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Linha Vermelha

O menino cruzava outra vez o painel que o separava da Linha Vermelha. Aquele mesmo que o acolhia do asfalto, também lhe chamava forasteiro. Porque pela ferramenta de esquecer o despercebido, os tapumes o imunizavam da cidade, tanto quanto o avesso. Em sombra de não ser, o ali de seu lado mais menino e menos caso social. Mas dali pra adiante, a casa já não era mais sua. As línguas se embaralhavam em confusão, as espécies não se reconheciam. A comida também não alimentava; a polícia e os engomados não o eram do lado de lá. Por fato, os tapumes que lhe desexistiam para aquém revelavam nos seus raros transparentes o aquário bestial em espetáculo anti-postal.

A cidade que escorria no trânsito também ocorria a cada carro acelerado. Lembrando que o apartado é passagem, ônus de quem precisa chegar dum ponto a outro. Tomando cada coisa no seu lugar, na Linha tênue de que assim fosse para que se respirasse a fuligem da paz. Homens em seus ares que de condicionado asfixiam, moleques enxugando o sal dos suores à pino sob o teto que escalda.

Neste dia o morro desceu outra vez. Todo ele nas costas do menino e dos seus, pendurado no estandarte de seus canivetes. Fazendo a cidade notar, remeter na pausa da barricada que ora fechava a avenida de uma ponta à outra. Também em cada carro prumado na contramão, como quem muda o curso de um Rio doente; Mundo. E o terror é o próprio rosto no espelho, de quem contempla sem ver o que é sua imagem. Imagem que ali saltava da moldura, correndo por entre os corredores de carros a colecionar celulares. E conhecer-se é um fato realmente assustador. A ponto de agarrar-se ao pedaço de vida, prezada no tal de fazer abandonar o carro e fugir em disparada. Um caos que vai em acidente colocando tudo em seus devidos lugares, fazendo a vida resignificar, coisificando o que devia de ser.

E enquanto os moleques faziam seu quê de carro a carro, toda gente corria encurralada em seu asfalto. Uns chorando desesperadamente no abrigo da sombra de um carro qualquer, outros protegendo a si, seus filhos, seus desconhecidos. Todos com as mãos na cabeça, não de rendido que estivessem ainda que assim; mas pelo próprio apreço em mantê-las onde deveriam de ser, vez que pedras começavam a ser arremessadas do lado de lá dos painéis, espatifando-se nos tetos dos carros afortunados.

Por entre os tapumes quebrados, sobrou espaço para ver. Outros tantos que dali arremessavam sorrindo a cada alvo. E por entre olhares de um raro cruzados, um menino gordo preparava mais uma pedra na mão, enquanto a outra vazia acompanhou o olho piscado ao fazer o sinal em seu próprio pescoço como quem o cortasse. Em seguida apontou. Para mim, que aliviado dava conta do meu em perfeito. A sirene anunciava em seguinte ao misturar as luzes do vermelho ao azul. Devolvendo a cidade aos cidadãos, a vida em preço pago do morro de todo dia.

Música de elevador

Apesar de sempre atual, o discurso cristão quase nunca será tido como contemporâneo. Digo com isto que em algumas ocasiões o Evangelho será tachado de retrógrado quando comparado ao contexto de mundo em que é pregado. Outras tantas vezes não será compreendido em sua concepção vanguardista de boa nova, razão pela qual o definirão em sua utopia de um futuro do qual não se alcançaria. Justamente pelo que se propõe, está deslocado de seu tempo, convidando o mundo em que se insere a repensar-se. Como verdade imutável revelada, jamais correrá ao encalço de uma sociedade construída. Num primeiro ponto porque não a imita, tampouco a cerca tal como as leis que seguem sempre um passo atrás no afã já perdido em alcançá-la. Noutro, porque simplesmente é, sem um compromisso simpático, ainda que naturalmente cativante. Porque o Evangelho questionará sempre este movimento, recusando-se a entrar na dança, dizendo sobre o que permanece.

