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Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

pra mim, pros outros

Hipocrisia nao é uma palavra nova na historia.

“A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, ideias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis ambos significando a representação de um ator, atuação, fingimento (no sentido artístico).”

Hipocrisia é agir e pensar de uma forma, mas publicamente defender outra. Viver por padroes duplos. Faz parte de uma estratégia para manter uma imagem ou poder, algo do qual nao se quer abrir mao.

Nesse momento de crise economica, quanta coisa tem sido defendida por politicos e economistas e passada como “o melhor para a populacao”, “a unica alternativa para o pais”, quando na verdade estao pensando no que é o melhor para o seu bolso ou para a manutencao do seu poder politico. Medidas de corte, de recessao, que acabam com familias, destroem meios de vida, desesperancam os jovens.

Me pego pensando tambem em quantas vezes, na esfera pessoal, também transpareco ser algo que nao sou em prol do que quero aparentar ser. Meu padrao duplo que me faz julgar as pessoas com certos olhos e me avaliar a mim mesma com outros.

Como seria o mundo se vivêssemos pelo que falamos realmente ou se falassemos o que realmente pensamos? Como naquele filme “O Mentiroso”, com o Jim Carrey. Porque sim, se nem quando nos perguntam sem “tudo bem?” respondemos a verdade (a resposta automatica é sempre “tudo bem e você?”), quanto mais nos omitimos e nos escondemos quando os assuntos sao um pouco mais complexos.

Hora de reformar

Nesta segunda-feira, dia 31 de outubro, foi comemorado o dia da reforma. É um dia festejado pelos luteranos e outras igrejas reformadas em memória das mudanças que trouxe Lutero e outros que ousaram lutar contra aquilo que viam de errado na igreja medieval, como a venda de indulgências, que desviava as pessoas da fé em Cristo e as levava a gastar seus recursos para pagar por algo que é grátis: o sangue de Cristo, que traz a salvação.

Revendo o filme “Lutero“, me impressionaram as lutas internas do personagem, mas ainda sim um desejo de permanecer fiel àquilo que ele considerava correto: a fé cristã com base nas escrituras, seguir os ensinamentos de Jesus como estão na Bíblia. Sua fé na Bíblia e sua vontade de compartilhar a palavra de Deus o levaram a traduzir a Bíblia para o alemão, dando o passo para a tradução da Bíblia para as línguas correntes e assim aproximando a palavra de Deus às pessoas comuns, que não falavam latim, grego ou hebraico. Sua coragem de desafiar os poderes da época em prol do que achava correto pode e deve nos servir de inspiração para fazer o mesmo, dentro das nossas realidades, das nossas épocas e de nós mesmos.

Todo dia é dia de reforma. De repensar caminhos, atitudes, estândares, conceitos e preconceitos. Que não nos acostumemos com nossos defeitos, nossos pecados e com os erros da nossa sociedade, nos quais podemos agir.

Que nós tenhamos a coragem e a determinação de Lutero de lutar contra o que achava errado, a favor do que achava certo, tanto na sociedade quanto em nós mesmos. Que Deus nos dê forças para não desfalecer pelo caminho e permanecermos fiéis àquilo que consideramos merecedor de nossa luta.

O que você quer reformar hoje?

Tergiversação

“Em nome do imperialismo humanitário, da atrocidade bondosa e do holocausto benfeitor, intensificamos a agressão pacífica, o bombardeio filantrópico, o extermínio vivificante e o genocídio benévolo para assegurar o arrebatamento honrado, o saqueio generoso e a pilhagem altruísta. Multiplicando as guerras preventivas, expandimos o assassinato profilático, o extermínio saudável, a hecatombe caritativa e a matança benfeitora para impor a barbárie progressista, a democracia oligárquica, o racismo tolerante, o encarceramento libertador, a tortura compassiva e a opressão redentora. Tão elevados fins justificam os meios da fraude informativa, da notícia inventada e a tergiversação verídica que, apoiadas na ocultação transparente, na ignorância ilustrada e na mentira confiável evidenciam a elevada baixeza do nosso oportunismo ético, etapa superior da prostituição moralista que nos assegura a verdadeira mentira da eternidade efêmera da onipotência impotente.” (Luis Britto García, Neolingua)

Tergiversar: v.i. Usar de subterfúgios ou evasivas, variar inseguramente de argumentos e de meios no debate de um assunto.

