, ostentação de bens, de amigos e de felicidade…

Não tenho respostas para isso, mas a incoerência é clara em minha vida!

Possamos ser transformados pelas verdades eternas que aprendemos em Cristo. Sejamos libertos e vivamos a vida plena.

O meio

O povo judeu é chamado de escolhido porque Deus separou esta linhagem para por meio dela abençoar todo o mundo. Ao longo dos séculos esta noção de escolhido foi cada vez mais separando este povo dos demais, em parte por orientação de Deus e certamente por bairrismos e preconceitos.

No início da igreja, após a ressurreição do Cristo, houve finalmente o cumprimento da promessa: outros povos foram alcançados pelo Evangelho.

Notoriamente, isto ocorreu com Cornélio, um centurião romano conhecido – até pelos judeus – como justo. Houve toda uma preparação miraculosa para que isto acontecesse, já que a noção de alcance do Evangelho não era clara até para os líderes da igreja.

Quando finalmente Pedro foi enviado a casa de Cornélio, este já sabia que alguma coisa especial ocorreria. Ele, portanto, teve tempo de se preparar. Assim, no mesmo dia em que Cornélio conheceu o Evangelho, de cara, sua família e seus amigos também puderam ouvi-lo e aceitá-lo.

De cara, o centurião foi meio para que outros conhecessem a Deus, assim como os judeus deveriam ser. Este é o chamado para todos nós. Possamos descobrir a Deus junto com as pessoas próximas, na humildade do recém-nascido na fé, com a curiosidade de uma criança e a sabedoria de um adulto.

O Impostor; Na Média

O Impostor que Vive em Mim é o nome de um livro do autor Brennan Manning cuja ideias e cujo conceito principal foi uma das que mais me marcou na caminhada que se iniciou em Janeiro de 2004.

[Aí se vão dez anos]

Recentemente, tentando descrever o que me marcou a respeito do Impostor disse, com meu discurso frequentemente fragmentado:

“O Brennan Manning já passou por tanta coisa [já foi monge, já serviu os pobres no interior da França, já foi franciscano,  já foi alcoólatra, já passou seis meses numa caverna do deserto de Zaragosa, entre outros] e se tronou alguém tão ‘santo’, e tão profundo que é como se tivesse chegado ‘lá’, lá onde nós tentamos chegar. E de lá ele olha para si e se vê como tão pecador, ou até mais, e relata isso, com a autoridade ‘de quem chegou lá'”.

Mas, como seria mais pecador, passando por tudo isso? Ora, talvez justamente pelo tudo isso. Pois, afinal, quem passou por tudo isso não pode ser alguém tão simples e pecador como um cristão medíocre que talvez a maioria de nós seja (aliás, pensando que medíocre quer dizer meio, mediando, talvez por definição a maioria de nós seja mesmo medíocre, certamente).

E, na verdade, ele revela as vaidades pessoais do chegar lá, razão pela qual me vejo em meus pequenos, minúsculo, mínimos “lás” e os troféus que ostento com calculada humildade e piedade.

O post de hoje, por exemplo. Vamos falar metalinguísticamente no mais instantâneo escrever.

São neste momento meio dia e quinze.

Acordei sem saber se o post deste sábado era o meu.

Tinha tanto para fazer e não tive meu tempo especial com Deus.

Priorizei fazer algumas coisas no computador. Culpado mas tão desorganizado…

Não queira publicar aqui antes destas coisas. Cogitei não publicar e na verdade não sabia se era meu sábado.

Entrei no Outras Fronteiras para ver se no sábado passado havia publicações. Sim, havia. Meu parceiro de dia da semana esteve presente.

Mas eis que surge um fato novo. Após ele, só mais uma publicação. E já há dois dias.

Mas eu não! Não sou medíocre – não sou como os outros, na média. Sou um pouquinho melhor. Mais compromissado, mais pontual. Piedosamente escreverei meu post sem olhar para os outros, se estão assíduos ou não. Não vim para julgar.

Sou a madre Tereza no alto da minha piedade.

Então,  meus amigos, recebam como meu presente do dia a revelação do impostor que vive hoje em mim.

