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Cartas a um cristão como eu #5

Olá, Ed. Como é bom ouvir (ou ler) a respeito das suas experiências com o perdão Divino. É realmente singular a paz e a liberdade com as quais o homem que, como você disse, “toma posse do perdão de Deus” é tomado. E essa expressão que você utilizou é de uma sabedoria muito profunda… Realmente ser perdoado é questão de tomar posse de algo que já foi oferecido definitivamente na cruz do nosso Senhor.

Quanto ao episódio com a sua esposa, a sua postura não me impressiona nem um pouco. A reação que você esperava de você mesmo era consequência de alguém que não valorizava e nem vivia o Perdão. Agora isto mudou, e já não se espera outra resposta ao pecado que é cometido contra você senão o mesmo perdão. É uma incoerência egoísta e pecaminosa ser perdoado e não desprender perdão, ser agraciado e não agraciar. É também uma espécie de suicídio o “não perdoar”. Tenho para mim que é tão ou talvez mais tóxico e corrosivo para a alma humana o não perdoar e se encher de rancor e ódio do que o pecar contra alguém e não se dispor a pedir perdão.

Além de tudo o que você experimentou pessoalmente você ainda tem praticado a confissão comunitária com os seus amigos cristão mais chegados? Isso sim é surpreendente. Este é, na minha opinião, o passo mais difícil a ser tomado em direção à posse do perdão Divino. O mais difícil e também o mais negligenciado. Muitos e muitos cristãos naufragam na fé pela falta desta prática. Expor os pecados a outros é vergonhoso, dolorido, mas extremamente importante para que o arrependimento seja sincero e para que o perdão seja mais palpável e vivo. E apesar de toda a dificuldade, viver essa prática é de grande benefício para a nossa fé! O texto de Tiago 5:16 confirma isso com as seguintes palavras: “Confessai, portanto, vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados. A súplica de um justo vale muito em seus efeitos.”

Não tenho mais nada o que lhe dizer sobre o perdão. A verdade é que é muito fácil falar e argumentar a favor dele. O desafio e a dificuldade se encontram em vivê-lo. Buscar perdão é declarar podridão, fragilidade e dependência; recebê-lo é ter que lidar com um paradoxo amoroso que aniquila o nosso orgulho e desestrutura a nossa convicção meritocrática de vida; oferecer perdão sincero é agir divinamente, numa postura de entrega e sacrifício, gerando vida. E essas coisas nunca vão caber em uma carta ou em um bate papo teológico; o perdão se aprende sendo vivido, buscando-o, recebendo-o e disponibilizando-o, ainda que sejam necessárias 70 tentativas multiplicadas por 7.

Por fim, em algum momento da sua carta você citou os seus problemas com alguns vícios… Fiquei interessado no assunto! Fale- me mais sobre eles, vamos conversar sobre isso!

Com carinho, Dudú Mitre.

Cartas a um cristão como eu #4

Belo Horizonte, 22 de Agosto de 2015

Ed, meu amigo, a simplicidade da sua última correspondência foi de um  valor indescritível. Afinal de contas, por mais que eu escolha as palavras mais belas e persuasivas, a minha autoridade para falar das coisas espirituais são nulas. Você me pediu que lhe mostrasse ou apontasse, nas Escrituras, algo que comprovasse aquilo que discutimos da última vez, e imediatamente eu me lembrei de um episódio em que Jesus ensinou a Simão, o Fariseu, o valor e o benefício do arrependimento e de se obter perdão.

Vamos a Lucas, capítulo 7, versos 36 a 50.

“E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à mesa. E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o ungüento.
Quando isto viu o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora.
E respondendo, Jesus disse-lhe: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. E ele disse: Dize-a, Mestre.
Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinqüenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?
E Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E ele lhe disse: Julgaste bem.
E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e os enxugou com os cabelos de sua cabeça. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com ungüento. Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama.
E disse-lhe a ela: Os teus pecados te são perdoados.
E os que estavam à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados?
E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.”

