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Por aí

Às vezes, a cama quente do domingo de manhã é presente, não tentação. Um convite pra ficar deitado até mais tarde remexendo de um lado pro outro até não aguentar mais e ter de levantar. Outras vezes pode a mesma cama de segunda-feira remontar preguiça.
A pouca roupa da moça que passa pode simplesmente atender por calor. Esta mesma que noutro dia serve à maldade de ser desejo, satisfazendo-se em olhares bestiais. Assim da comida boa, que prazer quando saboreada no limite da saciedade, mas glutonaria daquele que se entope até a repulsa.
O corpo foi presente, assim como todos os prazeres que o são. Este corpo aprovado por inteiro. Não há prazer que tenha sido colocado apenas para que ali haja uma proibição, que coloque o homem salivando cativo. Mas há tempo e ocasião. Não pelo fato simples de proibir. Mas porque onde não há comedimento, não existe prazer; existe depravação. Pois há pecado em transformar a comida boa em aversão, a beleza em tropeço, o sexo em razão de viver.
Existe muita mentira contada por aí. E talvez das maiores, aquela que diz que o prazer é natural e por isso não deve ser refreado. Mas das maiores certezas, está aquela de que o muito prazer deixa de o ser pra se tornar em desprazer. É baixo e se destorce em depravação. E que se percam oportunidades. Pois o mesmo Deus que coloca a mão na cama quente, às vezes nos convida a madrugar. Há espírito que se comunica, há princípios e há obediência. E assim, o prazer gozado em sua plenitude.

Café

Gosto da pausa. Quase sempre a chamo de café – destes nomes que carregam uma porção de coisas consigo, simplificam a vida de quem fala. E minhas xícaras nos tempos últimos, tem sido de goles de mente solta. Que pela fração dentre o cheio até o vazio, com a permissão de deixar o pensamento. Fazendo a certeza de que as pendências do dia se fazem congelar nesse parênteses de café. Em que a realidade das coisas por um instante abandonada parece um tanto mais boba que o chão de onde o pensamento voa, tanto quanto os inexatos passos do relógio frente aos goles de minha pausa.

E foi assim num dia destes qualquer, em que a novidade se escondia da rotina. A não ser pelo fato de que uma cafeteria que passada despercebida fora então notada. Uns minutos calculados e café. Sequer foi preciso tomar. Antes disso o cheiro convidou o aceite dado na entrada. E como a sensibilidade penetrando nas narinas, o mundo extraordinário da vida de pausa. Das ordens do cheiro e do desmando dos ponteiros.

E no mundo dos cafés, a música é notada assim como a flor que enfeita a mesa. O sotaque do garçom é pretexto pra algumas conversas trocadas e uma piada sem graça é motivo pra uma gargalhada inocente. Ali a rotina se exibiu insinuante. E ali se fez interessante, rica em suas sutilezas e pequenos milagres.

Digno de fé

A fé pressupõe autoridade. Porque para crer no que não se vê, é preciso confiar no que alguém diz sobre ser a verdade. E a racionalidade de uma fé está justamente em depositá-la em um discurso digno de confiança. Mas tal confiança em um discurso se deve menos da razoabilidade do que se diz e muito mais da autoridade de quem o entoa.

Ora, porque há vários absurdos ao longo da história que se traduzem na mais pura verdade. Passam ao largo de ter qualquer plausibilidade, mas são verossímeis. E que assim percebemos: ou por terem se passado diante de nossos olhos ou, quando não, porque contados por alguém confiável. Absurdos porque, por vezes, o curso das coisas se desvia do que dele se espera; coisas impensáveis acontecem, desafiando as probabilidades e uma inteligência humana de imaginação reprodutiva (e não criativa!). E assim, se entoa a ausência de sentido – uma realidade incontestável mas que embaralha a expectativa. Assim com os ditos absurdos históricos não se amoldam em um discurso que seja mais digesto a quem ouve, para que assim seja digno de fé. Aliás, também a própria história carece de fé, pois se confia em um relato, ainda que endossado por outras tantas vozes.

E assim, o cristianismo. Desses absurdos próprios de uma verdade que não se ajusta pra ser absorvida. Que extrapola a inteligência do homem sem ofendê-la. Que sobra. Em alguns pontos um tanto indigesta, mas que é digna de que se deposite a fé. Primeiro porque é coerente em toda sua extraordinariedade, ainda que não caiba toda numa explicação. Depois, e talvez o mais significativo, por sair da boca de quem tem autoridade. Palavras que caminham em perfeita harmonia com a vida de um justo. O absurdo que se materializou na vida de um santo. Que morreu pela verdade entoada. Que ressuscitou.

