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Gabriel Lazarotti

Sobre Gabriel Lazarotti

Redimido pelo amor de Deus. Discípulo de Jesus que segue por este Caminho. Um sincero apreciador da criação. Pretenso poeta todo o tempo, advogado e músico nas horas vagas.

Seus nomes estão escritos no céu

Uma amiga paranaense disse-me a certa altura que eu poderia escrever com mais leveza, com o que concordei. Ao longo desses 7 anos de blog já escrevi sobre muitos temas diferentes e com variados tons, de puxões de orelhas a posts afagadores. Posso garantir: na maior parte deles a minha vida era o substrato. Se o post não serve para mim, então ele não serve para mais ninguém. De que adianta apontar a ferida do outro e não tratar a minha?

Não expliquei, contudo, a razão da minha amiga. Muitas vezes o mundo e a vida são pesados demais para mim e os detalhes que poderiam ser mais simples acabam tornando-se verdadeiros fardos.

Como você lida com a vida?

Eis um lugar comum contemporâneo chamado “deboísmo”. Não é a minha intenção defender essa prática, porque não sei bem do que se trata – rsrs, mas se cremos que um encontro verdadeiro com Jesus tem o poder de conciliar passado, presente e futuro de nossa vida, então ela pode ser mais leve e os eventos que nos ocorrem podem ser encarados com mais naturalidade.

Não consigo contemplar tudo o que tema exige nesse post. Se completo fosse, mencionaria o lugar da responsabilidade humana cooperando ativamente com a graça de Deus, escreveria sobre o legalismo, citaria a culpa, tentaria explicar a busca pela felicidade e o estado permanente da alegria e arrumaria, por fim, um lugar para as frustrações e tristezas.

Então, resta-me apenas sugerir: pare a correria do dia-a-dia por um momento, suspenda, alguns minutos, a lista das tarefas que você tem por fazer e lembre-se que todas as coisas já foram feitas em Cristo. É isso mesmo: Ele fez todo o trabalho!

Não há culpa e não há tristeza no nosso tempo capaz de superar a alegria de ter nosso nome escrito no céu! Veja:

“(…) alegrem-se porque seus nomes estão escritos no céu.” (Lc 10:20)

É verdade que “os nossos nomes estão no livro da vida” (Fp 4:3) e isso é o bastante para entendermos o infinito amor de Deus por nós. Saber acerca de tudo o que Ele criou, tudo o que Ele sustenta com o amor e que Ele está nos levando para a Jerusalém celestial determina o nosso olhar para vida.

É que olhando pra Jesus e caminhado com Ele a vida fica mais leve…

P.S. Obrigado, Rúbia, pelo insight :)

A lógica da Esperança

Esperança só faz sentido no contexto cristão, sem o qual ela perde o seu significado. É uma das três virtudes que organizam a existência cristã.

Dito isso, lembrei-me de uma conversa recente que tivemos eu e o Homero. Falávamos a respeito do quanto essa geração que se encontra entre os 20 e 30 anos é ansiosa em vários aspectos, especialmente na área sentimental/relacional, onde também me incluo. O curioso é notar que essa ansiedade revela uma carência afetiva que nos leva a tomar decisões meio precipitadas.

É que o homem e a mulher contemporâneos tem dificuldades com projetos de longo prazo. Afinal, ninguém gosta de esperar por nada, certo? A mera demora no whatsapp já configura grande ofensa. Imagine se a espera for por coisas mais importantes? Então, o sofrimento será ainda maior. Chamamos de PRESENTISMO aquilo que desvela nossa relação desequilibrada com o tempo.

Surge a seguinte questão: como lidamos internamente com o tempo?

O presentismo não deveria ser parte da vida do cristão, para quem o tempo já se encerrou em Cristo. A contagem e a percepção do tempo para os que estão firmados em Jesus são diferentes, porque cheias de Esperança.

Note que a Esperança é o que está adiante de nós, é o que nos leva a caminhar para um futuro que existe, que é certo e que legitima a jornada, porque é algo melhor do que existe hoje.