A passagem é complexa e possui muitos elementos, mas quero me apegar ao que eu ofereci destaque acima. Jesus não está se referindo à quantidade ou qualidade do pecado neste texto. Ambos, o fariseu e a mulher, assim como toda a humanidade, são igualmente pecadores e estão igualmente em débito com o Pai. Na minha opinião aqui Jesus fala sobre a disposição do coração do pecador em reconhecer o seu pecado e procurar perdão. Sendo assim, o homem que devia 500 dinheiros seria aquele tipo de pessoa  não esconde do Pai os seus pecados, que se abre, se rasga diante do Criador, afim de obter o perdão total, enquanto o homem que devia ao senhor 50 dinheiros seria aquele tipo de sujeito que esconde a sua condição de rebeldia pecaminosa, afim que não o conheçam. Pode ser que este até se confesse pecador, mas a superficialidade da confissão e do arrependimento são suas marcas registradas.

Jesus argumenta a favor do ponto de vista que eu citei logo em seguida, quando coloca em comparação a postura do fariseu e a postura da mulher. Aquele, “devedor de 50 dinheiros”, quando posto diante do Criador não demonstrou nenhuma atitude de humilde arrependimento pela sua condição pecaminosa; ela por outro lado, “devedora de 500 dinheiros”, diante da presença do Perfeito só conseguia olhar para dentro e ver a sua imperfeição, se derramando em lágrimas e tristeza.

Aquele, pouco perdoado. Não por que Jesus lhe oferecera menos perdão, mas por que ele próprio não o buscou; ela, por sua vez, muito perdoada, pois a sua postura era de humilde reconhecimento e arrependimento da sua condição de pecadora.

Aquele, pouco amou, pois pouco perdão recebera; ela, por sua vez, viu crescer no seu coração um amor imenso por Aquele que a limpou de toda a sua culpa.

Aquele jantou com Jesus, mas não experimentou com Ele intimidade; ela, por sua vez, voltou pra casa muito mais próxima do Criador.

Acho que esse trecho nos mostra como o perdão sempre nos aproxima Daquele que se aproximou para nos perdoar e nos amar. Espero que tenha feito algum sentido para você, Ed.

Um abraço, Dudú Mitre.

Cartas a um cristão como eu #3

Belo Horizonte, 08 de Agosto de 2015

Caro Ed, desta vez quem teve que lidar com a demora em responder foi você, não é mesmo? Me perdoe a falha. O ritmo agitado e a negligência com o uso do meu tempo me fizeram protelar muito (o pedido de perdão fictício foi a minha maneira de pedir perdão ao leitor pela minha atual negligência em vos escrever aqui no blog.) Mas aqui estamos, e temos bastante a conversar. Tanto que não creio que este assunto se encerrará com poucas correspondências…

Falávamos sobre a liberdade que existe no perdão divino e da nossa constante necessidade em depender dele, uma vez que a nossa ignorância e teimosia em escolher pelo pecado é também constante. Bom, a questão levantada por você é pertinente, mas não verdadeira, na minha opinião. Não se levarmos em conta os conceitos de GRAÇA e AMOR.

Por graça entendemos do favor imerecido do Único  que pode nos livrar da condenação do pecado. Por amor vamos considerar a escolha deliberada e eterna do Único que pode nos tratar com graça de fazê-lo dia após dia, chamando o auge desta escolha de cruz. São conceitos rasos para a complexidade dos termos, mas vamos partir deste ponto.