Assim encontramos a Palavra, sensível ao mundo em que é pregada porque se contextualiza em amor, mesmo sem se amoldar, inconformável que é. Porque carregará consigo inevitavelmente a potência incendiária, um feixe revolucionário de se propor ao inteiro, ao rompimento em novo sentido e de inclinação oposta. E neste caso, o prêmio de se ter radical, como termo próprio que designa a saúde de sua anunciação. Porque a Palavra que não cause é enferma, carente de sua completude.

Assim nosso compromisso não é com a multiplicação do Evangelho, com sua assimilação ou recebimento. O compromisso é com o ir, com a Verdade em toda sua inteireza, porque nos foi assim fornecida. Não há um pedaço mais feio, algo que se necessite maquiar ou omitir. Toda Palavra é santa e viva e colhê-la de seu contexto perfeito e completo é mentir por omissão, de quem não se justifica por suas intenções e peca por criatividade de algo que por deixar de ser pelo todo é outra coisa pelo seu partido. E uma vez anunciada como é, nos foge a qualquer de nossas capacidades o convencimento.

Dentre os imperativos de grande comissão, não nos foi dado o desígnio de fazer o Evangelho mais palatável. Há sim sabedoria do espírito para compreender pessoas e histórias, mas a popularidade da Palavra não se dá por seletividade ou eufemismos de discurso. Ocorre pelo sopro que encontra verdade num coração aflito, sedento pela revelação de quem ouve o que anseia, as palavras da salvação.

Padaria

Faz alguns anos que sou consumidor quase que diário de um pão com manteiga e café numa padaria perto do escritório onde trabalho. A rotina já faz dispensar algumas formalidades com a frase direta do “O de sempre, por favor”, sobretudo em manhãs que se seguem de noites mal dormidas ou finais de semana mais intensos.

Fui descobrindo que as padarias são dos ambientes mais democráticos e libertários que se poderia imaginar; algo como um estádio de futebol… destes lugares em que a gente sai imaginando se algum tipo de censura não teria lá seus benefícios, tal como uma garantia que pudesse proteger a genialidade dos burros calados. E a minha padaria ainda mais, em especial por causa do engajado caixa/proprietário que compartilha gratuitamente todos os seus remédios desenvolvidos pra curar os rumos deste país e que ainda guarda trunfos na manga com análises preciosas sobre futebol e conselhos públicos sobre questões amorosas. Não poucas vezes, fui testemunha de todas as suas habilidades envolvidas numa só conversa, com conclusões existenciais das quais não seria aqui capaz reproduzir. Curioso ainda que a cada conclusão de raciocínio, costuma trazer ele o olhar ao meu buscando uma aprovação de sua linha de raciocínio, a qual eu com um sorriso amarelo balanço a cabeça em tom inquisitivo. Algumas figuras ainda se repetem a cada manhã tal como a minha própria. Um office boy incondicional fã de Lula, um corretor de imóveis que divide o muro com a padaria e um travesti de perfume marcante. Outras sazonais também ali se misturam dando o ar de sua franqueza… velhinhas da vizinhança, crianças correndo, gente de carro bonito, técnicos da NET, garis e mais uma porção de outros tantos que passam sem ser notados.

Hoje realmente não sei dizer o que mais me atrai para ali todas as manhãs, se o café melado de cada dia ou esta experiência antropológica. Aliás, confesso que a segunda talvez me faça mais falta, quando me pego nas raras manhãs de silêncio em me vejo jogando com ardil um assunto fresquinho de manchete anterior, como quem acende um fósforo e vai saindo de fininho vendo o circo pegar fogo.

Não me recordo de ter me posicionado sobre alguma coisa por lá… talvez por uma ou outra vez, mas receio que por não ter falado alto o suficiente ou por um tom mais moderado, não tivesse merecido a palavra. Aliás, nestes dias que se repetem, não teria me saltado qualquer um que assim como eu fosse um cauteloso de poucas palavras. Mas na ágora da minha padaria de todos os dias, viram-se os holofotes mesmo aos notórios da agudez de discurso.