A Esperança nos faz lidar do jeito certo com o tempo e ajusta a nossa forma de viver ao relógio divino. Ter esperança envolve convicção e paciência. Portanto, é algo tão importante que não pode ser apenas um sentimento, mas a virtude em torno da qual devemos organizar nossa existência.

A ansiedade e a carência na área sentimental/relacional ficam mais evidentes no momento em que desejamos tudo para ontem, quando buscamos pretensiosa e incansavelmente pelo outro ou outroS. Importante mesmo é orar, discernir e ter foco.

Não queremos com isso defender que a Esperança é uma postura passiva, antes é atitude, é o que temos dito: uma atividade de descanso no Senhor. Tudo o que aqui escrevemos serve para todas as dimensões da vida, embora tenhamos elegido apenas uma para melhor compreensão.

A esperança cristã não é falta, é expectativa. Ela ajuda o cristão a desenvolver uma estrutura moral de paciência, a lidar com sentimentos, com a frustração e contribui para a reinterpretação do sofrimento.

Olhe pra Jesus e lembre-se para onde você tem caminhado e que a Esperança fecha o quadro de nossas vidas, dá sentido para as coisas e nos leva a ter uma gratidão autêntica.

Meios de graça: a Palavra de Deus

Quando ouvi pela primeira vez a respeito dos meios de graça, foi uma revolução para mim e isso não faz muito tempo. Então, não se assuste caso eu use uma ou outra palavra menos conhecida, porque o que importa mesmo é o conteúdo que gostaria de levar adiante.

Apenas para recapitular: os meios de graça são canais por intermédio dos quais Deus comunica sua graça conosco. OK? A graça salvadora de Deus, que o amigo Pablo conceituou tão bem dias atrás, não fica restrita ao dia que confessamos Jesus como Senhor e Salvador, mas continua nos acompanhando na nossa caminhada com Deus, contribuindo para que sejamos os homens e as mulheres que Ele gostaria que fôssemos.

O primeiro meio de graça que listei na introdução foi a Palavra de Deus. Portanto, ouvir as Escrituras é um meio de graça, a exposição pública da Palavra nos fornece graça. Claro que a leitura como disciplina individual é valiosíssima, mas cristãos que se expõe muito pouco ao ensino da Palavra em sua comunidade de fé são pessoas com menos recursos pra ter uma vida santificada. Esse quadro conduz a uma espiritualidade frágil, e é óbvio que esse cristão tem mais chance de declinar da fé, pois ele tem uma experiência empobrecida de cristianismo se ele não participa da exposição pública da Bíblia, em que há estudo, interpretação correta, oração, etc.

De onde veio essa ideia que a Palavra tem que ser pregada? O cristianismo está sempre comunicando a Palavra. “Como ouvirão se não há quem pregue?” ensina o texto bíblico. Então, por que o cristão tem que se expor a palavra pregada? Por várias razões, mas no princípio Deus criou o mundo pela Palavra, criou falando. Qual é a grande revelação da fé judaico-cristã? Que existe um Deus que criou intencionalmente o mundo e com a Sua Palavra organizou a realidade.

Veja a nossa gramática: toda frase tem sujeito, predicado e um verbo pra conectar o sujeito e predicado. O que conecta as coisas no mundo é o Verbo. Isso é uma ordem criacional e não é só gramatical. A nossa gramática respeita uma ordem, mas reproduz a ordem de como o mundo funciona. Não tenho dúvidas de que Deus está relacionando e conectando as coisas umas às outras.“Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo surgiu.” (Salmos 33:9) Desse modo, podemos concluir que a nossa experiência com a realidade é mediada por Sua Palavra, porque ela é o fundamento pelo qual Deus traz sentido ao mundo.