O perdão não pode ser considerado obsoleto se considerado à luz destas duas palavras. O pecador, de antemão amado, encontra graça a cada vez que cai, se arrepende e busca ao Pai. A graça aponta para a cruz, e a cruz o lembra do amor. E o amor, como disse Paulo, jamais acaba. Antes, “tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta.” Eu até entendo o seu sentimento e os seus questionamentos. Pensando de maneira humana é realmente um abuso o que fazemos. A repetição do erro e do pedido de perdão pode parecer manipulação, hipocrisia e até mesmo artimanha para se viver de forma libertina e deliberada. Creio que isso de fato possa acontecer, mas veja bem, o enganador nunca corrompe a graça e o amor, apenas engana a si mesmo e à sua própria consciência. Mas o pecador arrependido vive o paradoxo de experimentar, ainda que repetidas vezes, um movimento que se torna inédito da parte de Deus, o perdão que se renova e  que nasce da graça e do amor. Analisando sob a perspectiva divina não existe manipulação e nem abuso, existe a escolha deliberada e o favor imerecido de um Pai para com todos os filhos  que caem em si e que se mostram arrependidos dos seus atos.

Agora, vamos tomar novamente os conceito de graça e amor que escrevi acima. Observe como a ação deles move o ser humano. Do pecado ao arrependimento, do arrependimento à graça, que faz lembrar o amor e que nos leva para a cruz, e daquele ponto em diante experimentamos liberdade, até que pecamos de novo, e tudo se repete. Bom, eu não diria que se trate de um ciclo. Escolha um ponto em um círculo, caminhe com ele por toda a extensão do limite do mesmo e você chegará ao mesmo lugar, e será eternamente assim. Prefiro comparar este movimento do amor e da graça a uma espiral, que caminha sempre adiante, num movimento aparentemente cíclico, mas que está em constante evolução. Ser perdoado é sempre progredir, e nunca regredir ou continuar estagnado. Sempre avançamos para a cruz quando experimentamos do favor divino, e por mais que pareça que vamos acabar no mesmo ponto de antes, depender do perdão constante de Deus e busca-lo com arrependimento é esquecer das coisas que para trás ficaram e progredir para o Alvo, rumo ao prêmio da soberana vocação.

Não compreendemos a mente e o coração de Deus, Ed. É impossível. Mas saiba que de alguma forma maluca e maravilhosa Ele está sempre pronto para nos redimir, ainda que os erros sejam repetidos por diversas vezes. E não só isso, Ele faz com que essa constante dependência do Seu perdão seja um ganho para nós. Não fuja do perdão divino, Ed. Abrace-o e agarra-o quantas vezes forem necessárias, pois Deus o tratará com graça e amor quantas vezes forem necessárias.

Espero, de coração, que tudo isso tenha feito algum sentido.

Com carinho, Dudú Mitre.

Cartas a um cristão como eu #2

Belo Horizonte, 20 de Junho de 2015.

Querido Ed, fiquei muito feliz em receber a sua correspondência. Admito que achei que os nossos diálogos teriam fim naquela ocasião, uma vez que mais de um mês se passou e eu não tive nenhum tipo de resposta sua. Várias coisas se passaram pela minha cabeça, mas recebendo notícias dos seus amigos cheguei a conclusão de que provavelmente você estivesse fugindo. Não de mim, uma vez que não apresento ameaças a ninguém, mas do rumo que a nossa conversa estava tomando. Não lhe julgo, pois sei que em tempos de crise pessoal e moral, pensar na própria vida e ter um amigo abusado que lhe toque as feridas não é nem um pouco confortável.

Quanto á fuga, permita-me apontar uma verdade: uma pessoa não pode fugir e aprender ao mesmo tempo. Ela precisa permanecer algum tempo para tirar lições que façam algum sentido e que produzam alguma coisa. Ora, não há nada anormal em se passar por uma crise. O coração humano, inclinado para o pecado, nos faz cair com frequência naquilo que sabemos estar longe da vontade do nosso Pai. Mas veja, cada uma dessas quedas pode ser uma escola! Me lembro do “Peregrino”, na obra de John Bunyan, quando se depara com dois leões dorminhocos à beira da estrada que levava à Cidade Celestial e conclui: “voltar (ou fugir) é ir de encontro à morte certa; prosseguir é apenas temer a morte, mas com a vida eterna em perspectiva. Avante, pois!”. Não tenho mais o que falar sobre isto, e espero que você entenda que o meu tom não é de juízo, mas de exortação.