Interiorano

Dia passados atrás e estava eu num destes cantos que se diz esquecidos no mundo. Um vilarejo onde o asfalto que ainda não alcançava fazia as coisas e a gente ficarem mais vermelhas quanto o pó do chão. Nem praça mesmo havia, mas um raro chão de grama rala que separava uns dois ou três bares que democratizavam seus assentos entre gente dali e outros como eu mesmo. Umas montanhas bonitas e um rio corrente que às vezes achava uma cachoeira pequena era o que se fazia durante o dia. E entre o final da tarde e a noite primeira, uma sanfona cancionava um povo dançando em alegria de não ser notado.

Esse tipo de lugar sempre me provoca. Mas dali buscava me fazer, dispensando os chinelos, dividindo o tempo nos espaços de antes e de depois do almoço. E num destes, sentava em um bar, orgulhoso por assim ignorar as horas do dia. Curioso inda, por perceber meus movimentos próprios se acalmando, como se seguissem a dança silenciosa do lugar. E ainda que me policiando vez ou outra para assim estar, acabava flagrando uns cachorros preguiçosos que sequer aumentavam seu ritmo numa oferta de qualquer que fosse pra comer e que se não assim, dormiam. Tampouco me afrontavam aqueles tais, pois lá estava eu mesmo sentado num toco de madeira entre mosquitos há um tempo respeitável esperando um feijão tropeiro com linguiça que já tinha pedido, vamos dizer… quando o sol ainda ardia mais forte. Mas na certeza de que chegaria hora qualquer, estendia alguns papos desimportantes enquanto enfiava os dedos do pé na terra seca e fofa.

Vida devagar daquela, pedia lugar aos meus dias anteriores de corridos a ponto de concluir num breve, que agitava-se por muito pouco. Ou mesmo que se assim corresse, valeria pelas horas prazerosamente desperdiçadas à espera do tropeiro. Como se fosse uma boa pedida os minutos contados dos dias de feira em prol dos desperdiçados em domingos preguiçosos.

E sentia que fácil mesmo seria se acostumar com vida tal, mesmo que fosse tanto mais serena que pudesse desejar, até que encontrei no lado de lá do outro bar um senhor de meia idade, portador das artes silenciosas do ensino… Chamaria a atenção o só fato de que pela leitura de sua boca tranquila, conversava inda mais vagorosamente que os movimentos dos cachorros vermelhos ou que a minha prosa arrastada ali providencialmente pudessem ser. Mas causava-me maior espécie não mesmo por aquilo, mas sim pela sua camisa de botões toda aberta, da qual havia vestido apenas uma das mangas, deixando a outra metade dependurada, ostentando à mostra quase todo seu barrigão de respeito. Ora, se a fadiga se dera quando decidiu por vesti-la, ou mesmo após, quando optara por tirá-la, fato é que num ou outro, havia feito pela metade – pelo que me fez ali sentir o maior dos juvenis no mister interiorano, devolvendo-me ao posto de moleque urbano forasteiro rural.

E de fato não havia pertencimento. Porque meu pé encardido calçaria um sapato lustrado logo na segunda e os mosquitos lambedores de suor dariam lugar ao ar condicionado de cada dia. Voltaria a falar corrente e organizar meu tempo a cada quinze minutos. Do mais, seria apenas visitante ali. Um turista que pagaria caro pelos cachorros vagabundos, pela cerveja quente e pela montanha que emoldurava o que meus olhos conseguiam alcançar.