Chamou Adão e Eva, chamou Abraão pela Palavra, convocou Moisés pela Palavra e o deu a Palavra nas tábuas. Continuou guiando o povo pelo deserto com a Palavra, renovou o pacto com Josué pela Palavra, levantou os profetas com a Palavra, eles anunciaram a Palavra. “Pois, a lei sairá de Sião, de Jerusalém virá a palavra do Senhor.” Isaías 2:3 Neemias e Esdras leram a Palavra e o povo se arrependeu e chorou.

De alguma maneira o pecado que foi introduzido no mundo trouxe desordem e fez com a que a terra ficasse sem forma novamente, por isso Deus precisou reintroduzir o Verbo. Nós precisamos de um verbo entre o que somos e o que devemos ser.

Se renegamos a Palavra de Deus como núcleo de sentido de nossa existência, então começamos a inventar o nosso próprio sentido. A autonomia do homem.

Você quer que Deus escreva sua biografia ou você mesmo quer escrever sua biografia?

Deixar que Deus escreva sua biografia é exatamente se expor a narrativa de Deus, que é a sua Palavra. Deus precisa narrar quem Ele é pra você,  precisa proclamar a reputação dEle pra você. Não é sem razão que a Bíblia ensina sobre a sabedoria da Palavra e da Lei. A nossa experiência com a vida precisa ser mediada pela Palavra.

Qual é o ápice desta narrativa? Deus radicaliza quando decide introduzir em carne a Palavra dele no mundo. É que Deus já vinha falando, falando, mas nesses dias resolveu falar de maneira pessoal e, então, a Palavra foi dramatizada no corpo de Jesus. Olhe pra Jesus e verá a minha Palavra, ensina o Senhor. Por que o verbo se fez carne? Para conectar sujeitos e predicados.

O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa.” (Hebreus 1:3)

Qual tem sido sua relação com a Palavra? Com que frequência você ouve a exposição comunitária das Escrituras?

Meios de graça: introdução

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” Efésios 2:8,9

“Pela graça sois salvos” é uma expressão bíblica muito usada por nós. E a razão é simples: para romper com uma visão romanista de salvação que incluía boas obras, a ênfase na graça precisava ser marcante. Não é que para os católicos romanos a salvação venha exclusivamente pelas boas obras, mas crêem ser uma tarefa sinergista, isto é, há duas forças concorrendo para que ela aconteça, a proveniente de Deus e a que vem do homem não regenerado que exerce fé. Contudo, os principais reformadores eram monergistas e criam que o Espírito Santo opera sozinho a obra da regeneração, abre os olhos cegos, os ouvidos surdos e transforma corações de pedra em corações de carne.

Mas o que gostaria de colocar hoje é que salvação é um pacotão de coisas que Deus está fazendo pela graça em nós. O problema é que associamos salvação somente à conversão, ou seja, muitos creem que depois da conversão não há mais atuação da graça, o que não é verdade.

Francis Schaeffer dizia que o paradoxo que explica a caminhada do cristão é a atividade passiva e passividade ativa, ou seja, essa é a sua santificação. Em certo sentido, o cristão tem que agir, mas o agir do cristão é uma ação descansada, confiante na graça de Deus. É um duplo movimento, portanto.

Então, o que são meios de graça? Graça salvadora sendo comunicada por canais de comunicação de Deus. Todo o processo iniciado no momento em que entramos na história de Deus é gracioso. Durante todo o percurso de nossas vidas nós precisamos da graça de Deus porque foi a graça que nos salvou, mas também foi ela que nos fez orar hoje, que nos inquieta para estudar a Palavra, que nos dá recursos pra resistir ao pecado, enfim. Ser cristão não é difícil, é impossível. “Sem mim nada podeis fazer” foi o que Jesus disse, então é fácil concluir que não existem boas obras fora de Cristo. Assim, Deus vai comunicando esses recursos para que nós sejamos plenamente salvos.

São meios de graça: a) a Palavra;
b) os Sacramentos (batismo e ceia);
c) a Oração.