E vejam como fui tão aberto e me confessei publicamente!

Mea culpa mea maxima culpa.

Licença para matar

Foi chegando e abriu logo a carteira mostrando a insígnia. Vinha ali com uma missão dada sua grande responsabilidade. O documento atestava: tinha Licença Para Falar.

Começou de mansinho. Se colocando, colocando os outros. Expôs muito em muito pouco tempo. Chocou e percebia. Animava-se com a reação do ouvinte. “É, eu também fiquei surpreso, eu também achei um absurdo quando ele me contou”.

Mas não vinha ali para falar dos outros. Conteve-se, com ar sério.

E começou a falar sobre o que achava. Pois achava muita coisa. Até tinha tempo para ouvir. O suficiente para tomar fôlego e retrucar. Exaltava-se. Mas sempre de forma velada. “Fulano até me disse que eu estava coberto de razão” [sempre quando alguém fala “até” ou “tive a oportunidade de” é uma forma de camuflar autopromoção, tenho para mim]. Com isso, dizia: “como vê, a Licença é merecida”.

E aí foi no estômago. Enumerou. Expôs. Repreendeu. Admoestou. “Estou falando porque sou seu amigo”, “estou falando porque acho importante”, “eu, eu, eu”.

Concluiu de forma solene. Diligente, dava maior importância a sua sentença. Diante daquilo não esperava outra atitude senão o arrependimento. Ah, esperava também a gratidão.

 

***

Se ridicularizo o grande sábio em questão, é porque fui e sou às vezes este ser de elevada visão. Felizmente, também deste Deus tem misericórdia. Tenham comigo também meus irmãos e perdoem estas minhas falhas.

***

Para ouvir lendo: Gladys Knight – License to Kill (tema do filme de James Bond)

Neuroses urbanas

Sexta-feira. Preciso encontrar.

Preciso desabafar sobre minha relação com meu celular. Sobre os grupos do Whatsapp. Sobre as piadinhas. Sobre os constante alertar. Sobre as pessoas sem filtro. Sobre ah! Você viu essa aqui? kkk!

Preciso reclamar um pouco do trabalho. Do chefe e do cliente. Dos colegas de trabalho. Do trânsito.

Ontem fiquei uma hora para andar 1km! Tá terrível não é? E os preços? E o Joaquim Barbosa? E a greve, e a Copa!

Preciso processar tudo. Bater tudo no liquidificador e engolir mesmo com alguns pedaços sólidos.

Preciso criticar alguém. Preciso lidar de alguma forma com esta vida. Descobrir o equilíbrio e celebrar pactos de conduta: vamos ser menos ligados, vamos isso, vamos aquilo, meu Deus essa semana não fui nenhuma vez na academia e ontem comi um mega sanduíche de bacon.

Hoje não estou bebendo.

(Será que roubaram meu carro?, flanelinha folgado!)

Especulações do evento suspenso

Trazia no caminhar a nítida diferença dos outros homens. Sua limitação era sua identidade pois não podia de forma alguma disfarçá-la ou esquecê-la. Sempre fora assim, assim viera ao mundo. Conheceu-o bem logo toda a sua frieza: o amor negado, o desprezo, o medo, a repulsa. Nunca deixou de depender de alguém. Neste sentido, não cresceu pois de certa forma continua criança.

Adicionada à limitação física há também a econômica. Esta restrição veio a conhecer já mais velho, quando pôde sair à rua e depender de não-familiares. Sempre foram menos solícitos do que os de casa e foi compreendendo que se tivesse posses não precisaria conta com a boa vontade de ninguém. Oh como seria bom não ter que pedir e alcançar um favor tão pequeno para os outros e tão grande para si. Este tipo de humilhação foi lhe trazendo uma amargura contida e sufocada que foi lhe fechando o rosto, o coração, a vida de modo geral. Não que não fosse simpático e sorridente – esse luxo não poderia se dar. Tinha que sempre agradecer toda e qualquer consideração embora desprezasse a tudo e a todos.