Até ontem, quando as coisas na Líbia interessavam como estavam, Gadafi tinha aliados no ocidente, ninguém reclamava dele. De uma hora pra outra, esses aliados no ocidente decidem que ele é um ditador e que agora precisa ser derrubado (por que a súbida mudança nos conceitos?). E aí em nome da democracia e da liberdade empreendem uma caça para levar ao oriente os bons valores nossos do ocidente.

Quão dúbia pode ser a nossa moral, a nossa ética e a nossa opinião? Quantas vezes não adaptamos a nossa moral e o nosso discurso aos nossos interesses, nos dobramos e desdobramos em justificativas para aquilo que nos interessa, tentando dar às mesmas alguma consistência “atemporal”, alguma alguma supremacia hierárquica que não pode ser questionada? Em nome da moral, da democracia, da liberdade, do desenvolvimento, da partilha, empreendemos às vezes ações individuais ou coletivas que desqualificam o próprio fim. Nesses casos, os fins não justificam os meios.

Usando-se conceitos evasivos e multifacetados, facilmente pode-se provar mil e uma coisas diferentes, dependendo dos nossos interesses.

O problema em si talvez não seja o “tergiversar”, o ser evasivo, o mudar de opinião. Já dizia JK “Não me cobrem coerência. Não tenho compromisso com o erro”. O problema é tentar sempre encontrar razões morais maiores que nós para justificar nossos atos, atos esses feitos simplesmente porque nos interessava. Não assumir e nos esconder, nos esquivar por trás do que é maior que nós.

Essência e Aparência

“Porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1 Samuel 16:7)

“Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma” (Ensaio sobre a cegueira, Saramago)

Quantas vezes julgamos as pessoas pela aparencia e nos equivocamos profundamente.

Quantas vezes nos julgamos pelas aparencias e nos preocupamos mais com o que os outros acham e menos com o que Deus acha. “O que os irmaos vao falar de mim?” Mas e o que Deus esta pensando?

O amor de Deus nos leva a querer romper barreiras e preconceitos. Enxergar por tras dos rotulos e viver além das regras é o verdadeiro passo de fé. Que isso nao seja desculpa para viver em libertinagem, pois aquele que descobriu a graca de Deus é chamado a viver em gratidão, nao a viver como um incrédulo.

A raiz da alegria é a gratidão. É a gratidão que nos torna felizes. E a gratidão é teocêntrica. A pior coisa que pode acontecer a um ateu é se sentir grato e não ter a quem agradecer, ja dizia Chesterton.

Mas nos fechar em rotulos e em medidas preconcebidas simplesmente “porque sempre foi assim” é tao errado quanto.

Quando a glória do Deus transcendente está fora da nossa pauta, nossa atenção se volta para o comportamento humano, para o cultivo de virtudes e para a eliminação de defeitos, para as qualidades do discípulo e assim por diante e nao para a vivência da fé em si.

(Inspirado em Série por que somos assim: Despojados e Desencanados, Ajuntamento, disponivel aqui. Se você é muito sensivel, nao escute)

Da crise econômica

Muito tem sido dito sobre a crise econômica. Muitos culpam a avareza individual dos banqueiros, dos corretores, dos investidores, dos funcionários das agências de regulação e das agências de avaliação dos ativos… Teriam sido eles avarentos? Não tiveram compaixão para com as pessoas para as quais venderam os ativos? Enganaram seus clientes? Onde estava a sensatez dessas pessoas que ganharam rios e rios de dinheiro e deixaram velhinhos sem aposentadoria, famílias sem casa, jovens sem emprego e com grandes dívidas…?

Sem querer tentar diminuir as coisas e as responsabilidades individuais, mas o mundo em que essas pessoas viviam, as pessoas com quem conviviam, as revistas que liam, as escolas onde estudavam, todos diziam exatamente a mesma coisa: que agindo daquela maneira, procurando aumentar os lucros e fazer o dinheiro rodar estavam favorecendo a si mesmos e aos que estavam a sua volta. Que a “avareza” individual, a busca pelo sucesso pessoal traria sucesso para a sociedade como um todo.

A história nos mostrou que não, que tudo o que fez foi criar mercados mais instáveis e compartilhar as perdas com aqueles mais vulneráveis. Mas antes ninguém se deu conta e mesmo agora muitos se recusam a admitir.

“Diga-me com quem andas e eu direi quem és”: andando naquele meio, era muito fácil ser mais um que jogava o jogo. Aqueles com quem escolhemos nos relacionar, aquilo que resolvemos escutar ou considerar correto tem muita influência no que seremos e em como viveremos nossa vida.

