A Cabeça

Seis horas. Largou a caneta como se tivesse tomado um choque. Não agia assim no trabalho mas naquela sexta -feira em particular estava de saco cheio. E louco para descansar.

Saiu logo do escritório rindo consigo mesmo: “quem sair por último apaga a luz!”. Ligou o carro. Entrou no trânsito do rush de sexta.

Teve uma hora inteira até chegar em casa. Não importava, já estava fora do escritório. Na verdade, ainda não conseguia descansar de fato, mesmo ouvindo suas músicas do mp3. Via as placas na rua mas também via os números do contrato. Não importava, quando chegasse em casa descansaria. Ah, esse trânsito. “Não sei como vai ser na Copa”.

Rodou a chave. Sentiu a paz invadi-lo quando a escuridão e o silêncio da casa o tocaram. Finalmente. Agora poderia descansar. Permitiu-se uma cerveja. Sexta-feira. Sentou-se em frente à televisão. Sexta-feira. Começou a passar os canais. Mas em todos havia algo em comum. O contrato. Não importava. Acabara de chegar, logo esqueceria.

Às 22h desligou a TV. Não conseguiria sair mas não importava. Sexta-feira. Dormiria até tarde. Deitou-se. Os números. Revirou-se. O contrato. Revoltou-se, levantou-se.

O leite. O cliente. Deitou-se. A meta. Ficou olhando o teto. Não conseguia dormir.

Teve que ir até o escritório ainda naquela madrugada. A pasta viera. As chaves estavam com ele. O laptop, a carteira, tudo. Esquecera lá, porém, a cabeça.

4 comentários sobre “A Cabeça

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *