A mensagem e o mensageiro

“A despedida. O beijo. Lágrimas. ‘É melhor eu ir.’ Entra na sala de embarque, sem se importar em conter as lágrimas, que, já longe deles, correm soltas. Uma estranha se compadece e lhe compra uma garrafa de água. ‘Talvez isso te acalme’. Mal sabia que, quando estivesse de volta aquele aeroporto, já não haveria motivo para choro.”

E estremeci de imaginar que, em breve, longe de Kriska e de sua terra, todas as palavras húngaras me serviriam tanto quanto essas moedas que me sobram nos bolsos de torna-viagem.” (Budapeste, Chico Buarque)

Igualmente ao filme Tempos de Paz, Budapeste, trata da temática de aprender uma nova língua, nova cultura, adaptar-se a uma nova realidade. Esse processo de aprendizado sempre é muito enriquecedor. Conviver com pessoas diferentes é sempre interessante, por nos fazer aprender sobre nós mesmos. É quase um exercício antropológico de estranhamento e percepção de nós mesmos. Exige jogo de cintura: faz parte também o abrir mão de nós mesmos, das nossas vontades, muitas vezes, em prol de uma vontade maior do grupo. Um exercício de desprendimento e consenso.

 

 

Temos diversas formas de passar uma mensagem pros outros. Em diversas línguas, de diversas maneiras. Umas línguas são mais poéticas, outras mais lógicas, algumas mais políticas, outras mais universais, algumas mais espontâneas e outras mais isoladas, como o português. Sobre o isolamento do português, é impressionante como não nos damos conta de que essa é uma língua muito pouco falada aí fora. Paulo Henriques Britto tem um livro chamado Macau: assim como Macau é uma “ilha” em que se fala português no meio da China, da mesma forma estamos isolados do resto do mundo falando português. O que pode ser bom, se queremos contar segredos…

Como escrevi em um post anterior, a forma como passamos nossa mensagem é decisiva para sua aceitação: se apresentamos as coisas com arrogância, duvido que a mensagem terá a mesma credibilidade que teria se nos apresentássemos como servos humildes, como meros aprendizes. Para públicos diferentes, não é que a mensagem tenha que ser mudada, mas sim a abordagem. Paulo, em Atenas, apresenta Deus aos gregos (At 17:23) de uma maneira nada ortodoxa, utilizando aspectos da realidade deles, no caso o altar ao deus desconhecido.

A verdade é que a mensagem cristã em si tem poder em si mesma: Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade; Uns, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda. (Fp 1:15-18) Mas é claro: nossas atitudes e a maneira de comunicarmos a mensagem muito ajudam, por dizer muito de quem somos. Creio que devemos buscar ser pessoas flexíveis, adaptáveis às situações, aprender com as diferenças. Podemos aprender muito com os outros, com as diferenças, com novas experiências. Crescemos, nos tornamos pessoas melhores. Mas, de fato, é mais cômodo permanecermos onde estamos.

Temos tido jogo de cintura e sensibilidade em relação ao diferente? Por que temos tido tanta cautela em buscar coisas diferentes?

(A ser continuado na quarta que vem… aguardem…)

P.S.: O título foi só pra brincar com um post de outro amigo meu.

ana.oliveira

Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

5 comentários sobre “A mensagem e o mensageiro

  1. Oi Homero! Bom, creio que com o post da semana que vem vai ficar mais claro o que eu estava pretendendo com esse (assim espero!)

  2. Acho que é isso aí nao? Adaptação. Choque de Cultura. Mensagem. Missão.

    Só a pergunta “pq tanta cautela em buscar o diferente?” é que sai desse padrão, mas o seu desenvolvimento trata daquelas palavras que falei, nao ana?

    bjo

  3. É, Gabana, isso mesmo. Talvez na minha cabeça a pergunta tenha feito mais sentido, confesso que o post não ficou muito claro, mas espero complementá-lo na semana que vem.
    Mas é no sentido de que acho que às vezes procuramos a comodidade do conhecido, do porto seguro ao invés de se lançar a coisas novas, experimentar coisas diferentes. Até porque, para servir a Deus, teremos que sair do nosso “porto seguro” (vide o doador de sonhos) e buscar ir mais além. Mas não só no servir a Deus puro e simples, o se lançar pra fazer coisas diferentes pessoalmente/profissionalmente é também muito edificante. O tanto que podemos crescer com essa experiência é algo avassalador…

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