“Canais objetivos que Cristo instituiu na igreja, e aos quais Ele se prende normalmente para a comunicação da Sua graça. Naturalmente, estes nunca podem dissociar-se de Cristo, nem da poderosa operação do Espírito Santo, nem da igreja, que é o órgão designado para a distribuição das bênçãos da graça divina. Em si mesmos, eles são completamente ineficientes, e só produzem resultados espirituais positivos mediante a eficaz operação do Espírito Santo… Eles são instrumentos, não da graça comum, mas da graça especial, da graça que remove o pecado e renova o pecador, em conformidade com a imagem de Deus. É verdade que a Palavra de Deus pode enriquecer, e nalguns aspectos realmente enriquece os que vivem sob o Evangelho com algumas das mais seletas bênçãos da graça comum, no sentido estrito da expressão; mas ela, e também os sacramentos, entram em consideração aqui somente como meios de graça no sentido técnico da expressão. E, neste sentido, os meios de graça sempre estão relacionados com a operação inicial e com a operação progressiva da graça especial de Deus, que é a graça redentora, nos corações dos pecadores.” (Louis Berkhof)

alvoreceres

Foram os dias que mais bela tornaste
tu que ainda jovem, o amor conheceste
Fizeste de canto em canto a poesia
guardaste mais que tua idade teria

Ação do eterno em teus passos
incontáveis graças outrora esquecidas
mas a ti coube render-te em gratidão
a ele, sobremaneira admiração

Continuas a escrever a história porque
não foste tu, mas os céus que se lhe abriram
Semeie, regue, plante, permita-se
pois és poema, canção, amor e sabes do Verbo

Canção, quem te fizeste linda?
Poema, quem lhe acentuou eternamente a métrica?

Ao alvorecer nova dádiva,
nova chance, novos tudos, pois
há palavras a serem postas
Ao autor da biografia esse pedido

Que saibas o que poucos sabem
que vejas o que não vêem
Sobretudo, que, no amor,
o alvorecer dura eternamente. Amém.

 

Você é o que você ama

Há um consenso contemporâneo de que somos aquilo que pensamos e a fundamentação dessa amarga repetição surgiu há alguns séculos com René Descartes, quando afirmou: “penso, logo existo”.

Em sua opinião, nossas disposições mentais seriam capazes de determinar aquilo que somos? Temos diferentes concepções acerca da realidade e muitas conclusões a respeito de quase tudo, o que faz de nós meros “pensadores-de-coisas”. Será?

Veja, por exemplo, o caso dos estudos sociológicos sérios sobre a cosmovisão (concepção de mundo) de um determinado povo. Os pesquisadores nunca chegam até um local e entrevistam os seus moradores nativos para saber como pensam e concebem o mundo a nossa volta, ao contrário, observam seu comportamento em determinado período e, por meio de sua conduta, chegam ao formato do que seria a cosmovisão regional.

Você provavelmente já saiu de uma palestra de domingo, de uma missa, ou de um culto muito impactado com as ideias que foram apresentadas e a partir delas traçou novas resoluções para a vida. Eu já o fiz. O mais frustrante é que não raro enfrentamos uma enorme dificuldade de implementá-las e elas acabam não saindo do papel.

Isso ocorre porque não entendemos o poder do hábito e isso se aplica para qualquer hábito que gostaríamos de destruir ou de adquirir. Falando especificamente de nossa vida devocional, muitas vezes não conseguimos aplicar as resoluções porque Jesus não é o organizador de sentido de nossa existência. Ora, se Cristo não ganhar as nossas entranhas, não nos afetar, não teremos recursos suficientes para experimentarmos mudança. Acontece que nós desejamos pouco demais porque desejamos carros, viagens, sucesso profissional, mas se desejarmos visceralmente, no mais profundo íntimo, o Filho, descobriremos a nova humanidade. Somos mais que pensantes, somos amantes. Abaixo um trecho do livro You Are What You Love do filósofo cristão James K. A. Smith:

Jesus é um professor que não apenas informa nosso intelecto, mas forma nossos amores. Ele não se contenta em simplesmente depositar novas ideias em sua mente; ele está atrás de nada menos do que seus desejos, seus amores, seus anseios. Seu “ensino” não apenas toca no calmo, fresco,dos coletados espaços de reflexão e contemplação; ele é um professor que invade as regiões aquecidas, apaixonados do coração. Ele é a Palavra que “penetra até a divisão da alma e do espírito”; ele “discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb. 4:12) 

Não é o que diz Paulo em sua oração pela igreja que se reunia em Filipos?