Não é facil ser justo estando na roda dos escarnecedores, mas você pode escolher se afastar dessa roda.

Sobre os passarinhos

Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? (Mateus 6:26)

Você já viu um passarinho dormindo num galho ou num fio, sem cair?

Como é que ele não perde o equilíbrio? Se eu dormisse assim, em um minuto perdia o equilíbrio, caía e me machucava.

Mas o segredo está nos tendões das pernas do passarinho: quando a articulação das patas, os “joelhos”, estão dobrados, as garras dele se fecham automaticamente e ele se mantém firmemente agarrado ao galho ou fio. Ele só solta quando desdobra as patas e fica pronto pra voar.

É o joelho dobrado que o segura, que o mantém em equilíbrio, que o mantém firme, mesmo quando ele dorme e “perde o controle” de si mesmo.

Conosco não é tão biológico, mas o mecanismo é o mesmo: é o tempo que passamos com os “joelhos dobrados”, em oração, que nos mantém firmes no galho, firmes na caminhada. Mesmo que dê medo da altura, do vento, que os outros digam que você vai cair, o que te sustenta – e precisamos confiar nisso – são seus joelhos dobrados, em reverência, adoração, agradecimento ou em súplica àquele que nos criou. Tentar confiar no nosso próprio equilíbrio, na nossa própria experiência de pássaros antigos só vai nos levar a cair.

O que você tem buscado para manter seu equilíbrio?

Só dá valor quando perde

No dia-a-dia da vida, há coisas “bobas” que a gente só dá valor quando perde.

Estou no exterior e é engraçado como aqui as pequenas coisas da casa da gente, da cultura da gente, do povo da gente vão fazendo falta: o simples fato do brasileiro se compadecer tanto do outro e de tentar o possível pra ajudar; a comida; os sorrisos; a amabilidade; a música; a alegria. Coisas que a gente nunca se dá conta de que daria falta. Coisa que a gente não sabia ser tão importante.

As mudanças na vida da gente trazem novas experiências, novos aprendizados e novas vivências conosco, com os outros e com o nosso ambiente. Passamos a enxergar as coisas de outra forma, valorizar o que temos e o que tínhamos. Mas é engraçado: tudo que é visto à distância se torna romântico. Aquilo que vemos de longe, cujos defeitos não vemos, nos parece maravilhoso, mas quando vivemos o dia-a-dia vemos que não é.

A saudade do tempo que passou ou das pessoas de quem sentimos falta não devem nos entristecer, mas, como disse uma amiga, essa saudade é sinal de que fomos felizes no tempo que passou. Um sinal de coisas bem vividas, que, antes de ser um sinal de agouro, é um sinal de que coisas mais legais ainda estão para ser vividas.

De todas maneiras…

… você tem sido verdadeiramente grat@ por aquilo que tem?

Escalada

“Não quero conhecer mais ninguém. Porque você conhece e justamente quando começa a se apegar, as pessoas vão embora.”

Ouvi isso de um amigo não faz muito tempo. Realmente é muito difícil criar amizade profunda com alguém e ainda mais dolorido quando um dia chega a hora da separação. É difícil ver que a vida continua sem você, que você vai e as pessoas e os fatos não param no tempo.

Estou passando por períodos de grandes mudanças na minha vida e é complicado. Mas não podemos nos esconder atrás da “prudência” e assim evitar os relacionamentos, evitar criar laços, evitar conhecer o outro. Podemos estar perdendo grandes oportunidades dessa maneira.

Relacionamento é assim: dar um pouco de si, receber um pouco do outro, construir caminhos em comum. Cada pessoa que passa deixa uma marquinha. O medo de nos relacionar vai sim nos proteger das marcas doloridas, mas também vai nos impedir de viver as marcas gostosas. Todas, afinal, são marcas, e vão moldando quem somos.

Quem se apegar à sua vida, vai perdê-la.

Slavoj Žižek dá um exemplo nesse livro que achei muito interessante: o soldado que se vê numa situação de risco, cercado pelos inimigos, tem duas chances. Ou ele fica paralizado pelo medo e pelo apego à sua vida e se mantém ali, encurralado; ou transforma esse medo e a vontade de viver em coragem para enfrentar os inimigos. A única chance que ele tem de sobreviver é se ele se arriscar. Ele tem que estar preparado para perder a vida se quiser ganhá-la.

