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Gabriel Lazarotti

Sobre Gabriel Lazarotti

Redimido pelo amor de Deus. Discípulo de Jesus que segue por este Caminho. Um sincero apreciador da criação. Pretenso poeta todo o tempo, advogado e músico nas horas vagas.

Uma resposta ao amigo brasiliense

Dias atrás, escrevi um texto a respeito da dinâmica política de nosso país. Em seguida, o meu grande amigo Eduardo Victor publicou um comentário com suas objeções ao meu texto. Tivemos boas conversas privadas a partir dele, regadas a amor e desejo sincero de compreender um ao outro. Edu e eu andamos juntos há pelo menos 13 anos, portanto, não poderia ser diferente.

Seria muito importante indicar que faço uso da tradição cristã reformada – especialmente a vertente de Abraham Kuyper, Herman Dooyeeweerd e, alguma coisa, de Francis Schaeffer – para o diálogo que proponho entre cultura e cristianismo bíblico.

Contudo, não quero alongar-me nesses pontos. Existe alguma coisa no comentário do Edu que me retira o desejo de respondê-lo contrapondo-o e acaba por dirigir-me a interagir com ele de outra maneira.

O Peso de Glória (C. S. Lewis)
“Tanto vocês quanto eu precisamos do sortilégio mais forte que se possa encontrar para nos despertar do mau encantamento dessa mundanidade que se abateu sobre nós há quase um século. Quase toda nossa formação foi direcionada para silenciar essa voz interior reprimida e persistente; quase todas as nossas filosofias contemporâneas foram concebidas para nos convencer de que o bem do homem deve ser encontrado nessa terra. E é de chamar atenção que as próprias filosofias de Progresso e de Evolução Criativa guardam um relutante testemunho da verdade de que nosso objetivo está em outro lugar que não é este aqui. Quando essas filosofias tentam convencê-los de que esta terra não é o seu lar, notem como fazem isso. Começam tentando persuadi-los de que a terra pode transformar-se em céu, dando-lhes assim uma amostra grátis muito pálida para acalmar sua sensação de exílio na terra tal como ela é (…) Por fim, com medo de que seu anseio pelo transtemporal desperte e estrague tudo, essas filosofias usam de qualquer retórica que lhes venha a mão para manter-lhes afastada da mente a lembrança de que, mesmo se toda a felicidade que elas prometem pudesse ocorrer ao homem na terra, cada geração a perderia com a morte, incluindo a última de todas as gerações.”

Colossenses 3:1-4
“Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.”

A vida tal como experimentamos hoje nesse corpo mortal é por um instante. Existem muitas coisas que devem ser feitas nesse momento da eternidade, mas ainda mais importante é fixar nosso olhar para a Nova Jerusalém e ligar o nosso coração na Esperança que há no Cristo ressurreto.

Obrigado, Du, pela oportunidade de dizer sem receio o maior desejo do meu coração.
Abraços do amigo de Belo Horizonte.

Eleições em 2017: diretas e indiretas trazem o mesmo o grau de instabilidade

Muitos defendem que, caso Temer saia por quaisquer das vias disponíveis hoje, a Constituição deveria ser estritamente seguida e as eleições para o cargo vago de Presidente da República deveriam ocorrer de maneira indireta. É isso o que nos ensina o artigo 81 da Constituição da República Federativa do Brasil:

“Vagando os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga.§ 1º Ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei.§ 2º Em qualquer dos casos, os eleitos deverão completar o período de seus antecessores.”

Mas você sabe o que é uma eleição indireta?

A eleição indireta para Presidente da República é a eleição cujos eleitores são apenas parlamentares, membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Na prática, isso significa que se o Temer sair amanhã, haverá uma eleição para a qual você não votará.

Ora, mas qual é o problema de não participar dessas novas eleições, uma vez que essa é uma determinação constitucional?

Você já deve saber que mais da metade dos deputados e senadores desse país estão implicados na maior operação contra a corrupção de nossa história. Já está provado que em momentos de crise institucional, a classe política não retrocede, mas avança contra o povo a fim de permanecer no poder. Essa já seria uma defesa importante para as eleições diretas,  porque se falta legitimidade aos nossos representantes, eles não devem eleger o novo Presidente.