Agora, quanto ao que você me escreveu, digo que se trata de um aprimoramento pelo qual todo cristão deve passar. Você não é o único que, como você mesmo me escreveu, “maquina o mal e o pratica com uma facilidade gigantesca”. Desconheço um irmão que não tenha vivido a tensão entre a carne e o Espírito, a tensão entre o querer satisfazer seus desejos e o desejo de satisfazer a sua alma no Criador. As afirmações do Apóstolo Paulo são, nesse sentido, reveladoras e muito pesadas: “Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim”. Apesar de livres do poder do pecado por causa do sacrifício do Filho de Deus, ele ainda nos influencia grandemente. Saber lidar com essa tensão é um ponto fundamental na caminhada cristã. Paulo clama aos céus: “Miserável homem que sou! Quem me libertará deste corpo sujeito à morte?”, e conclui de forma fantástica: “Graças a Deus por Cristo Jesus”.

Existe grande liberdade em Cristo Jesus. Liberdade trazida pelo perdão da cruz, pelo perdão que nasceu do amor. O pecado é real, é forte. Nos manipula e influencia. Nos seduz e nos faz escolher por ele. E sim, ele é muito mais poderoso do que nós. Mas o amor, o perfeito amor com que Jesus Cristo nos amou, este cobre uma multidão de pecados. E a liberdade oferecida por esse amor nos possibilita experimentar o perdão a cada vez que fazemos o que não queremos, a cada vez que maquinamos o mal e o cumprimos com uma facilidade gigantesca.

Você está perdoado, Ed!

Com carinho, Dudú Mitre.

Ps:. as citações de Paulo a que me referi se encontram no livro de Romanos, no capítulo 7, com fragmentos dos versículos 18 a 25.

“Cartas a um cristão como eu” #1

Belo Horizonte, 25 de Abril de 2015.

Caro Ed, fiquei feliz em receber a sua correspondência, e mais feliz ainda em perceber em você o interesse de debater sobre as suas dúvidas, angústias e tribulações.

Em primeiro lugar gostaria de lembrar-lhe das palavras do nosso Mestre, quando diz que aquele que ouve a Suas Palavras e as pratica é como um construtor prudente, que edifica sobre a rocha a sua casa, em que vindo ventos, chuvas e tempestades ela permanece de pé. Pelo que sei você conhece a Palavra, conhece o Mestre e sabe o que Ele espera de você. Apegando-se ao que você já ouviu Dele acredito que esta será apenas mais uma das várias tempestades que tormentam a sua fé.

Creio que sua tendência melancólica e nostálgica te atrapalha muito quando se trata das suas crises de fé, que conforme você mesmo disse, são muitas. Pelo que você me escreveu, tudo indica que você deseja reviver as boas fases do passado, enquanto creio que Deus deseja lhe mostrar novas e maravilhosas coisas. “Prossiga para o alvo, rumo ao prêmio da soberana vocação em Cristo Jesus”.

Quanto aos questionamentos, acredito que eles esbarram de novo no seu temperamento, e mais uma vez lhe digo para estar em alerta. A melancolia lhe deixa cabisbaixo, e a nostalgia te leva a duvidar do presente e do futuro!

Pense comigo: o mundo mudou. Mudou socialmente e culturalmente. Até mesmo dentro da diminuta fatia de tempo em que você confessa a fé cristã houveram mudanças. Sim, em 10 anos muito da nossa cultura e sociedade mudou. Eu e você também mudamos, Ed. E muito! Mas ao longo das eras, das décadas e dos anos duas coisas permanecem intactas: Deus e o Ser Humano.

Deus é imutável, Único. Ele próprio afirma isso nas Escrituras (se bem que alguns colocam em cheque essa ideia, e podemos discutir sobre isso em outra ocasião). O Ser Humano, apesar de todas as diferenças de comportamento, também continua, em seu íntimo, a mesma criatura: criada, amada, decaída e desejosa de estar de novo na presença do Criador. Os anseios,  o cerne, o centro do Ser Humano permanece intacto.