O homem do meio

Houve um tempo longe meu em que importava o futebol, a nota na escola e a atenção de umas meninas – não nesta exata ordem, que aliás chegara a mudar mais de um par de vezes. Se bem da verdade de que não fazia muito feio em nenhuma das tais áreas do conhecimento, passava longe de ser um case de sucesso. Afora alguns raros momentos de felicidade ou de um desastre fortuito, ficava ali mesmo na meiuca; se não era daqueles pinçados para encabeçar os times da pelada, tampouco seria o último a ser escolhido – do que se repetia na vida. Monitorava ainda uns poucos afortunados pela natureza, outros esforçados acolá, que em suas especialidades próprias eram do que de mais alto se poderia mirar. E eu que nem tanto separado pela natureza também não me dispunha ao suor diário extra. Mas havia ainda uma terceira espécie de gente ainda mais rara, daqueles preciosos obstinados que concentravam na sua egoísta pessoa a expertise de tudo o que se pudesse almejar: os bonitões inteligentes e bons de bola. Destes até os dias de hoje, não consigo o afastamento necessário ao olhar crítico…

Vez ou outra, ainda tropeço numa história dessas de gente de sucesso. Daqueles que transformaram um fusca num império, que enxergaram oportunidades com olho de tandera; que venceram na vida. De uns líderes que arrastam multidão em eloquência de discurso, de outros artistas que se sacodem na teia de sua própria fama. E antes que pudesse ser capaz de atribuir alguns bocados do mérito a qualquer conspiração do destino, daquele negócio de pessoa certa no lugar certo, sou logo repreendido com ares superiores (e pelos próprios portadores dos louros), que o acaso está a serviço daquele mesmo que madruga. E daí, seguem-se as histórias cuja moral é o certo da dignidade trazida pelo trabalho duro, que a persistência nos leva aos maiores topos que um homem poderia frequentar.

É bem que se diga que a estes sempre derramei o que de mais precioso teria para oferecê-los: o meu sincero respeito e a mais profunda das admirações. Mas se o mais que de mim pudessem exigir, o querer repeti-los certamente que não. Talvez sim aqueles cujas conspirações do mundo e do destino os coloquem magicamente sobre os ares rarefeitos de cume. Porque há razões para querer invejar aqueles que venceram sem brigar. Mas aos ditos cases de sucessos, de quem entrega os minutos todos de sua energia pra um único objetivo, só admiração e olhe lá. Não que aqui exerça a apologia dos preguiçosos, mas certamente dos homens médios, lugar do qual sou assíduo frequentador desde menino, umas tantas vezes pelas minhas fatais limitações e outras por uma deliberada posição.

Pois na biografia daqueles, dignas dos best sellers mundiais, há o ponto comum da determinação e foco. Daquela obstinação de quem tem um sonho e vai atrás com a concentração das energias todas nascidas nas entranhas de um âmago certeiro. Li nalgum lugar destes, sobre alguém que na motivação sobre não desistir nos lembra a máxima murphyana de que normalmente a última chave é a que abre mesmo a fechadura, ou outro por aí que traz aquela pulga atrás da orelha ao advertir que muitos desistem por não saber o quão perto estão de conquistar. E sim, há muita sabedoria nos jargões motivacionais, mas suspeito eu que também há algemas, culpa e teimosia. Porque na defesa da conquista, o objeto da busca parece não se importar tanto. No culto aos vitoriosos, vale o sucesso. Quando se faz o corte entre os que chegaram e os que desistiram, todo preço vale e toda conquista é bem vinda em prol de se pisar no rol seleto dos bons.

Veja o quão de experimentar as calmarias de quem não se aperta no estreito decimal entre as notas 8 e 10. Porque o peso de sustentar-se, mata na ânsia de viver, como diz o poeta. Pelo bom de vez ou outra ali frequentar dá o gosto sem viciar no cuidado da distância segura doutro extremo.

Na terra dos homens médios,  há sim o incômodo com a mediocridade, mas há juízo de valor. Daquelas coisas de custo benefício mesmo. Porque por vezes o sacrifício não vale e o chegar lá, em abstração do gosto pelo pisar em chão seleto, não é assim o maior dos mundos. Porque há visão periférica na qual os aléns e aquéns do alvo também são caros e não carecem de ser desprezados.

O homem médio talvez não construa impérios e não invente a cura para a chikungunya. Mas ele come, joga bola e namora. Tudo de uma vez.