É verdade que todo rompimento constitucional deve ser analisado com cautela. Contudo, apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para admitir as eleições diretas no cenário que vem sendo desenhado não é uma afronta ao sistema constitucional. Note o que diz o art. 60 da CRFB/1988: “Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I – a forma federativa de Estado; II – o voto direto, secreto, universal e periódico; III – a separação dos Poderes; IV – os direitos e garantias individuais.” Portanto, não há nenhuma cláusula pétrea que seria atingida com essa proposta. PEC’s vem e vão. São votadas, rejeitadas ou aprovadas todos os anos.

Há quem argumente que uma PEC dessa natureza cria precedente e desestabiliza a república. Em primeiro lugar, uma PEC não é uma mudança temporária e em segundo lugar, a República já sucumbiu há bastante tempo. As estruturas de poder fedem apodrecidas e seguem perpetrando injustiça nesse país tão sofrido. Pouquíssimos fogem à essa regra porque nosso problema é também estrutural.

A minha tese é: embora prevista na Constituição, a eleição indireta traz o mesmo grau de instabilidade para a República. A menção constitucional à eleição indireta limita-se a um ínfimo parágrafo dentro de um pequeno artigo. Além disso, a Carta Magna previu que uma lei regulamentaria essa eleição indireta, mas essa lei não existe. O que temos hoje é uma legislação desatualizada, fruto de uma técnica legislativa não confiável e com poucos detalhes (Lei 4.321/1964).

Acompanhe os problemas: Como seriam as candidaturas? Não sabemos! Quais são os prazos? Não temos! Votos de senadores valeriam o mesmo que de deputados? Não podemos dizer! Ora, mas a Câmara tem 513 parlamentares e o Senado apenas 81! É por essa razão que já existe uma disputa nos bastidores.

Conclua comigo: as eleições indiretas são um verdadeiro improviso, meu amigo!

Eu não iria tão longe agora, mas há fundamento para defender um novo pacto republicano. A sociedade civil livre e organizada poderia, inclusive, determinar uma nova Assembleia Geral Constituinte. Por quê não? O equilíbrio constitucional vem sendo rompido sistematicamente nos últimos anos, entretanto, essa é uma bandeira mais pesada para empunhar agora.

Reconheçamos que tanto as eleições diretas quanto as indiretas carregam um perigoso grau de instabilidade, todavia, uma delas precisará ser adotada.

Portanto, diante da fragilidade do instituto da eleição indireta, deixo aqui o registro do meu apoio às eleições diretas (inclusive com a possibilidade de candidaturas independentes dos partidos) para o frescor da política brasileira.

Respirar novos ares é  um empreendimento necessário, mas que não pode negar, em seu horizonte, que o verdadeiro titular do governo civil é o povo. Poder esse exercido por representantes, diretamente nos termos da Constituição ou mesmo sem qualquer restrição prevista nesse atual ordenamento jurídico, mas fruto genuíno da sociedade civil livre e organizada para repactuar a República Federativa e refundar o Estado brasileiro.

A divina Providência

O início do capítulo 22 de Genêsis não deixa dúvidas: “Deus pôs Abraão à prova”.

Eu certamente sucumbiria face a tamanha prova. Qual é o sentimento que o Abraão carregava no peito ao subir o Monte Moriá com o propósito de sacrificar o seu único filho? Não consigo imaginar. Era o seu o filho amado, o filho da promessa…

Leia a história e você perceberá que toda ela é permeada de obediência. Abraão respondeu o chamado do Senhor com o famoso “eis me aqui” e nem mesmo na sequência da narrativa percebemos qualquer hesitação desse herói da fé. Ele cerrou os dentes, trancou as lágrimas, engoliu a seco e partiu para uma longa jornada até a morte do filho Isaque.

Abraão respondeu à pergunta do filho a respeito do cordeiro para o holocausto afirmando: “Deus mesmo há de prover“. Em seguida, Isaque, também obediente, foi amarrado e colocado em cima da lenha sem dar sequer um grunhido. Mesmo diante da faca que vinha da mão de seu pai em sua direção, Isaque permaneceu em silêncio obediente.

Deus gosta das provas. A prova não é nem tanto para revelar sobre o caráter de Deus, mas é certamente reveladora do caráter do provado. Abraão obedeceu, não negou o seu filho, e por esse motivo Deus disse que o abençoaria.