Acho que partindo do pressuposto de que Deus e o Homem são ainda os mesmo podemos responder à sua pergunta. Sim, Jesus Cristo convém à época atual! Ele não perdeu o brilho, a majestade, o sentido e o propósito. Ele continua tanto interessante quanto ESSENCIAL para a alegria e realização humana. Afinal, sem Ele é impossível chegarmos a Deus!

Ao ser humano que continua vivendo em trevas, sem um propósito claro para a sua existência, Ele afirma: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará em trevas; pelo contrário, terá a luz da vida”. Ao homem que continua vivendo vazio, com a alma gritando de fome, em uma existência sem sustento e vida, Ele declara: “Eu sou o Pão da Vida; o que vem a mim jamais terá fome; o que crê em mim jamais terá sede”. Ao Ser Humano que se sente solto, desolado em um mundo cheio de perigos, sem alguém que se importe e que lhe cuide, Jesus diz: “Eu sou o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas”. E àquele (no caso, todo) ser humano que busca algo que ainda não conhece afim de satisfazer todos os desejos do seu coração e se encontrar no lugar onde foi criado para estar, o Mestre afirma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim”.

Ed, os títulos de Jesus são atemporais, e não importa em que época estamos, Ele continua sendo o Primogênito de toda a Criação, Aquele pelo qual podemos satisfazer por completo a nossa alma.

Espero que eu tenha lhe ajudado.

Com carinho, Dudu Mitre.

Não deu tempo de bolar um título!

Insônia… O sono bate, o corpo pede descanso. Todos os pré requisitos são sabaticamente cumpridos mas o mais importante não acontece: as pálpebras não se mantêm fechadas. A mente  não entra em repouso.

E aí começa a sabatina… Vai ao banheiro, volta para a cama. Bebe um copo d’água, volta para a cama. Fala com Deus, na esperança de que o repouso do coração leve ao sono profundo,  mas isso também não funciona. Assiste um episódio da série que precisa ser colocada em dia, lê um capítulo do livro que está sobre a cabeceira e… Nada! Enquanto isso a mente se prende ao despertador, programado para as 08:00 da manhã, uma vez que a lista de atividades que precisam ser cumpridas no dia seguinte é grande. Chega uma hora em que a noite cansa. O vazio do silêncio e a falta de perspectiva em conseguir passar por ela dormindo fazem com que o coração se torne ansioso. Já sem muito o que fazer se espera pela manhã, pelo momento em que o despertador vai tocar e que o silêncio e a solidão da noite interminável finalmente terão fim e darão lugar à tão produtiva manhã de sábado!

Faz lembrar o salmista, quando diz: “A minha alma anseia pelo Senhor, mais do que os guardas pela manhã, mais do que aqueles que guardam pela manhã.” Salmos 130:6

Enfim, o som do despertador! E aí vem a contradição…

O dedo desliza sobre a tela do celular, mas não com a intenção de desligá-lo, e sim de ativar a função soneca. A preguiça de sair do aconchego sob medida do colchão toma conta. 10, 15, 40 minutos… E grande parte da tão esperada manhã já se foi quando finalmente cria-se a coragem de colocar os pés pra fora da cama.

E então o mesmo coração que anseia pelo Senhor durante a noite sem fim é o coração que, obstinado a pecar, se enrola no pecado, “deita e rola” nos seus próprios prazeres quando a Manhã chega, quando a Manhã o chama.

Não sei quanto tempo já perdi com essa contraditória condição espiritual de desejar a Manhã e protelar para vivê-La, mas tenho certeza que foi muito!

Mas enfim, não tenho mais tempo… Enrolei muito na cama! Estou atrasado e preciso ir! Infelizmente quando isso acontece algumas coisas não ficam como deveriam.. Alguns textos ficam sem final, ou até mesmo sem o título!