Esta é a minha oração: que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção,para discernirem o que é melhor, a fim de serem puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo, cheios do fruto da justiça, fruto que vem por meio de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus. Filipenses 1:9-11
Perceba a sequência  da oração de Paulo. Ele ora para que o amor deles cresça mais e mais porque, em algum sentido, o amor é a condição do conhecimento. Não é que nós conhecemos, adquirimos conhecimento a fim de amar, mas nós amamos a fim de conhecermos.
Qual é o melhor caminho, qual tem a maior importância? Paulo nos responderia que certamente é o caminho do amor. O lugar para começar é organizando nossos amores a partir de Cristo.

Lembra-se daquela frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece”? Pois bem, Blaise Pascal não a usou num contexto de amor romântico, mas para dizer que o coração (conceito bíblico para a sede das emoções e centro da existência) governa o homem. É ele quem dirige seus passos e sua razão. Amamos a ‘coisa’ com a qual gastamos mais tempo, amamos aquilo que investimos todas as forças, em que apostamos todas as fichas. Somos mais que conhecimento, e é urgente uma compreensão mais holística do Evangelho. Sem antintelectualidade, mas compreendendo que há em nós sonhos, desejos e vontades. Então, se Jesus não ganhar os seus afetos e se você não ordenar os seus desejos, sonhos, amores, em torno do Criador, nada muda e você continuará distante do Pai, porque somos o que amamos.

Essa tem sido a minha luta a partir de hoje: desejar Cristo visceralmente.

 

***Ideias extraídas do livro You are what you love (James K. A. Smith)

Muitas riquezas e muitas pobrezas

Conheci pessoalmente o Pedro Dulci ano passado, mas antes já havia lido o seu livro “Ortodoxia Integral”. Vi também algumas palestras dele e posso garantir: o Pedro é um prodígio. Cara novo e sabe muito de filosofia e teologia. Ele faz parte do Movimento Mosaico (siga no facebook e no instagram @movimentomosaico), uma plataforma relacional que tenta integrar muitos segmentos da igreja de Cristo no Brasil. O Rafael Pijama e tantos outros caras legais estão por trás desse projeto. De uma certa forma tenho caminhado com eles, o que tem me ajudado muito! Creio muito na complexidade do significado de pobreza, que não é restrito apenas ao contexto econômico. Veja o texto do amigo Pedro logo abaixo. Aproveite!

 

“O terceiro capítulo do livro dos Atos dos Apóstolos narra que os apóstolos Pedro e João se dirigiam ao Templo para orar. Na porta do Templo estava um deficiente físico que era colocado ali todos os dias para pedir esmolas. Ao ver os dois discípulos de Jesus esse homem implora por algum dinheiro. No entanto eles o respondem da seguinte forma: “‘Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isto lhe dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande’. Segurando-o pela mão direita, ajudou-o a levantar-se, e imediatamente os pés e os tornozelos do homem ficaram firmes. E de um salto pôs-se de pé e começou a andar. Depois entrou com eles no pátio do templo, andando, saltando e louvando a Deus” (At 3.6-8).

Com certeza, o tema desse trecho bíblico é o testemunho incrível do poder de Deus operando no meio dos homens – que tinha valor relativo à pregação do evangelho que ele imediatamente desencadeou (At 3.11-26). Entretanto, o que nos chama atenção nesse relato são alguns detalhes desse testemunho do poder do Espírito Santo. A rotina espiritual de oração dos apóstolos foi interrompida pela carência monetária de um desconhecido das ruas de Jerusalém. Essa pobreza econômica não é suprida pelos apóstolos – por também não disporem de nenhuma riqueza econômica para dar. Entretanto, naquilo que eles eram ricos o deficiente físico recebeu – tão somente porque Pedro e João se dispuseram a dar.

