A paixão no fundo do poço

As coisas já não estavam bem há algum tempo, mas desta vez parece que chegou ao fundo do poço. A oração parece não ser ouvida por Deus. Os amigos, até mesmo os mais próximos, parecem agora virar as costas impacientes, incompreensíveis, indiferentes à sua questão. A Igreja, no lugar de oferecer os braços abertos, o condena. Talvez pudesse recorrer ao Estado, mas ele nada tem a ver com sua vida privada. Poderia apelar ao povo, mas moralmente o que foi feito não encontraria respaldo na opinião pública. O choro, a angústia, o sofrimento… nada poderia aplacar a dor de ter chegado no fundo do poço. O questionamento em relação a Deus é um só e resta apenas um grito entalado na garganta…
Na história da humanidade outra pessoa muito significativa também passou pelo fundo do poço. Num determinado dia sua oração triste avançou madrugada adentro, sem resposta como a sua. Seus amigos mais íntimos dormiram enquanto ele pranteava. A Igreja da época o perseguiu com tochas nas mãos clareando aquela noite fria. O Estado não foi indiferente, mas apoiou a Igreja na sua caça, apanha e morte. O povo que ele tanto ajudou se transformou numa espécie de massa alienada e também não lhe ofereceu abrigo. Jesus! No jardim Getsêmani em meio ao suor ensanguentado,  ele gritou a Deus o que você tem vontade de gritar: “pai, por que me abandonou?”
Jesus, mesmo sem merecer, passou por uma dor absurda. O momento da crucificação não foi tão romântico como nos  belos quadros pendurados nas catedrais.  Ele também passou pelo fundo do poço. Não por acaso este é o momento chamado de “paixão de Cristo” (o momento no Jardim não é toda a paixão, mas não há como falar dela sem contemplar esta noite de Jesus).
Toda a dor não se justificaria se Jesus tivesse simplesmente morrido. Ele seria somente mais um deus morto como todos os outros supostos deuses que já passaram pela Terra. Jesus foi diferente: ele ressuscitou e saiu do poço. Com ele também saiu nossa necessidade de desespero no poço. Jesus também sofreu na vida e também chegou ao fundo do poço. Saber disto é muito confortante, ele verdadeiramente sabe como você se sente. Por meio de sua paixão ele lhe oferece hoje, mais do que nunca, a mão para que você saia desta situação de uma vez por todas. Não há poço mais fundo que a falta do amor e da presença de Deus. Minha oração é para que você possa se agarrar a esta oportunidade e volte à vida.

Referência: Oração: cartas a Malcolm: reflexões sobre o diálogo íntimo entre homem e Deus / C.S. Lewis; tradução Antivan Guimarães e Jurandy Bravo. – São Paulo: Editora Vida, 2009.

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

Um comentário sobre “A paixão no fundo do poço

  1. Voltar à vida, acho que o tempo mínimo que alguém conseguiu voltar à vida depois do fundo do poço foi 3 dias mesmo…..heheheheh…. belo texto mermão…. muito bem bolado

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