Tomando forma

E o tempo passou.
Ah, muito se passou,
de forma que os anseios e orações se perderam nos quartos mais remotos da memória.

Lembranças de um tempo bom,
Difícil, mas ainda bom,
Que abriu feridas, que deixou traumas, mas que de alguma forma deu forma à fé.

Tempo que abriu as portas,
Que fez o machucado coração
se convencer da sua condição, perceber que Deus é bom e dar de si uma porção.

E foi tomando forma!
A que dantes perseguia
Agora serve, agora busca, e entrando na história Dele a si mesma se esvazia.

E por falar em história,
tem ela história pra contar…
De como um Deus de longe se fez de perto, mostrando bem que sabe bem amar.

Dizem que é assim:
Que o bom Deus concede a nós
muito mais do que se pode pensar, mais do que se pode imaginar.

Não é que assim foi?
E quando o céu se rasgou
Ele disse:
“Tu és meu filho amado, e olha, do teu lado, tua mãe, minha filha amada.”

“Desta história construída
em família de normais
resolvi mostrar pro mundo que EU ofereço muito mais. Muito mais!

“Da labuta e do sofrimento
No meio de tanta dor,
Quis mostrar para vocês que Meu nome  é AMOR”

Pois cuida, Oh Deus
Dessa mulher que é virtuosa.
Faz reta as suas veredas e do mal a afasta pra sempre, a partir de agora.

Por que já não merece sofrimento;
Antes, dá a ela amor e alento.
Pre’la ir tomando forma, pre’la ir fazendo festa, pre’la nos fazer gostoso alimento!

Que é pra ela mostrar pro mundo
Que o Senhor é Deus real.
Como mostrou pro teu pobre servo, que não merecia o que ganhou afinal.

E que daqui alguns carnavais
a gente se lembre daquele dia.
Em que o céu se rasgou, em que a pomba desceu e em que o coração se encheu de alegria!

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Dedico este texto – sem talento, sem métrica, de rimas toscas (me perdoem por isso, leitores!) mas de uma sinceridade e amor imensos – à minha querida mãe, que nesse carnaval decidiu provar o quão Deus é bom e fiel, externalizando pro mundo a decisão que mudou a sua vida!Foram anos dedicados a oração e à súplica, pedindo ao bom Deus que ela se convencesse do seu amor e da necessidade do sacrifício de Jesus Cristo. Agora, Patrícia Machado Mitre, é hora de irmos juntos tomando forma! Forma daquele que tomou a nossa forma, pra gente poder ter o privilégio de viver o que estamos vivendo hoje! Amo você, e que a paz do nosso Senhor Jesus Cristo esteja com você até que não possamos mais contar os nossos dias!

“Provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele confia.”
Salmo 34:8

“Tu és este homem”

E no tempo em que os reis costumavam sair para as batalhas, o ainda jovem Davi decide ficar em casa. Enquanto seus homens lutavam, o rei descansava. Aproveitava o tempo, ocioso. No fim da tarde gostava de caminhar pelo palácio. Visitava os grandes salões, conferia se estava tudo em ordem nos jardins, observava a cidade do terraço.

E numa dessas tardes, com o sol já se pondo, a avistou. Uma bela mulher se banhava em uma casa ali perto. Davi mandou que a chamassem e se deitou com ela. Bate-Seba, a filha de Eliã, esposa de Urias.

Adultério.

Manipulação.

Assassinato.

“Dois homens viviam numa cidade, um era rico e o outro, pobre. O rico possuía muitas ovelhas e bois, mas o pobre nada tinha, senão uma cordeirinha que havia comprado. Ele a criou, e ela cresceu com ele e com seus filhos. Ela comia junto dele, bebia do seu copo e até dormia em seus braços. Era como uma filha para ele. Certo dia, um viajante chegou à casa do rico, e este não quis pegar uma de suas próprias ovelhas ou do seus bois para preparar-lhe uma refeição. Em vez disso, preparou para o visitante a cordeira que pertencia ao pobre”.
Então, Davi encheu-se de ira contra o homem e disse a Natã: “Juro pelo nome do Senhor que o homem que fez isso merece a morte! Deverá pagar quatro vezes o preço da cordeira, porquanto agiu sem misericórdia.
Então, disse Natã a Davi: “Tu és o homem!”.