Esse capítulo do livro sobre as origens é muito similar ao que diz o capítulo 13 do livro primeiro do Imitação de Cristo, obra clássica da espiritualidade cristã. Lá acentua Tomás de Kempis: “alguns são tentados levemente, segundo a sabedoria da divina Providência, que pondera as circunstâncias e o merecimento dos homens, e tudo predispõe para a salvação de seus eleitos.”

Eu fico me perguntando se o Kempis não confundiu aqui os conceitos de tentação e provação, uma vez que de Deus não se origina o pecado. Há quem diga, entretanto, que hipercalvinistas defendem ser o próprio Deus o autor do mal.

Certo mesmo é que tanto provas quanto tentações são utilíssimas porque nos humilham, purificam e instruem. Enquanto caminhamos com dor no peito em direção ao Moriá, o Senhor fala conosco e transforma o nosso caráter. C. S. Lewis nos advertiu de que o sofrimento era o megafone de Deus para se comunicar com o humano. Vai ver é isso mesmo.

Não importa qual é a carência, a dor, a provação e a tentação, porque o Senhor proverá, assim como exclamou Abraão.

Prover. Por à disposição os recursos necessários. Providenciar.

A divina Providência.

Um palpite breve a respeito da legislação trabalhista e o sindicalismo no Brasil

O dia 1º de maio foi antecedido por uma greve geral no Brasil. Não sabemos precisar o significado de “geral” nesse contexto, uma vez que muitos não pararam. Mas houve muitos que, embora não tenham aderido à greve, apoiaram-na em pensamentos.

É momento de reformas: trabalhista, previdenciária… É reforma pra todo lado. Talvez por isso a urgência do tema.

É certo que a pausa da atividade laboral possibilita o ócio criativo. Arriscaria dizer que essa não é a realidade da maior parte dos trabalhadores brasileiros, mas o feriado, em tempo de crises, instiga uma boa leitura.

Estava eu lendo a Laborem Exercens – encíclica papal sobre o trabalho humano – e me deparei com ideias interessantíssimas. Não me contive e acabei associando alguns aspectos desse documento com a reforma trabalhista defendida pelo governo federal.

A ideia geral a respeito da reforma transmitida pelo governo é de modernização da lei trabalhista. Aqueles que são contrários insistem que, na verdade, a reforma e a lei recentemente aprovada sobre terceirização fazem parte de um processo radical de precarização do trabalho.

Uma primeira proposta trata do alcance dos acordos coletivos. Se compreendi bem, sindicatos de trabalhadores e associações de caráter patronal terão ampla liberdade para negociar, mesmo à revelia da lei. Uma primeira pergunta: ora, não era a lei o limite para as negociações? Não era o Estado que faria correções pontuais do flagrante desequilíbrio econômico? Negociar férias parceladas, duração da jornada, deslocamento até o trabalho, intervalo sem o balizamento legal tem como resultado aparentemente óbvio a perda de direitos.

Por dois motivos: distorções éticas na prática capitalista de compra da força de trabalho e, ainda, pelo enfraquecimento dos sindicatos.

Mas sindicato é importante?

A mencionada encíclica diz que o direito de se associar ou de formar associações para resguardar interesses vitais é indispensável. O trabalho é um direito vital, logo o sindicato é indispensável. “A Igreja está convencida de que o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência do homem sobre a terra “ e o fundamento dessa convicção é encontrado logo nas primeiras páginas do livro de Gênesis. Não obstante, é um direito que deve ser exercido com limites, é verdade.

“enquanto sujeito, individualizado, pouco pode o trabalhador, quer contra o empresário individualmente considerado, quer contra a própria ordem econômica, não só porque a própria ordem econômica é estruturada com esta finalidade, mas ainda porque existe uma condicionante cultural que apresenta o empresário como aquele que venceu, o vitorioso.” (Domingos S. Nogueira Neto, “O Sindicato Metamórfico”)

Repare que uma das propostas do governo é tornar a contribuição sindical universal e obrigatória em uma contribuição facultativa. Essa é uma iniciativa que certamente enfraquece a estrutura sindical e torna o trabalhador ainda mais vulnerável.

Entretanto, admito que a representação sindical no Brasil precisa ser repensada. Há aqueles que dão conta de que enquanto a contribuição sindical é obrigatória para todos trabalhadores, apenas 18% deles são sindicalizados.