Do não ter

Pelas ruas, as coisas e pessoas se exibiam. A casa imponente ocupava o campo de visão por um pedaço de segundo, pra surgir outra ali e depois outra. Algumas de jardins bonitos, outras de varandas gostosas e ainda outras tais de elegância charmosa.

E assim, com os carros que passavam, com as motocicletas, com as pessoas e suas roupas. Todas envolvidas numa mesma gaveta de lhe conquistar, de merecer o destaque de saltar aos olhos. Inda que umas tanto mais voluntariamente que outras…

Mas hoje seus olhos estavam serenos e sentados. Separando os homens de suas coisas; correndo o olhar com a mesma atenção, ainda se encantando-se com as belezas desfilantes. Mas ora num tanto de liberdade, sem querer para si. Como a flor que perfeita no jardim antes de ser arrancada, assim era seu passeio. E por não querer, também não se tornar responsável. E talvez até, mais. Não precisar se tornar apto. Assim mergulhado em suas incapacidades admirava por vezes, por outras virava o rosto, na certeza de que lhe era dado. E chegando em casa, descalçado das maiores ambições, dormiu o sono dos tranquilos.

Uma manhã

Há um par de dias, fui a um cemitério. Se ainda pelo motivo que leva alguém a visitar o lugar, não se mostrava o pior dos dias. Fosse pela morte esperada de uma senhora bem velhinha ou mesmo por não ter tido oportunidade de firmar com ela maiores laços de afetividade. Assim, caminhava por entre as ruelas em oportunidade mais curiosa de um observador que ali para além de uma dor.

Não havia muita gente. Imagino eu que não por questão dos ditos laços, mas pela ordem normal das coisas, porque não lhe tivessem sobrado muitos de seus contemporâneos. Algumas poucas cabeças brancas que choravam baixinho, amparados por uns mais jovens que lhe ofereciam o braço e os passos miúdos. Destas figuras senis houve ainda quem sugerisse em voz alta, breve encontro. Fora estes, não mais que duas dúzias de pessoas. Alguns entusiasmados por rever familiares, outros caminhando em silêncio. Duas ou três crianças que pulavam por entre os jazigos enquanto eram repreendidas pela mãe.

Enquanto a terra era despejada, uma senhorinha caminhava de volta para o carro administrando suas lágrimas por entre os olhos espremidos. Houve inda um homem que conversava com os coveiros sobre a decomposição dos corpos e sobre outras curiosidades de enterro. Uns passeavam por entre as ruas lendo os epitáfios em voz alta. Outras vozes já pareciam organizar o almoço de logo mais. Ao som das pás de terra, as pessoas organizavam suas caronas de volta, despedindo-se umas das outras.

Pelo que tratei meu caminho de volta. Com olhos marejados, passeando-os por entre os epitáfios. Em pensamentos de corpo, reencontro. Era hora do almoço.

 

 

Ela

Não se trata do quanto se paga por ela. Porque ela não se relaciona com o que de fora. Por isso, se engana bem; visto ser possível externar todas as aparências de que esteja ali, embora sequer tenha visitado. Por ser possível reproduzir seus efeitos bem exatos, vestir sua roupa, encher a boca de suas coisas.

Mas tem que ver sim com o preço que se vende. Sempre por bagatela, em sensação de miséria, ainda que em troca de todas outras coisas do mundo. Porque se negocia pra comprar suas sombras, que se ostenta a plenitude do que ela não preocupa e externalizar. Visto se relacionar ela com as profundezas do ser, achando morada nas entranhas de um homem tranquilo.

E no encontro de olhos com outros, de um coração sincero e escancarado, de uma vida serena – busca-se a paz, no empenho por alcançá-la.

Um de delicado

As panturrilhas queimavam. Não duma latência de um inaugural, senão daquele caminhante que resistia. Inda agora, as dores tomadas de uma ponta à outra já eram o próprio corpo, de modo que não tomava consciência dele distante das perturbações. Como se incômodos tais fossem os que o fizesse tomar as pernas e braços como seus. Dores que então bem vindas; coisas de entusiasta progressivo que inclinou-se a preferir o movimento fatigado ao repouso delicado.