Surpreendeu-se com a sentença do homem que encontrou quando suspenso por cordas. De todos, sentia-se o menos devedor. Era o que mais sofrera. Era o que menos tinha. O que menos recebera. O perdão lhe era devido. A mudança de sua condição era o que o levava ali.

Prática

Acordaram todos. Nenhum sabia dele. Procuraram nos lugares prováveis. Nada. Até mesmo os primeiros a se levantarem não tiverem um rastro sequer.

Ora mas onde poderia estar? Teria fugido? Não aguentado a pressão? Por que os teria abandonado se mal começara?

Todos diligentemente o procuraram. Em vão. Não o encontraram até que ele terminara sua atividade.

Assim que voltou, parecia diferente. Decidido,nem mesmo respondeu a leve repreensão por ter sumido e já foi direto ao assunto: preciso fazer isso, isso e aquilo.

Foi para isso que vim.

De onde veio tanta certeza? O que era tão importante para que se retirasse de forma tão oculta? O que valia tantas horas de sono da madrugada? (aliás, uma coisa que sempre me intrigou, como que as pessoas acordavam antes do despertador?)

Vamos ao lugar deserto.

Imóvel

Era uma estante. Grande porque ocupava toda uma parede do quarto de dormir. Inicialmente era usada apenas como cabideiro. Ali o menino chegava e jogava suas coisas. Deixava as roupas, a bola, o tênis para dissabor da mãe, etc. Com o tempo e a correção foi ficando mais organizado e passou a usar de forma mais coerente.

Colocava ali os livrinhos da escola, os cadernos e a mochila do dia a dia. Não realmente acumulava nada ali, usava tudo o que ali estava, já que também ainda não era muito.

Foi envelhecendo – embora ainda fosse muito novo para combinar com esta palavra – e começou a deixar ali num local menos à mão os livros de que mais gostara de ler e que foram rapidamente acrescidos dos livros da faculdade.

Tinha também uns santinhos e anjinhos-da-guarda que sua mãe lhe dera. Sentia-se protegido e para eles rezava o que aprendera de sua avó e de vez em quando – quando as coisas apertavam, normalmente em época de prova, ou quando o avô ficou doente e também quando gostava de uma menina – colocava ali uma velinha ou uma florzinha do quintal.

Foi se interessando muito pela faculdade e a estante recebeu muitos e muitos livros. Em paralelo, alguns porta-retratos revelavam alguns amigos, a namorada, momentos em família. Ganhou alguns troféus de torneios de futebol. Ficavam no alto embora com uma falsa desconsideração.

Com o tempo teve que ir tirando várias coisas. O lugar ficou cada vez mais tomado por livros. Mantinha também os santinhos e é claro os troféus. Coisas de gente grande.

Os vários livros técnicos foram sendo selecionados e começaram a ceder espaço para literatura clássica. Mudou também a estante para a sala e deu-lhe uma repaginada com uma pátina moderna. Os santinhos foram tirados porque não acreditava mais “naquilo” e o local foi substituído por uma bíblia que passou a usar sempre.

Surgiram muitos livros sobre a vida de Jesus e também revistas de atualidade.

Fotos de amigos e alguns prêmios do trabalho.

Fotos dos filhos.

Souvernis de viagens.

Cada coisa no seu lugar.

Uma coisa para cada momento.

A.P.N.E.E.

Qual a chave para a felicidade?

Pergunto porque no final das contas “o que importa é que você esteja feliz”, não é mesmo?

Há quem arrisque respostas. “Fazer o que você gosta”, “estar com quem você ama”, “aproveitar o Hoje (Carpe Diem)”, “conhecer a si mesmo”…

Há ainda aquela opção de resposta forçosamente evasiva, comum em provas de múltipla escolha: N.D.A, nenhuma das anteriores.

“O cristão”, alguns dirão, “não responde da mesma forma que o mundo” (pessoalmente não gosto de me referir a não-cristãos como “o mundo”, mas que seja). Assim, enquanto as opções do mundo são ditas, talvez o cristão dirá: nenhuma das anteriores.

Esta é uma forma de se pensar. Plausível. “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis”.

Proponho, porém uma outra sigla, esta não será porém vista em provas.

A.P.N.E.E.

A pergunta não é essa.