Hoje tive a oportunidade de escalar pela primeira vez. E quando você está lá no alto, por vezes o medo de se lançar mais alto te paralisa e dali você não sai. Mas é esse medo de cair que te impede de subir o próximo obstáculo que te faz ficar parado no mesmo lugar, agarrado naquela pedra, com medo de se mexer. Aí você se cansa e aí sim cai de verdade: o medo de se arriscar e de cair te faz ficar no mesmo lugar e é aí que você cai mesmo.

O mesmo com tudo na vida: o medo da mudança, da entrega, do relacionamento nos paralisa, a inércia toma conta. Mas ficar sempre no mesmo lugar é perda. O medo da inação nos trava.

Pra ganharmos a vida de verdade precisamos ir um passo além, estando preparados e abertos para os novos desafios.

(A todos os que deixaram e estão deixando marquinhas na minha vida)

Do protagonista

Somos um grão de areia na história do mundo. Construímos navios, fomos à lua, avançamos na cura de doenças, terminamos um curso universitário, passamos num concurso, temos sucesso na empresa: tudo é mais um grãozinho de areia na história do universo, embora nos pareça muita coisa.

Nos cremos ser muita coisa e de fato fomos criados para ansiar sempre mais, sempre algo melhor. Porém, muitas vezes nos cremos autossuficientes. Independentes. E nos perdemos em nossos monólogos ou em nossos diálogos, sem deixar que participe ativamente aquele que é o ator principal.

Deus é o verdadeiro protagonista da história: da do mundo e da nossa, embora queiramos sempre roubar a cena. No evangelho vemos diversos personagens: Nicodemos, Marta e Maria, Lázaro, os apóstolos, Maria e José… Mas o foco nunca deixa de ser Jesus: os outros aparecem e cumprem a função de que conheçamos mais do caráter dele, do cuidado dele conosco.

Nunca estamos no controle da nossa vida. Melhores são os momentos em que admitimos nossa pequenez, nossa dependência.  Deus é o verdadeiro protagonista e nós como atores principais somos, francamente, um desastre.

Não vou perguntar quem é o protagonista da nossa vida, pois já sabemos a resposta. A pergunta que deixo é a seguinte: temos confiado que esse protagonista está cuidando das cenas, dos scripts e dos cachês? Temos seguido as suas deixas e seus roteiros ou a nossa vida tem se caracterizado mais pela rebeldia e pela vontade de ganhar o papel principal?

Confiança

“Estava em grande dúvida. A vida lhe colocava muitos caminhos. Qual porém era o caminho correto a escolher? A dúvida o corroía.

Viajou muito, para terras distantes. Queria encontrar aquela mulher, tão sábia, tão próxima de Deus, que, quem sabe, poderia ajudá-lo em seus questionamentos. Encontrando-a, lhe pediu:

– A senhora poderia orar para que eu tivesse clareza do que fazer? – Ele pediu

– Não farei isso. – Ela respondeu, com firmeza – Clareza é a última coisa à qual você deve se apegar.

– Mas eu sempre achei que a senhora tivesse muita clareza e é isso que eu anseio ter! – Ele replica

– Não, meu caro, nunca tive clareza – Responde ela, sorrindo – Sempre tive confiança em Deus. Vou orar para que você tenha confiança.”

Quando vamos em busca da clareza, tentamos eliminar o risco de crer em Deus. O medo do caminho a seguir destrói a nossa confiança na bondade de Deus e em seu cuidado por nós.

É a velha história do equilibrista que, ano após ano, pendurava uma corda que atravessava uma catarata. Todos os anos ele a atravessava de uma forma diferente. As pessoas, às margens, aplaudiam e vibravam com ele. Torciam e lhe mandavam palavras de encorajamento. Louvavam a destreza e a capacidade do equilibrista de conseguir realizar manobras tão arriscadas. Até que ele pede, dentre a platéia, que um voluntário se sente em um carrinho de mão, para que ele o leve de um lado para o outro da catarata. Silêncio. Falar é fácil. Confiar, arriscar a pele é outros quinhentos.

Crer não é simplesmente acreditar na distância, na teoria e na teologia. É “se jogar” nos braços de Deus, confiar que ele fará. “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós” (I Jo 4:16)

Confiar nem sempre desfará a nuvem de dúvidas que nos envolve ou acabar com a incerteza. Mas é a nossa necessidade mais urgente.