Há muito para ser ressignificado e poderíamos citar a relação do Estado com os sindicatos, a relação de grandes empresas, os meios antiéticos implementados por muitas lideranças sindicais para alcançar os fins almejados. É necessário que a sociedade civil floresça e muitas dessas iniciativas possam emergir naturalmente, mas como promover o seu florescimento?

Aqui um importante esclarecimento: essa não é uma questão de defesa de um determinado pólo do espectro político. Como exemplo, o ex-presidente Lula – ex sindicalista eleito pela maioria esmagadora dos trabalhadores do Brasil – enviou ao Congresso Nacional projeto de Emenda Constitucional de reforma sindical que, se fosse aprovada, poderia extinguir 8 mil sindicatos de trabalhadores.

Logo, rapidamente podemos concluir que iniciativas que vulnerabilizam o homem trabalhador podem emergir de qualquer lugar.

A Laborem Exercens deixa claro que há no trabalho um valor ético na medida em que se define como um mandato criacional presente desde o Gênesis:

“Esta circunstância constitui por si mesma o mais eloquente « evangelho do trabalho; aí se torna patente que o fundamento para determinar o valor do trabalho humano não é em primeiro lugar o género de trabalho que se realiza, mas o facto de aquele que o executa ser uma pessoa. As fontes da dignidade do trabalho devem ser procuradas sobretudo não na sua dimensão objectiva, mas sim na sua dimensão subjectiva.”

As teorias materialistas e mecanicistas transformaram o trabalho em mercadoria, mas o trabalho é o próprio trabalhador, que é o sujeito eficiente e criativo nessa relação, o artífice que lembra o Criador:

“o trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social, se nós procurarmos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem do homem. E se a solução — ou melhor, a gradual solução — da questão social, que continuamente se reapresenta e se vai tornando cada vez mais complexa, deve ser buscada no sentido de « tornar a vida humana mais humana »,então por isso mesmo a chave, que é o trabalho humano, assume una importância fundamental e decisiva.”
Portanto, é muito necessário que uma visão cristã do trabalho seja amplamente difundida.
É importante que se lance um olhar sobre a dignidade da pessoa e sobre o trabalho, que se faça uma profunda reflexão acerca de suas condições, da exploração que insiste em se manter e que se lembre todos os dias o princípio da prioridade do trabalho em relação ao capital.
É que na ordem social-moral estabelecida pelo próprio Deus “gente vem sempre antes de dinheiro”.

Uma história marcante

O dia de ontem caminhava para o seu fim com ares de normalidade. É verdade que a minha falta de expectativa era resultado da pouca reflexão a respeito do que a noite me reservaria. Mas ninguém pode descrever prévia e precisamente as emoções desencadeadas por nenhum encontro sequer.

E digo logo: ontem à noite encontrei-me com a pobreza.

Eram 22h. Saímos todos juntos da igreja para distribuir quase uma centena de marmitas e um grande número de garrafas d’água nas proximidades do antigo Elevado Castelo Branco.

Por seus desígnios, Deus agraciou-me com o conforto de um teto, cama, família e comida por longos 30 anos. Isso não quer dizer, porém, que não me falta nada. Oh, Senhor, só Tu sabes a escassez de minh’alma: miserável coração que tem se enchido transbordante de alegria e gratidão.

Mas eu nunca experimentei a pobreza da sarjeta, nascedouro das dores físicas mais intensas e torturantes. Porque a calçada é o lugar mais hostil que podemos encontrar nos grandes centros urbanos. Foi ali que ouvimos a respeito do frio que corta os ossos, da pele queimada pela violência do desconhecido, e a dor de ser ignorado, aquela mesma que alcança o espírito e faz diluir a esperança.

Encontrei-me hoje com o Onofre. Ele tinha uma pobreza diferente da minha, a miséria da sarjeta. Ele divide a pequena porção de que dispõe da calçada com baratas e ratos, mas da sua escassez ele tirou um sem número de sorrisos. Foram muitos. Não cheguei a contar.

A história dele é confusa. Disse-nos que deixou Mairiporã a fim de encontrar emprego, mas sua companheira circunstancial nos confidenciou que ele havia presenciado um crime, o que foi prontamente confirmado. Temendo as consequências legais, abandonou sua família e lançou-se numa jornada de 25 dias de caminhada até Belo Horizonte.