E assim, amante do sofrido. A ponto de esquecer que caminhava com um rumo. O percurso lhe fazia bem. E porque quando mirava o fim, as ansiedades lhe sufocavam a garganta e o medo de desfrutá-lo o fazia mais abraçar seus passos, diminuí-los em compridos que se estendiam ao infinito. Porque também havia despedida na chegada e mesmo que de dores, fazia estima do valor. Por ter custado sofrer e caminhar, pra assim tão depressa entregar no final. Ainda porque a dor se pagava em expectativa, desejo, desabrochado.

Mas precisava chegar. Pra saber que rumava certo. Pra vestir a coroa no final e traduzir o sofrimento em verdade. Quem sabe até elaborar uma fórmula para si, ainda que repetindo o bordão, de que não se chega sem suor, mas ora mais verdadeira porque sua e experimentada. Precisava chegar pelo gosto de chegar, para que o sabor fosse experimentado e então bem vindo na boca. Inda pra contabilizar entre as pequenas vitórias do caminho, a vitória. Precisava, aprendendo a sofrer, desaprender pra então desfrutar.

O dia na vida

Num dia nasce a novidade e a despedida. A inauguração, mas consigo a promessa do termo do inédito – certeza do morrer a cada noite que cai. E quando na rotina surge aquela tentativa toda de repetir, de buscar o que foi e fazer manter. Pelo desejo pela segurança de viver o que já permitiu sobreviver, repisando caminhos e rasgando em terra a relva verde de desconhecida.

Assim, a administração desse gosto amargo. Pelas pequenas porções tomadas, ou por doses irresponsáveis dum doce. Como se os dias calculados fossem um achado para o medo e o penar da despedida. Essa rotina que faz o novo vestir roupas velhas, se suficiente fosse para ver as primeiras marcas de expressão e o corpo cansado de quem o tempo levasse consigo em tenra idade. Um mesmo que promete o que não pode dar, essa repetição. Porque inda que ensaiado para acontecer de novo, há a tal novidade que toma ligeiro as frestas de um pote fechado para anunciar a mentira de um discurso e ali morrer, para nascer no dia seguinte.

Igreja

Inda com dificuldade para trocar os primeiros acordes, o garoto esforçado tocava seu violão iniciante atento à mão já treinada doutro músico. E este que, por seu turno, aprendera tocar tão somente os hinos da igreja, esbanjava sua limitação num violão de cordas levemente desafinadas. Um coro bonito acompanhava, mas era possível identificar vozes dissonantes de quem parecia não se importar com a pouca aptidão, talvez na confiança de que um coro nunca desafinava.

A igreja era simples. Sem pompa, mas sem miséria também. Feita de pessoas comuns, a maioria delas desinteressantes. De crianças correndo pelos corredores, gente velha sentada nas primeiras filas e outras mais com bíblias debaixo do braço e celulares nervosos. A mensagem era repassada com fidelidade maçante. O tom de voz não empolgava, os versículos eram os mesmos repetidos de oportunidades anteriores. Uma ou outra novidade emergia de uma porção do mesmo, mas sem o compromisso maior da surpresa.

Alguém convencionou chamar Igreja do Compromisso. Nome de rara felicidade. Pelo lugar sem vocativos, mas que trazia os seus no domingo seguinte, acrescentando uns poucos a cada semana. Por um banco convidativo e pelos olhos aptos a se encantar com coisas feitas por gente pequena e comum, acesas em perfume de cheiro gostoso.

Já era em tempo (…)

Saudade boa de se colecionar é aquela de nada.  A que dói pela ausência do que não se lembrou ter perdido; a que remete sem reproduzir. E por ser assim fingida, vivida com a intensidade de quem num estalo volta à tona da ordinariedade. Quando é possível reter com a ponta dos dedos o profundo do sentido. Como um cego que assim por fechar os olhos ou quanto ao ar que carece aos pulmões pelo prender da respiração.

Diga-se da saudade que transporte. Pra terra não pisada, mas que o coração reconhece e de pronto chama de sua. Onde há o aconchego do querer, a visão do que encaixa. Que se aperfeiçoa inda mais quando se ausenta. Despertada no comum dos dias, visto com paciência e com olhos coloridos de cinza. Fazendo lembrar do mister de diminuir os passos, respirar o redor, aquietar. E assim, encher-se dos significados e das almas. Andar no espírito – este sim, saudade.