Muitas riquezas e muitas pobrezas foi uma forma que encontramos de comunicar essa disposição apostólica de compartilhar aquilo que temos – uma prática característica da vida da Igreja no poder do Espírito Santo. Pedro e João sabiam que essa riqueza não era deles (At 3.12). Eles haviam sido enriquecidos pelo Senhor Jesus e tributavam à glória dele toda administração do que tinham. Era consenso na doutrina apostólica que: “a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo. Por isso é que foi dito: ‘Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativo muitos prisioneiros, e deu dons aos homens’” (Ef 4.7-8).

A Igreja do Senhor Jesus no Brasil também precisa tomar consciência de que todos os seus membros foram enriquecidos por Cristo: “nele vocês foram enriquecidos em tudo, em toda palavra e em todo conhecimento, porque o testemunho de Cristo foi confirmado entre vocês, de modo que não lhes falta nenhum dom espiritual, enquanto vocês aguardam que o nosso Senhor Jesus Cristo seja revelado” (1Co 1.5-7). Somos ricos da Palavra de Deus, do conhecimento da verdade e dos diversos dons espirituais. Isso não apenas nos dá certeza da esperança da volta do nosso Senhor Jesus, como também uma responsabilidade de repetir o gesto apostólico de reconhecer o que não temos, e repartir o que temos, no Nome de Jesus Cristo (cf. At 3.4).

Muitas riquezas e muitas pobrezas é um projeto de reforma e transformação da realidade.  No entanto, cremos que nossa presença só poderá ser fiel ao chamado de Cristo para o lugar em que estamos quando tivermos nossos corações transformados. A semelhança dos discípulos, quando formos capazes de reconhecer nossas pobrezas, repartir nossas riquezas e discernir quem precisa ouvir “levanta e anda” e quem precisa ouvir “Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados” (At 3.19). Dentre outras coisas, isso significa aplicar o mandato de mordomia daquilo que Deus nos deu às diversas modalidades da realidade. Temos total consciência das carências econômicas do próximo, mas não podemos reduzir ao monetário aquilo que pode ser urgente arrependimento espiritual, necessidade ética, reparação jurídica, enriquecimento estético, reconciliação histórica, e assim por diante.

Trecho extraído do livro: “Muitas Riquezas Muitas pobrezas” a ser lançado pelo Movimento Mosaico em 2016 (Pedro Dulci, Ed).

Nossa adoção

“Tenho usado figuras de linguagem para comunicar estas coisas, mas em breve vou deixar de lado as figuras e falar claramente a respeito do Pai.”  [João 16.25]

Na época de Jesus, a maioria das pessoas acreditava que havia um Deus, mas poucas pensavam nele co carinho. Para aqueles que, relutantemente, o respeitavam como um legislador distante ou, timidamente, temiam-no como um juiz irritado, Jesus proclamou-o como Pai e demonstrou um relacionamento pessoal com ele em amor.

Como a palavra “pai” muda suas ideias acerca de Deus?

“Nosso Pai do céu, revela-nos quem tu és. Dá um jeito neste mundo. Faze o que é melhor – tanto aí em cima quanto aqui embaixo. Conserva-nos vivos com três boas refeições. Preserva-nos perdoados por ti e perdoando os outros. Guarda-nos de nós mesmo e do Diabo. Tu estás no comando! Tu podes fazer tudo o que quiseres! Tua beleza é fascinante! Amém. Amém. Amém.”

A Soberania de Deus

Nem um único espaço de nosso mundo mental pode ser hermeticamente selado em relação ao restante, e não há um só centímetro, em todos os domínios da nossa vida humana, sobre o qual Cristo, Senhor de tudo, não clame: é Meu!Abraham Kuyper

Agora me diga:

  1. Você considera esse trecho coerente com as Sagradas Escrituras?
  2. Quais são as consequências do que foi dito acima para a nossa vida?