Aquele homem de 36 anos nos contou que saiu de casa aos 13 e que estava na cidade há 10 anos. Ora, a conta não fecha, mas quem se importa? 13 + 10 são 23. Onde foram parar os outros 13 anos? Provavelmente escoados pelos cantos sujos daquela sarjeta.

Ele quase foi pastor e nos assegurou que quando voltasse para sua casa gostaria de finalizar o serviço que iniciou lá atrás: ser pastor, vestir um bonito terno e ter um carrão. Pode ser esse o modelo de espiritualidade que ele ouviu nos lugares pelos quais passou. Uma evidente teologia da vitória. Mas como eu poderia falar a alguém como ele acerca da necessidade de carregar uma cruz? Qual cruz se para qualquer um de nós a que ele carrega já seria um fardo pesadíssimo?

Posso lhe garantir, entretanto, que ele não foi forçado a dizer o que não queria. Ao contrário, ele foi amado. Ganhou um prato de comida, água, bíblia e muita atenção. Ele ouviu a respeito da Esperança, ouviu que é importante para Jesus e participou conosco de uma roda de oração. De mãos dadas, unhas sujas e coração aberto.

Ele quer voltar para casa. Eu também quero voltar para casa.

Abaixei-me depois que todos saíram e lhe disse: esse prato de comida não resolve a sua fome, mas sinaliza que um dia não haverá mais fome, nem frio e nem dor na alma.

Eu não sei o que esse prato de comida representou para o Onofre, mas a vida dele foi um banquete para a minha pobre existência. Cheguei faminto e voltei alimentado.

Farto. Saciedade. O Deus da satisfação.

Qual é a sua riqueza que supre a pobreza do outro?

Advento da Unidade

Como é sabido, João inicia seu Evangelho com uma teologia profunda: “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Mateus, entretanto, inicia com a genealogia. João celebra o Advento com um hino, Mateus com uma lista. Para João, Jesus é a Palavra da Criação num corpo humano.  Para Mateus, Ele é um nome.

Nós podemos pensar que a abertura de Mateus é desinteressante, mas há muitas coisas acontecendo naquela genealogia. Assim como João, Mateus começa com um eco de Gênesis (“o livro da genealogia de Jesus”, veja Gênesis 5:1). Genealogia traduz a palavra grega “genesis”, provavelmente era esse o nome do primeiro livro da Bíblia já nos tempos de Mateus. Assim como João, Mateus escreve um Evangelho do novo começo.

Como muitos podem ter observado, as quatro mulheres presentes (Tamar, Raabe, Rute e a mulher de urias – Bate-Seba) na genealogia de Mateus tiveram reputações duvidosas. Tamar disfarçou-se para seduzir Judá e então poder ter um herdeiro com seu próprio sogro. Raabe era uma prostituta. Bate-Seba deixou-se seduzir por Davi, que depois matou seu marido para cobrir seu pecado. Rute era descendente das filhas incestuosas de Ló e foi muito atirada ao cortejar Boaz, um homem velho que poderia lhe chamar de “filha”. O Messias não tropeça nesses escândalos. A genealogia de Mateus mostra que eles eram, misteriosamente, estágios no caminho de sua chegada.

Todas as mulheres eram gentias ou casadas com gentios. Tamar e Raabe eram caananitas, Rute uma moabita e Bate-Seba era esposa de um hitita. Havia várias mães em Israel, mas Mateus passa por cima de todas elas: Sara, Rebeca, Raquel e Lia. No relato de Mateus, apenas noivas e mães gentias, ganham um espaço na árvore genealógica de Jesus.

Gentios, portanto, não precisaram esperar o Pentecostes para entrar no Reino. A partir do momento que Jesus foi concebido, Ele incorporou os gentios no seu corpo. Dessa forma, Jesus cumpriu a promessa de Yahweh de abençoar os gentios por meio das sementes de Abraão. Jesus é o filho de Abraão, mas não porque em suas veias correm puro sangue judeu. Jesus é filho de Abraão por causa de seu sangue misturado e corpo “impuro”, Abraão é pai de muitas nações. Antes de Jesus ensinar por parábolas ou realizar um milagre, Ele já era a o sacramento da cura da ferida de Babel.

