Amor em conserva

Se a fruta precisar ser transportada, terá de ser enlatada e, com isso, perder um pouco de suas boas qualidades. Mas encontramos gente que, na verdade, aprendeu a preferir a fruta enlatada em conserva à fruta fresca”.

Essa frase de C.S.Lewis nunca foi tão atual. Nós sabemos de nossa superficialidade, mesmo que inconscientes dela e que temos uma mania quase incontrolável de enlatar as coisas e esquecer do sabor original.

Os fariseus enlataram Deus, o colocaram dentro das tábuas da lei. E em Cristo, temos a chance de experimentar a fruta fresca, mas preferimos consumir um amor a Deus “em conserva” nos nossos ritos, nas disciplinas rígidas, nas tradições e na lei como um fim e não como meio. Paradoxalmente, sabemos que é a obediência a Deus que nos liberta.

Enlatamos nossos relacionamentos, no mundo virtual por exemplo, onde pedimos aprovação através de curtidas, demonstramos sentimentos por emoticons animados e compartilhamos nossas vidas pelos áudios de WhatsApp. Também o sexo que tem se tornado virtual, não apenas pela falta do corpo presente, mas também por corpos que se encontram sem unidade.

Nossas igrejas estão enlatadas. Porque temos preferido a coletividade em detrimento da membresia. Falo sobre ser membro do corpo de Cristo, como Paulo nos ensinou, onde somos todos diferentes e complementares, assim como os órgãos do corpo. Cada um tem um nome e é importante e digno. Na igreja de Cristo, somos membros uns dos outros. Diferente de igrejas que cultivam uma coletividade secular, onde somos tratados como números, parte de um corpo de estatísticas e resultados. É quando o nome é substituido por um número, e quando este se perde, ninguém sabe quem é, mas será atualizado na estatística.

Que possamos saber diferenciar uma fruta enlatada do sabor inigualável de uma fruta natural, que possui os nutrientes da vida.

Abraços.

11 comentários sobre “Amor em conserva

  1. Super interessante. Não consigo deixar de notar que a religião é uma tentativa de enlatar a realidade.
    Abraços!

  2. Concordo com você, Arthur.

    Por isso, o evangelho vai além da religião. Porque a essência do evangelho é o relacionamento com uma pessoa (Jesus Cristo)e não com um conjunto de crenças, ritos e etc. Sem essa Pessoa, não há sabor verdadeiro.

    “Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3)

    Abraço

  3. Legal que você concorda, Fael!
    Só esquece que isso que você chama de relacionamento pessoal com Jesus é sinônimo de religião. Por exemplo, você acredita que tem um relacionamento com Jesus (um crença), você acredita que Jesus existe (outra crença), você conversa com Jesus (um rito). É mais fácil admitir logo que é religioso e vestir a camisa. Ficar tentando disfarçar só piora as coisas.

    Grande abraço!

  4. Artur, na antiguidade grega, os sofistas usavam a “Erística”, uma técnica de debate filosófico baseada em habilidade verbal e de raciocínio lógico. A ideia era de vencer os debates mesmo que não tivessem convicção de que o que estavam falando era verdade.

    Talvez você esteja usando da mesma habilidade para tentar convencer a sí próprio daquilo que está tentando crer. Porque tenho quase certeza de que você não tem convicção dos argumentos que apresenta. Ainda bem, porque sinto que você sabe qual é a Verdade que liberta.

    O que você está tentando chamar de religião, eu estou chamando de espiritualidade. Espiritualidade é a experiência humana do sagrado, transcendente, divino.Religião é a maneira como o ser humano organiza e vivencia sua experiência de transcendência. A religião é condicionada a dogmas, ritos, códigos morais e grupos de pessoas que acreditam nas mesmas coisas e celebram sua espiritualidade. Dizer qual é a sua religião sugere alguma coisa, mas não diz exatamente sobre sua espiritualidade. Hoje li que “é mais facil encontrar uma pessoa religiosa do que um espírito livre capaz de amar”.

    Relacionamento (o nome já diz) não é simplesmente uma crença. E conversar com Ele não é um rito, é apenas mais uma forma de se relacionar. E até por isso não preciso vencer uma disputa nem provar nada. Jesus me prova a cada dia do Seu amor por mim. E isso ninguém pode me provar do contrário.

    Creio que você tem mais certeza dessas coisas do que dos argumentos que propôs. Quando desistir de provar ao contrário, vai voltar a cultivar a transcendência conosco…rsrs

    Grande abraço e continue participando com a gente.