Madalena

Já faz um ano que Madalena está conosco e nossa casa definitivamente, não é mais a mesma. Pelo espalhado pela casa, brinquedos no chão e alguns outros enterrados por entre as frestas do sofá. É ela uma cachorrinha pug bastante particular. Daquelas de beleza excêntrica, que tem a cara preta, o corpo quadrado e o rabo enrolado. No caso de Madá, poderíamos acrescentar uma personalidade bem forte e uma certa dificuldade em cumprir combinados. Com um hábito de colecionar havaianas arrebentadas (que ela mesma produz) e marcar quase todos os nossos móveis de madeira com seus dentes afiados. Louca por cenoura – e pelo que mais se quiser dar é capaz de passar boa parte do tempo apreciando a paisagem monótona de rua sem saída pelo vidro da varanda.

Não poucas vezes, chegamos mesmo a desejar que ela pudesse trocar uma ou duas palavras. É porque as expressões e ações carregadas de espontaneidade enchem nossos dias de alegria. E se já é bem verdade que o simples olhar detido em sua figura já causa motivo de riso bastante, tanto mais suas artes e meiguices que ela despeja aos monte; do que nos fazem mais falta quando viajamos.

Mas das coisas que mais a definem é certamente sua curiosidade. Sempre tive cachorros antes de casar e sei que talvez seja assim com a maioria deles, mas Madalena bate recordes. Nunca a vi recusar nenhum tipo de alimento. Se bem que só come ração e verdura, não raro alguns acidentes acontecem na cozinha ou algum desavisado compartilha algum lanche do qual ela jamais faria desfeita. Em hoteizinhos, é preciso separá-la dos demais cachorros na hora da refeição para que ela não coma a comida de todos os outros. Além disso, seu lugar preferido na casa é a dispensa que funciona como depósito de tudo que não está sendo utilizado por nós. Ela é capaz de passar horas ali, só cheirando e descobrindo coisas novas. Qualquer objeto que oferecido a ela, vira um brinquedo e só o deixa de ser após ser completamente consumido. Uma escova de dentes, um chinelo velho, uma garrafa de plástico ou seja lá o que for…

Madalena em sua dispensa de consumo me diz. Sobre desejar o que o focinho aponta, sobre comer de tudo. Em decisões pelo que oferecido diante dos olhos. Sobre abanar o rabo ou não escolher seus brinquedos. Em lugares onde falar já não faz tanta falta, importando o querer sobre o ponderar, Madá sabe bem apontar o dedo…

A casa de Deus

Como quem compra uma casa vazia. Vê os cômodos todos nus, mas já enche os seus olhos de planejamentos. Em seu olhar de perspectiva, não enxerga um imóvel, mas sua morada – um lar. Um sofá ali, o fogão, a geladeira… um quadro ou um vaso no canto da mesa.

O visionário já vê tudo pronto e lança a direção para o seu plano ideal concluído e ali se alegra. Cada coisinha adquirida tem o seu propósito e vai sedimentando um sonho em realidade. Há um lugar pra se olhar, um desafio audacioso de perfeição.

Jesus poderia ser chamado assim. Nos compra como uma casa vazia que aos poucos se enche de perfeição dentro daquilo que chamou santidade. Lá ele nos enxerga e com todo cuidado nos ensina a olhar adiante, mirando o que viremos a ser. E com os olhos no alvo, seguimos rumo ao eterno.

Anotações de regresso

Dizia que gente foi feita mesmo é pra ser feliz. Veja que razão não há para o sofrimento em si… Que na vida, melhor coisa é ganhá-la com o suor que escorre pelo rosto, mas fazendo o que se gosta, como que se de graça pudesse fazê-lo.  É cercar-se de bons amigos e colecionar memoráveis momentos; estar perto de quem lhe faz bem. Ter encaixada a mente sadia em corpo são… respirar uma fé de um espírito tranquilo!