A genealogia prepara o caminho para um Evangelho que termina com a comissão de fazer discípulos de todas as etnias, todos os gentios. À medida que os apóstolos reuniam os crentes no poder do Espírito Santo, o corpo-comunidade de Jesus se assemelhava ao seu corpo físico. Assim como Jesus, a Igreja é constituída de todo sangue, toda raça, tribo, nação e língua.

O Advento estabelece uma “genesis” porque em Jesus a raça humana ganha um novo começo. O Advento celebra o advento da reunião da humanidade e a chegada daquilo que Paulo chama de “um novo homem”.

As marcas do Autor do livro preto

John Stott foi um dos maiores nomes da história da igreja cristã. Era pastor de uma igreja evangélica na doutrina e na teologia; e católica na liturgia e nos sacramentos, uma vez que era clérigo anglicano. Sua atividade intelectual foi muito intensa, tendo escrito centenas de livros e, apesar de ter sido vinculado a uma tradição específica, sempre esteve presente no hall de entrada da família cristã, ensinando sobre fundamentos comuns da fé.

Ontem li um capítulo do livro “O discípulo radical” de Stott e o que mais me impressionou foi a maneira simples como comunica verdades muito profundas. Talvez isso seja fruto de sua maturidade, já que o capítulo, daquele que foi provavelmente o seu último livro, foi escrito em seu 86º aniversário.

Em resumo, Stott faz as seguintes perguntas: qual é o propósito de Deus para o seu povo? O que vem depois da conversão? E logo responde: Deus quer que o seu povo se torne como Cristo, pois semelhança com Cristo é a vontade Deus para o povo de Deus.”

Ser como Jesus é envolve muitas coisas, mas poderíamos concentrar tudo em uma só palavra: santidade. Aliás, a vontade de Deus é a nossa santificação, como escreveu o apóstolo Paulo em I Tessalonicenses 4:3. Mas não nos assustemos, porque essa caminhada é processual. Podemos ser cooperadores nesse processo escolhendo tomar a nossa cruz, no entanto, só pelo poder do Espírito Santo, que nos infunde graça, é que conseguiremos cumprir esse propósito. Agimos sim, mas descansando nos méritos de Cristo.

Mas sabe de uma coisa? É salutar notar progressos. Hoje mesmo ouvi uma música linda da banda CantoVerbo (fica aqui a minha recomendação para ouví-los. O CD está no Spotify) que dizia:

“Eu via nela, na vida dela
as marcas do Autor do livro preto
que não mente, não muda e não erra
Eu via nela, na vida dela
Pois quem confia no Autor do livro preto
não encontra lugar nessa terra.”

Acho que o André, autor desses versos, resumiu bem o nosso desafio: cooperar com Deus para que as marcas de Seu amor estejam muito presentes em nossas vidas de tal maneira que não encontraremos lugar no sistema de valores dessa terra.

Minha oração hoje é para que o Senhor continue nos enchendo com o seu Santo Espírito e para que nós mostremos as marcas do Autor do livro preto em nossas vidas, sendo semelhantes a Jesus no caminho para a santidade.

Fábrica de Ídolos

Quanto mais eu leio a respeito da natureza humana, mais eu confirmo que somos amantes inveterados. Aliás, não precisaria ler se fizesse uma avaliação sincera do meu coração. Nós fomos programados para adorar. Agostinho escreveu certa vez que não encontraríamos descanso até que nós o encontrássemos em Deus. Mais tarde, G. K. Chesterton afirmou que quando paramos de adorar a Deus nós não deixamos de adorar, mas adoramos qualquer coisa. Mesmo o guru dos juristas, Ronald Dworkin, assumiu, no Religion without God, que todo mundo tem um compromisso religioso profundo, até os ateístas.

Nós somos mesmo uma fábrica de ídolos.