Ungido rei sobre Israel, livrado das mãos de Saul, presenteado com casas, esposas e riquezas. Não satisfeito, agiu sem misericórdia, sem amor!

Mas, cego pelo pecado, Davi não conseguia enxergar o óbvio. A mancha do delito lhe cobriu os olhos, de forma que o rei não conseguia enxergar e reconhecer a si próprio. Não podia ver a sua podridão. Até que ele teve a atenção chamada: “Tu és o homem!”.

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me. Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe. Sei que desejas a verdade no íntimo; e no coração me ensinas a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. Faze-me ouvir de novo júbilo e alegria; e os ossos que esmagaste exultarão. Esconde o rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades. Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer.”

Um rei arrependido. Um rei perdoado.

Histórias absurdas são contadas todos os dias. Corrupção. Violência. Preconceito. Inveja. Vaidade. Julgamentos. Falta de amor. Ficamos chocados, escandalizados e até indignados. Mas o pecados tapa nossos olhos.

Nos afasta de Deus.

Nos afasta de nós mesmos.

Não nos deixa enxergar o óbvio.

Nos leva para um poço cada vez mais profundo.

De lá, talvez, ouçamos de Deus: “Tu és este homem”. E de lá poderemos buscá-Lo, ainda que estraçalhados pelo pecado.

Mais um homem arrependido. Mais um homem perdoado.

“Tu és este homem”?

Referências: 2 Samuel 11:1 a 12:7; Salmos 51: 1- 12.

Resistência inútil

O próprio Paulo (ou São Paulo, autor neotestamentário) faz diversos relatos a respeito da sua experiência pessoal com Jesus Cristo na estrada a caminho de Damasco. No livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo 9, o médico e historiador Lucas descreve a cena. Já nos capítulos 22 e 26 do mesmo livro, o próprio Paulo relata o acontecido. As histórias batem, e até se completam. Dizem que, “respirando ainda ameaças e mortes” contra os chamados do Caminho, Paulo se dirige à Samaria, amparado pela lei judaica, afim de perseguir e prender os cristãos daquele lugar. “Quando se aproximava de Damasco”, uma forte luz vinda do céu brilhou de repente ao seu redor. Todos caíram por terra, e Saulo (ou Paulo) ouviu uma voz que lhe dizia:

“‘Saulo, Saulo, por que você está me perseguindo? Resistir ao aguilhão só lhe trará dor!
“Então perguntei: Quem és tu, Senhor? “Respondeu o Senhor: ‘Sou Jesus, a quem você está perseguindo.
Agora, levante-se, fique de pé. Eu lhe apareci para constituí-lo servo e testemunha do que você viu a meu respeito e do que lhe mostrarei.”  Atos 26:14-16

Escolhi a narrativa do capítulo 26 não por acaso. Ela é, na minha opinião, a mais completa, e apresenta um detalhe que muitas vezes fugiu à minha atenção. Trata-se de uma afirmação feita pelo próprio Senhor a Saulo, e que é repleta de significado!

“Resistir ao aguilhão só lhe trará dor!” Atos 26:14b

Esse era um provérbio grego a respeito da resistência inútil. O aguilhão era uma vara pontuda, usada para provocar dor e estimular os bois que puxavam as carroças a seguir em frente. Resistir ao aguilhão só causava mais dor aos animais.

Paulo era um homem estudado. Ele foi instruído aos pés do Rabino Gamaliel, um dos  mestres da lei mais conceituados em seus dias. Paulo conhecia toda a Escritura, era um homem fervoroso na doutrina judaica. Ele estava convencido da vinda de um Messias da parte de Deus. Ele estava a espera de um Salvador.