E aqui a feitura do homem cheio de si. O modernóide que na felicidade fim instrumentaliza relações em trampolim de sua satisfação. Como se a sua integração com o mundo tivesse a finalidade de realizá-lo, fazê-lo feliz. E assim também com um Deus que o basta na medida em que o conduz para uma vida sem sofrimento, num relativismo próprio da verdade de prateleira que melhor lhe veste. E ali, o descontentamento próprio de uma felicidade sob medida, comparativa, invejosa porque construída na fragilidade de um egocentrismo. E veja-se que até as posições mais altruístas fazem-se vis, eis que intimamente ligadas com o umbigo de quem se gloria de sua própria bondade ou faz mitigar a culpa de uma alma glutona.

O ideal de felicidade moderno se instalou no credo cristão atribuindo-se uma inofensividade legítima, sem escancarar o real propósito por detrás – a escravidão de sua busca. E talvez haja certa tranquilidade bíblica em se dizer que o homem não fora criado para ser feliz. Ou pelo menos, não para o que se diz por aí ser felicidade. Tenho que a criação carrega como propósito de existir o servir e glorificar ao único Deus. Este é o fim a que o indivíduo deve perseguir; não a felicidade! Não há dúvidas de que um homem alinhado com o seu propósito existencial encontra uma felicidade transcendente, justamente porque ela não é o seu fim, mas o efeito colateral de uma genuína adoração. Resultado de uma ordem no caos, de valores restabelecidos, de um amor imitado.

Assim, a felicidade cristã não encontra uma morada ou um espaço no tempo. Não atende por uma profissão ou por uma habilidade desenvolvida pelo justo de que as ferramentas não se confundem com o ofício. Tendo o certo de que importa mais a forma de se fazer, na certeza de que tudo nos é dado. De que os números são das coisas mais insignificantes no Reino a qual pertencemos e a beleza é o próprio significado de dar de volta sem o compromisso de devolver, prestando culto ao Autor, num sentimento de infinita gratidão.

O boi

O rebanho pisa o pasto, a grama que ele mesmo come. Não se importa com o açoite; manso recebe o castigo sem assimilar. O rebanho não pensa, mas apenas anda quando tocado. Não toma conhecimento do cercado e engorda sua carne pro dia de matadouro.

 

 

 

O rebanho come o pasto, na ciência que lhe é dado. Sem se preocupar com o do dia outro, visto ser tudo de graça. Manso porque anda o caminho pelo simples de ser tocado, no passo do berrante. Não toma conhecimento do cercado, eis que o arame faz parecer um tanto quanto questão de referencial. Engorda pro dia do matadouro, porque dar-se é ter a vida de novo, e assim todos os dias.

Gôndola

O menino tinha fome e o pai autorizou que fosse então ao mercado comprar algo para o almoço. O menino logo sugeriu uma macorronada, seu prato preferido, pelo que o pai assentindo, apenas advertiu para que se atentasse à data de validade e escolhesse uma massa que levava ovos, por ser mais gostosa. Por fim, entregou-lhe uma nota de reais, dizendo que o troco seria do garoto, para que comprasse uma sobremesa ou guardasse em seu cofrinho.

O menino então no supermercado, diante da gôndola, fora recebido com uma infinidade de marcas diferentes. Formatos de massas, cores e preços para qualquer gosto. Quanto a tais coisas, o pai nada tinha advertido. Receou receber um castigo caso levasse o macarrão errado ou um caro demais, mas lembrou-se dos dois únicos conselhos: a validade e a massa de ovos.

Firmado em tais orientações o menino fechou os olhos e imaginou o macarrão que gostaria de comer. Seria aquele fininho, da massa achatada, à bolonhesa e com azeitonas. Separou os ingredientes na cesta e, ao passar no caixa, guardou as moedas do troco no bolso da calça – compraria um sorvete de pistache pra depois do almoço!

Chegando em casa, o menino deixou a sacola depressa em cima da mesa da cozinha e disparou em direção ao quintal com a bola debaixo dos braços. Em alguns instantes o macarrão ficaria pronto e ele já estava com muita fome.