Cristãos em um mundo plural

Por Igor Miguel

Vivemos em uma era em que defender uma ideia em relação a outras é quase considerada uma arrogância, uma postura etnocêntrica.  Também é verdade que com relativa frequência, paixões ideológicas, nacionalistas ou religiosas podem ser pouco abertas ao diálogo.  Porém, em tempos de cultura líquida este tem sido um mal menor.  Considere que entramos de cabeça na era da incerteza, qualquer convicção poderá ser execrada facilmente.

Precisamos reconhecer que não vivemos mais à sombra da cristandade.  Agora, sob uma sociedade que se laicizou, temos que aprender a viver em uma cultura que é crescentemente pluralista.  A angústia e a incerteza se intensificam, talvez por este motivo, convicções ainda são importantes.  Não subestime a sede humana por segurança existencial e a necessidade de crenças absolutas.  Infelizmente, esta tem sido uma das razões da adesão ao islamismo radical em ambientes culturalmente secularizados como a Europa pós-cristã, por exemplo.

Então, como ter convicções em um ambiente pluralista? Na pós-modernidade, convicção em si não é um problema, mas é um escândalo quando afeta sua opinião sobre questões de interesse comum ou quando ela é publicizada. Por isso que tanta gente confunde laicidade com secularismo.  O secularismo não permite convicções públicas de origem religiosa, só as autoriza quando reclusas à vida privada ou ao “templo religioso”.  O elemento mítico é evidente!  Obviamente que é impossível separar indivíduos de suas convicções ou visão de mundo.  Defender uma “neutralidade confessional” na esfera pública é cair na armadilha secularista.  Para o cristão, ao contrário, sua convicção deve ter o mesmo peso que tinha na pena de C.S. Lewis: “Eu acredito no cristianismo como acredito no sol, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todo o resto.”

A presença pública do cristão deve ser total.  O modo de ser do cristão é um grande testemunho da autenticidade da fé que ele professa.  Em tempos de ceticismo e pluralismo, a vida cristã deve ser encarada também como plataforma apologética.  A defesa verbal da plausibilidade e da veracidade do Evangelho deve ser acompanhada de uma vida autenticamente afetada por essa verdade.  Não estou me referindo apenas a uma vida moralmente correta, o cristianismo é muito mais do que moralismo, refiro-me a um lugar específico onde todo cristão deveria residir: Cristo, este crucificado e ressuscitado.  Situar-se em Cristo é se colocar em uma posição singular, é perceber e agir no mundo a partir do centro de gravidade da história.  Estar e crer em Cristo é imaginar a história e ser colocado no mundo sob a irrefutabilidade da pessoas de Jesus.

O cristianismo não é dono da verdade, ao contrário, a Verdade é que é sua dona.  Tim Keller proclama:  o cristianismo não tem ‘um argumento irrefutável, mas uma pessoa irrefutável’.  Por esta razão, o cristão deve se lembrar que o maior interessado na evangelização é o próprio conteúdo da mensagem evangelizadora, Cristo.  Evangelizar é demonstrar que realmente estamos interessados nas dúvidas, angústias e o ceticismo das pessoas, e que temos uma boa nova para lhes contar: “Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo.” (Apóstolo Paulo).

Enfim, consideremos que nosso mundo mudou drasticamente, é verdade, porém o cristianismo sempre foi desafiado a manter seu núcleo ortodoxo intacto na medida que demonstra a relevância de sua fé para as angústias e desafios de seu tempo.  Talvez, mais do que nunca, nós cristãos, somos desafiados a erguermos a verdade evangélica de maneira franca porém dialógica, comprometida e acolhedora, ortodoxa e engajada, e finalmente, relacional mas sempre intencional.  A ironia pode ser que o pluralismo que tantos temem acabe por se tornar uma grande oportunidade para que nosso cristianismo se mostre, mais uma vez, um luzeiro em um mundo onde utopias e grandes projetos civilizatórios fracassaram.

*Texto retirado do blog http://pensarigor.blogspot.com.br/