Ainda assim Paulo resistia.

“O Filho de Deus em uma cruz? Isto é um absurdo. Apenas os malditos são mortos no madeiro, o Filho do Homem seria um ser divino, em que o Espírito de Deus repousaria sobre ele, que não poderia morrer como um assassino.”

E enquanto resistia, Paulo perseguia.

“Todos os hereges que afirmam que este homem é o Filho do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó devem ser presos. Esta doutrina deve ser exterminada o quanto antes.”

A que temos resistido? Qual área da nossa vida Deus tem tentado transformar e, de forma insistente, temos oferecido resistência?

Diante do Homem Divino, Paulo parou de resistir. Abraçou a fé e passou a se relacionar com o Messias que, segundo as palavras que ele mesmo escreveu anos mais tarde, “se fez pecado por nós” para que pudéssemos alcançar a justiça de Deus. No fim da sua vida o apóstolo afirma: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia”  (2 Timóteo 4:7,8).  Paulo vivera uma vida plena e repleta de sentido ao lado do Cristo.

No que diz respeito à vontade de Deus, a resistência é inútil. Não creio em um Deus que ande atrás de nós com um aguilhão, nos ferindo a cada vez que desconsideramos a Sua voz. Mas creio em um Deus que se revela através da Sua Palavra, que nos mostra a Sua vontade, e que permite que façamos duas escolhas: a obediência, numa postura de humildade que nos leva a um estilo de vida saudável e pleno, repleto de significado, ou a resistência, escolha esta que nos leva a um estilo de vida que “apenas nos trará dor”.

Desenhos na areia

Da descoberta inesperada à exposição vergonhosa e intimidadora. A mulher fora pega em flagrante adultério, arrastada, ainda nua, com os cabelos soltos, até a praça pública. Jogada no meio de uma roda de juízes impiedosos, ela ouve a conversa.

“Ela não merece misericórdia, foi pega em flagrante!”

“Meretriz!!”

“A lei manda que ela seja apedrejada até a morte!”.

E é mais ou menos esse o tom das acusações que alcançam os seus ouvidos.

Ela ouve então as palavras serem dirigidas a um homem que por ali passava. “E você, Jesus, o que diz que devemos fazer?”. A mulher ergue os olhos, procurando o destinatário de tal pergunta, e o que ela acha salta aos olhos. O homem se abaixa, diante dela e de toda aquela multidão de acusadores e, calmamente, como se não fora a ele que a pergunta era dirigida, começa a desenhar no chão. Postura que incomodou, postura que chamou atenção!

“Esse homem é maluco???”

“O que ele está desenhando ali???”

“Ele está nos ignorando!!!”

“Ei, você, responda! O que acha que devemos fazer??”

A resposta foi simples e direta, de uma sabedoria absurda.

“Aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra”

O homem se abaixou de novo, voltou a desenhar.

Um a um os acusadores foram soltando as pedras que já estavam prontas para serem lançadas e foram se retirando, certamente encucados com a reação e com as palavras daquele homem. Não sobrou mais ninguém, apenas Jesus… E claro, a mulher. Como pude me esquecer dela? Bom ,acho que deu certo a estratégia de Cristo.

Os holofotes que antes estavam sobre o pecado daquela pobre moça agora se voltaram para Jesus. Houve uma mudança de foco. Saiu de uma mulher ferida e pecadora e se transferiu para o Deus Homem, aquele que aleatoriamente (ou não!) desenhava na areia com os dedos.

Mais ou menos assim aconteceu na cruz: do ódio para o Amor. Da escravidão para a Liberdade. Do pecado para a Graça. Da morte para a Vida. E o foco de todas as histórias se tornou Jesus Cristo.

Quão bom é me deparar diariamente com o Homem que escrevia na areia e ouvi-Lo dizer a mim: “Também eu não te condeno. Pelo contrário, eu te perdoo. Agora vá para casa e não peques mais.”