  5. “E isso ninguém pode me provar do contrário.”
    Se você não é capaz de mudar de idéia, talvez não seja eu que esteja usando a Erística.
    :smile:
    Abraços

  6. Artur, nós nos conhecemos pouco, mas que você é um cara muito inteligente eu não tenho duvida. Então vamos lá: “ninguém pode me convencer do contrário” foi uma referência ao meu relacionamento e minha experiência com Deus. Repito: uma experiência. Se você toma um copo dágua e alguem diz que você não tomou, existe alguma chance de você se convencido do contrário? Só se houver algum problema. Nesse caso, não é eristica, é experiência. Mais uma vez você pinçou uma frase pra argumentar. Abraços

  7. É bem diferente algo concreto como beber água e experiências com Deus, não acha?

    Você está dizendo que não é capaz de se questionar “Será que Deus não existe? Será que todo esse tempo rezei pro vento?”? Não exista a possibilidade de um dia você olhar pra traz e pensar que era tudo mentira? Afinal as experiências com Deus são coisas bastante abstratas, interpretações de coisas que você sente, só. Diferente de “eu comi um arroz com feijão ontem no almoço”.

    Mas suponhamos que eu seja esquizofrênico. Posso ter vários delírios. Com muita dificuldade e fazendo tratamentos, seria possível eu ter insights e reconhecer que coisas que acreditava eram falsas, talvez até alucinações que eu tive etc. Me parece muito radical dizer que é impossível mudar de idéia a respeito de suas experiências com Deus, não acha?

    Abs

  8. Sim, em certo sentido é diferente, mas ainda sim é experiencia. Sinceramente, já passei dessa fase de questionar “Será que Deus não existe? Será que todo esse tempo rezei pro vento?”.

    Tenho lá as minhas dúvidas sim (e tenho coragem pra admitir), mas é possível confiar em uma pessoa e desenvolver um relacionamento íntimo com ela mesmo quando não sabemos tudo a seu respeito. É também verdade que o que pensamos a respeito de uma pessoa afeta a maneira como nos relacionamos com ela.

    Artur, a fé é também uma busca por entendimento ou como diz John Stott “Crer é também pensar”. E quanto mais desejo conhecer a Deus, mais perguntas eu faço e nesse processo de entendimento surgem as duvidas. Mas quando eu confundo Deus com o que eu penso de Deus, aí sim eu coloco em risco a minha fé.

    E por mais paradoxal que isso seja, são as perguntas que faço que fazem minha fé aumentar. Afinal, se eu tivesse certeza de tudo, eu não precisaria de fé. E fé todos nós temos. Só muda o objeto da nossa fé.

  9. Não sei se beber água é tão diferente assim de uma experiência com Deus.
    Há razão, sensação e fé em ambas situações.
    Depende do nível de comparção.

    Por falar em beber água…
    Um dos pais do aleatório, discorreu sobre:
    “O primeiro gole do copo das ciências naturais pode até torná-lo ateu. Mas, no fundo do mesmo copo, Deus o aguarda.”
    Werner Heisenberg.

    Depende de quantos goles.

  10. Galera, é totalmente diferente beber água de se relacionar com um ser imaginário.

    Não, nem todo mundo tem fé.

    Patrick, bacana a citação do Heisenberg, bem famosa. Será que é um ponto a favor ou contra a religião? O autor da frase foi criado desde criança como cristão e isto produziu nele fortes convicções religiosas que, apesar de todo conhecimento científico que adquiriu, se mantiveram durante toda sua vida.

    Grande Abraço

  11. Interessante é que muitos dizem que a quântica nega Deus, mas não para um dos pai dela. Heisenberg mesmo após conhecer e fazer ciência, mesmo em contato com “o mundo ateu”, mesmo após conhecer vários argumentos contrários a sua base cristã, compreendeu que Deus fazia mais sentido.

    Qual o problema de ser criado em algo e permanecer com as convicções ?
    A pessoa tem que necessariamente mudar de opinião após conhecer argumentos contrários ?
    Gostando ou não , a razão superior de Heinseberg proporciona um pouco de credibilidade para a idéia de que também há Razão na vida cristã.
    Evidentemente, essa credibilidade não é absoluta.

    Vou aguardá-lo no email. ( Já enviei um)
    Cartas a Arthur Sevalho.

    Abraço.

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