 

Pedindo ao Pai em nome do Filho

Nesse dia, vocês pedirão em meu nome. Não digo que pedirei ao Pai em favor de vocês, pois o próprio Pai os ama, porquanto vocês me amaram e creram que eu vim de Deus. João 16:26,27
O contexto do trecho acima é o discurso de Jesus para os discípulos que dizia: “mais um pouco e já não me verão, um pouco mais, e me verão de novo”. É quase consenso que aqui Ele estava se referindo à sua morte e à sua ressurreição, ou seja,  a expressão “nesse dia” significa “após a minha ressurreição”.
O Jesus ressurreto mudou a dinâmica da oração porque agora dirigimos a nossa oração ao Pai, em nome do Filho, pelo Espírito Santo. Quando levamos súplicas ao Pai, o fazemos em nome do Filho. É, portanto, a face de Jesus que apresentamos ao Pai.
Contudo, o interessante dos versículos que separei é o fato de Jesus afirmar que o Pai nos ama. Isso até poderia ser um clichê se não fosse tão mal compreendido por nós. É que buscamos o Senhor imaginando que a nossa oração o colocará em movimento. Buscamos com a convicção de que estamos desamparados. Entretanto, muito antes de orarmos, Deus já se movimenta em nosso favor, porque nossa vida está sob o controle de Deus.
Qual é o ponto da oração? Em primeiro lugar, ela estabelece o relacionamento com Deus. Em segundo, Deus quer que participemos conscientemente do processo da concretização da sua vontade. A segurança que temos é que tudo acontece para o bem dos eleitos, ou nas palavras do verso, para aqueles que amam Jesus e crêem que Ele veio do Pai.
Saber que o Pai nos ama é nossa segurança. O amor de Deus é seu movimento em nossa direção e nós só assimilamos esse amor se vivenciamos o evento, se entramos no movimento de Deus. O Pai fez tudo pelo Filho, nos fez, inclusive, como presente para o Filho, mas por causa da adoção que temos em Cristo podemos participar desse movimento eterno do amor e por isso também somos amados.
Não esquecer jamais que estamos sob o cuidado de Deus é o nosso desafio.

O dia que foi noite

À quarta-feira reservou-se a desventura. Todos sentiam uma dor real advinda da imaginação, mas relutavam a aceitar aquilo que os olhos não viam. Tinha forma de verdade, havia evidências, tal como a foto 3×4, mas não poderia ser. Não no interior… Ele chegaria a qualquer momento e diria: reza por mim que eu rezo por você.

Mas a quarta-feira parecia ter sido um ensaio. O ponteiro do relógio passava com dificuldade, os compromissos do dia foram todos suspensos, o coração ficou agitado e a cabeça seguia distante… Mas ainda havia alguma chance… Poderiam todos despertar de um pesadelo na quinta-feira e tudo se resolveria num abraço caloroso.

Embora o calendário tenha seguido como de costume e o dia da semana fosse outro, a luz parecia preguiçosa naquele dia. O celular despertou e ainda era noite. Era a quinta-feira da “folhinha”, mas a quarta não havia saído dos corações. Chovia, fazia frio e estava muito escuro.

As horas mantinham uma caminhada insistente, nem lenta e nem acelerada. Era, contudo, uma marcha contínua, que levaria a contra gosto ao horário marcado. A despedida por causa do revés. Não queriam, mas estavam todos ali por causa da perda repentina no meio da calmaria.

Os olhos e o tato confirmaram o que o coração se negava a reconhecer. Amigo sempre presente. Vai ver que é porque a ser-humanidade consiste num radical desejo pela eternidade. A ser-humanidade é imagem e semelhança do Criador. Seres radicalmente relacionais desejosos pelo eterno acabam não aceitando com naturalidade a morte.

Foi um adeus breve, ou mesmo, um até breve. Não foi uma simples contrariedade, é uma desgraça. Não há rebeldia nisso porque se sabe que o Deus Criador enche de vida seus filhos e certamente a morte não era o plano inicial, mas essa conversa fica pra outro momento.

Saíram todos do local coberto e seguiram enfileirados ao descampado. A cena comovia. O ritmo era sincronizado, mas não havia trilha sonora. Viam-se homens encapuzados tentando se proteger do frio e da chuva, uns olhando para o chão e outros para um lugar muito distante, muito além do horizonte. Porque os olhos não estavam ali, eram apenas interrogações ansiosas pelo amanhã. O que será?

Embora profundamente tristes, outros tentavam viver um pouco de gratidão, reconhecendo no próprio Deus o Senhor Soberano. Lamentavam, mas tentavam se lembrar da redenção. Os corações estavam um pouco iluminados.

Uma coisa é certa, porém, caminhavam ainda na quarta-feira. Marchavam por uma escuridão exterior não usual para aquela hora do relógio.

É que na quinta-feira o dia foi noite…